Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

São Francisco de Assis

Apresentação

No livro o Projeto Evangélico de Francisco de Assis, o escritor e frade menor Thaddée Matura lembra que ninguém pode reviver o carisma pessoal de Francisco. Somente a ele pertence e não há repetições na história. “Mesmo que por exigência dos fatos estendamos o carisma ao grupo dos primeiros anos, é preciso reconhecer que a existência da graça das origens, o dinamismo, o frescor, a novidade dos inícios não se repetem a cada geração (…) É nisto que reside seu poder de atração”.

Neste Especial de São Francisco, Frei Hipólito Martendal nos convida a uma reflexão sobre este fascínio que exerce em nós São Francisco, seja como modelo da paz (Dom Paulo Evaristo Arns), como o irmão de todas as criaturas (N.G.Van Doornik), como o pobre de Deus (Frei José Carlos Pedroso) e como missionário. Falamos um pouco sobre aquele que, durante mais de oito séculos, vem revelando, emocionando e falando sobre São Francisco, já que conviveu com ele: Thomas de Celano, o primeiro biógrafo.

Francisco encanta

Por Frei Hipólito Martendal

1. São Francisco encanta muita gente. Em artigos, referi-me algumas vezes à atração, ao fascínio que São Francisco exerce sobre pessoas de diversas religiões e até mesmo sem religião. Lembrava que o título de “A Personalidade do Milênio”, conferido pelos leitores do “New York Times”, não era bem uma homenagem de católicos fervorosos devotos do Poverello de Assis. Boa parte dos leitores é constituída de protestantes. Outros são católicos mais ou menos frios. Existem leitores materialistas e agnósticos (que em nada creem). Por que, então, votar em São Francisco, um modelo tão pouco moderno, tão antimaterialista e tão católico?

2. São Francisco encarnou a essência do cristianismo. Aí está a resposta. São Francisco foi um dos raros seres humanos a compreender e a viver profundamente o cristianismo tal qual foi imaginado e vivido por Jesus. Isso significa que o Cristianismo em sua essência é belo e pode exercer poderosa influência sobre o ser humano. O problema está em que raras são as pessoas capazes de viver bem a alma do Cristianismo. Por isso, nossa luz, que devia ser um farol, transforma-se em uma velinha bruxuleante, como aquelas ridículas “velas-de-sete-dias” que toda hora se apagam e, quando acesas, iluminam quase nada.

3. O cristianismo em sua essência é humano. Uma das coisas que sempre me atraíram para o Cristianismo foi minha convicção de que Cristianismo e Humanismo têm muito em comum. Existe, em nossa cultura, forte tendência a apresentar o ser humano, a humanidade, a materialidade de um lado e Deus, o espírito, Jesus e o Cristianismo do outro, como dois mundos de difícil conciliação e entendimento. Para alguém se tornar cristão parece que é necessário renunciar à sua própria natureza e violentar a todas as suas tendências mais profundas. É mais ou menos como se Deus tivesse criado o ser humano e este tivesse fugido do controle e das intenções do Criador. Um filósofo, não me recordo agora quem, afirmou que o ser humano é um projeto que deu errado.

Mais cedo ou mais tarde precisamos fazer uma profunda revisão sobre a influência do maniqueísmo em nosso pensamento cristão. É necessário repensar toda a doutrina tradicional sobre o pecado original. Tal qual ela é entendida tem como conseqüência aceitar a idéia de que Deus foi um Criador inepto, incompetente, um aprendiz de feiticeiro desastrado. E o ser humano, como seu feitiço, teria se voltado contra Ele.

Claro que nós, humanos, podemos nos voltar contra Deus. Mas isso acontece não por inépcia divina, mas como fruto da sabedoria divina, por ter-nos criados livres. Deus, melhor do que ninguém, sabe que nenhuma adesão, nenhum amor, sem liberdade tem sentido. Então, ou Ele, Deus, criaria o homem livre, ou nunca seria amado por nenhuma de suas criaturas!

4. Convergências entre o humano e o cristão. Estou convencido de que existem muitos elementos em comum entre estas duas realidades. Em primeiro lugar, temos a própria liberdade como um valor essencial para dar sentido a qualquer ato humano autêntico. Deus nos criou para a liberdade. Em toda a história da raça humana, nenhuma virtude, nenhum ideal levou tantas pessoas até o sacrifício da própria vida, como a liberdade. Ela está entre os anseios maiores de todo ser humano autêntico, não escravizado por vícios ou desejos patológicos de posse. Jesus fala da liberdade como uma conquista a ser alcançada através da verdade. Muitos pensadores cristãos veem em algumas cartas de São Paulo uma espécie de “Evangelho da Liberdade”. Uma coisa é certa: a liberdade faz parte da essência do ser humano enquanto criatura de Deus e enquanto cristão.

Outro item importante dos ideais do ser humano simplesmente enquanto gente e enquanto cristão é o ideal do casamento indissolúvel até à morte. Parece estranho, não é? Não vamos falar do que a mídia pondera sobre o assunto. Mas quando recorremos às lendas, aos mitos, aos grandes romances, sempre aparece, em todo amante, em cada amada, o desejo, o sonho, a fantasia de um amor e comunhão eternos! Deus criou o ser humano para que tenha a posse eterna da alegria e da felicidade. Por isso, o sonho de realizações eternas faz parte de nossa natureza.

O exemplo que vou apresentar agora é ainda mais surpreendente. Uma vez li um artigo com o seguinte título: “O Cérebro que é bom não pensa”.

Maravilhado com a leitura, pus-me a pensar nas muitas situações de vida e das atividades humanas nas quais o cérebro pensante precisa ser desligado para conseguir-se um bom desempenho. Por exemplo, tentar dormir pensando na necessidade de dormir, provavelmente, resultará numa bela insônia. Mesmo o cestinha, numa partida de basquete, acerta mais lances de curta e média distâncias em ataques rapidíssimos do que em lances livres parado, a curta distância, sob os olhares de todos e com muito tempo para pensar. Um artista preocupado com seu desempenho comete muito mais falhas do que aquele que se entrega à arte sem nada pensar. Em situações de emergência e grande perigo, o cérebro de um bom motorista realiza cálculos supercomplexos em frações de segundos e comanda movimentos de grande precisão sem nada poder pensar. Sem isso muito mais gente morreria nas estradas e ruas.

Em perfeita sintonia com esses aspectos da natureza humana, muitas das melhores atividades e atitudes cristãs ocorrem sem cálculos, sem raciocínios. São frutos de puras intuições e de impulsos. Às vezes, só ocorrem em estados alterados de consciência, estados meio oníricos, meio inebriados. Sem isso não existe contemplação, a forma mais completa de oração e experiência com Deus. Mas até em situações bem concretas e materiais, como dar uma esmola, socorrer o necessitado, é melhor que as coisas se deem sem cálculos e raciocínios “que sua mão esquerda não saiba o que faz a direita”, diz Jesus.

5. São Francisco é a síntese. Já é lugar-comum dizer-se que Francisco é o mais santo dos homens e o mais humano dos santos. Já afirmei uma vez que São Francisco é uma espécie de milagre vivo. Apesar do maniqueísmo virulento de sua época, que ditava o desprezo de toda a materialidade e da natureza humana, apesar da feroz penitência que se impôs, Francisco perseguiu e viveu a alegria. Apesar de seu horror ao pecado, serviu a toda gente com imensa inocência e ternura. Até o assaltante era chamado de “irmão ladrão”, a quem o guardião do convento devia dar alimento quando batesse à porta.

Meus caros leitores, sou obrigado a voltar a esse tema. Aguardem. Obrigado pela compreensão!

Francisco, modelo de paz

Por D. Paulo Evaristo Arns

A festa de São Francisco, em 4 de outubro, transformou-se em símbolo do esforço da Igreja pela Paz. Todos nos lembramos com gratidão da viagem de Paulo VI às Nações Unidas e do pedido humilde, mas corajoso, do Pontífice, de se transformarem os canhões de guerra em arados para a construção da paz duradoura.

Nos tempos de São Francisco, não havia homem que não andasse armado, e homens armados podem transformar-se facilmente em homens de guerra. Como nos dizia certa vez um mexicano: “Em minha Juventude, carregava-se sempre o revólver no cinto e morriam muitos homens pela violência. Hoje, andamos desarmados e já são poucos os que assim morrem”.

Para conseguir um movimento de paz, São Francisco fundou sua Ordem Terceira, que obrigava a todos os membros a andarem sempre com a expressão “Paz e Bem” sobre os lábios e com o cinto e o ânimo desarmados.

Esse movimento provocou tamanha simpatia entre os homens, que se alastrou por sobre o mundo inteiro, conquistando adeptos entre todas as classes e transformando-se em autêntico fermento da idéia “PAZ”.

No entanto a educação para a paz tinha que partir do exemplo daqueles que podem fazer guerra, das autoridades. E havia o que mudar.

O próprio Bispo de sua terra e a autoridade civil se guerreavam. São Francisco não se acovardou, e com sua simplicidade costumeira foi pedir a ambos que fizessem as pazes. Conseguiu-o, mais por persuasão pessoal, do que por argumentos históricos.

Quando, já moribundo, é transportado para sua terra, Assis, abençoa-a do alto de uma colina, desejando-lhe a paz e oferecendo sua serenidade diante do maior inimigo – a morte – como exemplo a todas as gerações. A morte assim se transformou em irmã, que conduz ao desabrochar total na paz eterna.

Mas antes de morrer, já enviara seus arautos da paz, os Frades Menores, dois a dois, a todos os pontos cardiais do mundo, com a mensagem evangélica da Paz: contínua conversão interior; vida em favor dos outros; renúncia aos bens que podem provocar a guerra, e carinho em favor daqueles que não vivem em paz porque estão marginalizados.

“Deixo-vos a paz, dou-vos minha paz”, havia dito Jesus.

Paz significa, segundo os textos evangélicos, um incentivo para todos aqueles a quem Deus ama. Ter paz interior é olhar para os outros com o respeito e o amor de quem olha para Jesus. Ter paz interior não é outra coisa senão identificar-se a tal ponto com os sofrimentos dos outros “que não haja quem sofra, sem que eu sofra com ele”. Por que não dizê-lo, paz interior significa também ter liberdade de falar a Deus como a um amigo e fugir a tudo que possa empanar esta amizade.

Neste ponto, São Francisco é o grande mestre da paz. A tal ponto assimilou a mensagem de Jesus, que na hora da morte, ele próprio confessou: “Não existe um termo no Evangelho que eu não tenha decorado – isto é, que eu não tenha posto no coração – com os pontos e virgulas”.

A mensagem de paz de São Francisco foi assunto para pincéis e penas. Artistas e escritores celebraram a cena do lobo de Gubbio, o ladrão que não deixava paz à sua cidade.

O lobo que fazia vítimas contínuas na comunidade. São Francisco dirigiu-se a ele, e firmou o contrato de que ele não sofreria fome, caso não maltratasse mais os outros.

Os historiadores estão todos de acordo em dizer que São Francisco criou uma alegoria, e nós hoje teríamos a grande tentação de aplicá-la ao nosso meio. Mas preferimos confiar esta tarefa ao leitor: Como faremos para que o lobo deixe de devorar-nos? Qual é a comida que lhe oferecemos, para que não tenha mais fome nem maldade?

Quando visitamos as Pirâmides do México, o arqueólogo nos explicava: “Reparem naquelas pessoas que sobem; quanto se identificam com o monumento, na medida em que vão atingindo o alto; e como no final são uma coisa só com o monumento e o céu”.

Agora imaginem-se os antigos sacerdotes, que subiam com suas oferendas, e assim identificavam a terra e o céu, numa só visão para todos os crentes. As pirâmides se casam com a natureza e o homem mexicano.

Quando o peregrino percorrer Assis, sentirá apenas falta do homem Francisco, totalmente identificado com a natureza. Talvez com um cordeirinho nos braços, cordeirinho que recebeu em troca do manto, amando a água “pura e casta”, amando a lua, o fogo e o sol, amando, sobretudo, o homem, pobre e desprezado, chamando a tudo e a todos de Irmão, de Irmã.

Como à paisagem mexicana se devolve a paz completa, ao unir as pirâmides com o sacerdote e o céu, assim a Humanidade inteira se reconcilia em São Francisco, com aquilo que é e deve ser.

A Paz significa, em última análise, reconhecer a Deus como Pai e a toda a natureza como irmã. A evocação de São Francisco exige de cada um de nós um gesto e uma súplica de paz.

Texto do livro “Olhando o Mundo com São Francisco”, de D. Paulo Evaristo Arns, Edições Loyola, 1982.

O cosmos e os símbolos

Por N.G. Van Doornik

O nosso mundo ocidental perdeu este sentido do cosmos. Esvaziaram-se muitos símbolos que durante milhares de anos falaram ao homem, como intérpretes do “mundo atrás das estrelas”.

À medida que a técnica elimina a necessidade de evocar em símbolos o mundo invisível, o poeta é substituído pelo homem de ciência. Mas para aquilo para que este necessita de uma pesquisa minuciosa, o poeta emprega, às vezes, uma única palavra.

O mesmo se dá com o místico que, com uma única imagem, faz com que o homem fique ciente de uma realidade religiosa, ao passo que o teólogo tem que recorrer a uma quantidade de noções.

E numa Igreja – penso eu – em que a quantidade de noções elimina a simplicidade religiosa, a confusão a respeito da fé não está mais longe.

De outro lado, a teologia deve ter cuidado com o simbolismo. A imagem religiosa pode apresentar-se – literalmente ou figurativamente – como realidade. A arte plástica, inclusive a verdadeira arte da Idade Média e da Renascença, proveu a imaginação popular de representações em que os mistérios da fé foram “sonhados”.

Dessas representações partiu, é certo, uma grande força, mas não raro elas causaram desvirtuamento. Os símbolos tornaram-se concepções infantis da fé. A crise aconteceu, sobretudo, quando a ciência profana e a religiosa começaram a demonstrar que essas representações não exprimiam a realidade em sentido científico.

E não poucas vezes foram rejeitados, com os símbolos, também os mistérios simbolizados.

Hoje em dia esforçam-se muitos por uma extrema sobriedade, principalmente no oculto. Mas quem compreende o valor simbólico do Cântico do Sol, pergunta a si mesmo se não vamos parar no outro extremo, num vazio, em que o mistério só é experimentado por meio de conceitos.

O homem religioso não pode prescindir do símbolo, em que o divino é focalizado. “No vácuo” é-lhe impossível respirar.

Quando o nosso culto religioso se reduz a simples palavras, desaparece a atmosfera mística e muitos terão saudades das catedrais, das abadias e das antigas formas de liturgia, em que se oferece uma atmosfera sagrada.

Eu ousaria dizer: quando uma criança só sente aborrecimento com o culto litúrgico, é um sinal de que se perdeu alguma coisa das formas sensíveis
e indispensáveis que com o tempo se haviam introduzido em nossa liturgia.

Já que em nosso mundo ocidental o símbolo está perdendo o seu valor, deve-se fazer uma diagnose não só do símbolo, mas também do mundo ocidental.

A vida de Francisco está marcada pelo símbolo. O símbolo era para ele uma contínua celebração do cosmos em Deus. E quando seus olhos não mais podiam suportar o clarão da luz e ele jazia enfermo numa pobre choupana, ainda pôde cantar do irmão Sol, irradiante de esplendor: “De Ti, ó Altíssimo, ele é imagem”.

Texto extraído do livro “Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo”, de N.G. Van Doornik

A estátua

Por Frei José Carlos Pedroso

Muitas pessoas passam a vida construindo a si mesmas.

De fora. Como quem constrói um monumento ou esculpi uma estátua.

No começo são muitos ideais. Tudo que há de melhor vai para o monumento.

Também o sofrimento da renúncia, a dor de nem sempre encontrar o melhor material, o peso da descrença ou do escárnio dos outros.

Depois começa a crescer a admiração. A auto-admiração. Isso, quando se consegue escapar da frustração.

Muitas vezes, a vida acaba antes da festa da cumeeira. Se o monumento chegar a ficar acabado, ou pelo menos utilizável, não se pense que sobrevenha o gozo nem o sossego.

Não. Aí vem o pior. Aí vem o medo de que alguém derrube a casa ou de que a estátua se desfaça.

E todo o resto da vida é defesa e preocupação. Com o acréscimo de uma dúvida escondida mas incômoda: Será que mais alguém acredita nessa obra de arte?

Os pobres do Reino não fazem estátuas nem constroem monumentos. Vivem. Vivem o dom gratuito das outras pessoas e mesmo das outras coisas.

Não utilizam nada como material de seu próprio eu nem como servidores, operários ou admiradores seus.

É vivendo, simplesmente vivendo, que construímos uma vida para sempre.

Texto do livro “Dona Pobreza”, de frei José Carlos Pedroso, Vozes, 1981.

O franciscano missionário

Senhor, dá-nos a graça de “praticar por vossa causa o que reconhecemos ser a vossa vontade e querer sempre o que vos agrade” (S.Francisco)

O Secretariado para a Evangelização Missionária da Ordem dos Frades Menores, com sede em Roma, na Itália, define em dez itens o franciscano missionário:

1. O frade menor que parte se sente “inspirado por Deus” (RB 12,1):
• se sente atraído por um apelo ao qual ele quer responder generosamente;
• não é movido pela vontade individual, ou pela procura de uma solução de seus próprios problemas, ou pelo desejo de fuga ou de aventura.
• Missão “ad Gentes” é uma vocação especial

2. O frade menor faz um discernimento em profundidade das motivações que o animam ao partir, diante do Senhor e no diálogo com o seu Ministro Provincial, e se prepara com esmero para a missão.

3. O frade deixa sua terra e vai como um enviado:
• do Ministro Provincial que o considera apto (RnB 16,3-4);
• da fraternidade em nome da qual ele parte;
O frade menor parte na fé (vocação) e na obediência (envio):
• vai agir em nome de uma outra pessoa, mas não em nome próprio;
• faz a experiência do êxodo geográfico e cultural, vive a itinerância.

4. O frade menor vai para uma outra fraternidade que o acolhe:
• não está só quando parte e não está só quando chega;
• reserva para a fraternidade a prioridade sobre a atividade pastoral;
• vive a fraternidade multicultural e internacional;
• evangeliza na fraternidade e na minoridade.

5. O frade menor se insere numa Igreja irmã:
• começa por escutar e aprender a sensibilidade e as necessidades locais;
• faz-se discípulo e se põe à disposição do projeto pastoral do lugar;
• sai da sua “casa” e se abre a um diálogo respeitoso para com todos;
• vive o seu serviço como um encontro e uma relação fraterna sem distinções.

6. O frade menor parte para uma missão espiritual:
• constrói o Reino de Deus no coração dos homens;
• leva Deus às pessoas e as pessoas a Deus;
• vive, age, e faz tudo por amor de Deus;
• dá o que recebeu, compartilhando a sua fé e todo outro bem.

7. O frade menor “em missão” age em favor da implantatio Ordinis:
• faz conhecer Francisco e Clara;
• encarna o carisma franciscano;
• suscita, acolhe e acompanha as vocações do lugar;
• contribui à formação dos frades do local para onde é enviado
• colabora no nascimento e desenvolvimento da família franciscana (Clarissas, OFS, etc..)

8. O frade menor evangeliza com a vida, com o testemunho e o bom exemplo:
• vai mais para viver a sua fé do que para realizar as suas obras;
• deixa-se converter antes de converter os outros;
• compartilha primeiro, depois ensina;
• encontra o outro na cortesia, de preferência à organização de estruturas.

9. O frade menor anuncia Jesus e a sua palavra:
• quando vê que agrada ao Senhor (RnB 16,7) transmite Jesus que vive nele, com breves palavras e na simplicidade, e não as próprias idéias.

10. O frade menor une sempre a ação à contemplação:
• ele é o colaborador do “próprio Deus” (Santa Clara);
• a sua força vem da oração. Da leitura da Palavra e da Eucaristia;
• ele é um homem de fé que anuncia Jesus na alegria.

O 1º biógrafo de São Francisco

Quem foi Tomás de Celano?

O primeiro biógrafo de São Francisco nasceu por volta de 1185 na cidadezinha de Celano, nas montanhas dos Abruços, não longe de Roma. Acolhido na Ordem, em 1215, pelo próprio São Francisco, como ele conta (ICel 57) foi para a Alemanha como missionário em 1221, como se lê no n. 19 da Crônica de Jordão de Jano.

Deve ter entrado na Ordem já muito preparado, porque sua maneira de escrever demonstra muito bons conhecimentos literários e um amplo domínio do latim. Não foi sem motivo que papas e superiores recorreram a ele.

Em 1223 foi nomeado custódio de Worms, Mogúncia, Colônia e Espira, como diz Jordão de Jano no n. 30, e passou a vice-provincial da Alemanha, na ausência de Cesário de Espira. É provável que estivesse em Assis em 1228 para a canonização de São Francisco. Parece que pertenceu a uma equipe de copistas que a Ordem manteve em Assis.

Passou uns trinta anos trabalhando na biblioteca do Sacro Convento, em Assis, e dando assistência às Clarissas de Tagliacozzo, nas Marcas de Ancona. Em 1256, assim acreditam muitos críticos, completou a Legenda de Santa Clara Virgem. Pelo estilo, há quem lhe atribua também a autoria da bula de canonização de Santa Clara.

É possível que João de Celano, autor da Quasi stella matutina, fosse seu irmão. Tem-se como certo que morreu em 1260, e está sepultado em Tagliacozzo.

A grande obra de Celano

Com o nome de Frei Tomás de Celano conhecemos cinco livros nas Fontes Franciscanas. A Vida l (ICel), a Vida II (2Cel), o Tratado dos Milagres (3Cel), a Legenda Chori (4Cel) e a Legenda de Santa Clara Virgem. Não vamos falar, aqui, da Legenda de Santa Clara, que estudamos amplamente nas Fontes Clarianas.

A Primeira Vida foi escrita a pedido do Papa Gregório IX em 1228 e apresentada ao pontífice no dia 25 de fevereiro de 1229. Por ordem do Capítulo Geral de Paris, em 1266, foi lançada ao fogo, com todos os exemplares de obras escritas sobre São Francisco antes da Legenda Maior de São Boaventura. Só veio a ser encontrada de novo em 1768, graças aos estudiosos bolandistas.

Em 1230, Celano escreveu também uma versão abreviada da Primeira Vida, que se chamou Legenda ad usum chori, e foi usada pelos frades até 1263, A Vida Segunda foi escrita em 1247, aproveitando material apresentado pelo ministro geral Crescêncio de Iesi, que o tinha pedido a toda a Ordem. Dessa vez, Tomás de Celano trabalhou com uma equipe, encarregando-se, porém, da redação final.

A Vida Segunda, destruída em 1266, só foi reencontrada em 1806. O Tratado dos Milagres foi escrito por ordem do ministro geral João de Farina, entre os anos 1250 e 1253. Também foi destruído em 1266 e só foi reencontrado em 1899. Esses quatro livros tiveram sua primeira edição crítica publicada em 1941, no vol. X da Annalecta Pranciscana.

São Francisco: pregação pelo exemplo e pelas obras

Rg Nb 17, 3: Todos os irmãos podem pregar pelas obras.

Rg Nb 16, 6-10: Dos que quiserem ir para entre os sarracenos e outros infièis:
E os irmãos que partirem poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em abster-se de rixas e disputas, submetendo-se ‘a todos os homens por causa do Senhor’ (1Pd 2,13) e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor.”

Adm 22, 2: Ai do religioso que não conserva no fundo do seu coração os bens que o Senhor o favorece e aos outros não os manifesta por suas obras, mas antes, na esperança de alguma recompensa, procura mostrá-los aos homens por palavras.

1C 36: Francisco já se havia convencido primeiro na prática das coisas que estava dizendo aos outros em palavras.

1C 93: Sabia que era melhor fazer as coisas perfeitas do que louvá-las, e empenhou esforço e ação nas boas obras, não apenas nas palavras, que mostram o que é bom mas não o realizam.

1C 97: Enchia toda a terra com o Evangelho de Cristo, anunciando a todos o reino de Deus, e edificando os ouvintes tanto pela palavra como pelo exemplo, pois pregava com toda a sua pessoa.

LP, 74: Tanto possui um homem de ciência, quanto aquilo que realiza nas suas obras; e tanto possui um religioso de oração, quanto aquilo que na vida põe em prática.

LP 115: Este privilégio quero ter eu do Senhor: não ter privilégio algum vindo dos homens, a não ser o de para com todos ser reverente e, pela obediência à Santa Regra, mais pelo exemplo do que pela palavra, a todos converter”.

LM 8, 2: Por isso dizia que se deveria deplorar como destituído de verdadeira piedade todo pregador que na pregação procura mais a própria glória do que a salvação das almas, ou que destrói com seu mau exemplo aquilo que ele edifica com a verdade de sua doutrina. Por isso afirmava que se deve preferir sempre um irmão simples e iletrado a semelhante pregador, pois aquele por sua simplicidade e santidade de vida move os outros a praticar o bem.

Abreviaturas:
Rg Nb – Regra Não-bulada (1ª Regra)
Adm – Admoestações
1C – Vida I – Biografia de Tomás de Celano
LP – Legenda Perusina (biografia)

O caminho de São Francisco

Se sentires o chamado do Espírito,
atende-o e procura ser santo(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.

Se, porém, por causa de tua fraqueza
não conseguires ser santo(a).
procura então ser perfeito(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.

Se, contudo, não conseguires ser perfeito(a)
por causa da vaidade de tua vida,
procura então ser bom(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.

Se ainda não conseguires ser bom(a)
por causa das insídias do Maligno,
então procura ser razoável
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com com todas as tuas forças.

Se, por fim, não conseguires
nem ser santo(a), nem perfeito(a), nem bom(a),
nem razoável, por causa dos teus pecados,
então procura carregar este peso e entrega
tua vida à divina misericórdia.

Se isto fizeres, sem amargura,
com toda a humildade e com jovialidade do espírito,
por causa da ternura de Deus que ama os ingratos e maus,

então, começarás a sentir
o que é ser razoável,
aprenderás o que é ser bom(a),
lentamente aspirarás a ser perfeito(a),
e, por fim, suspirarás por ser santo(a).

Se tudo isto fizeres,
cada dia,
com toda a tua alma,
com todo o teu coração e com todas as tuas forças,
então, eu te asseguro, irmão e irmã:
estarás no caminho de São Francisco,
não estarás longe do Reino de Deus!

Do livro “Ternura e Vigor”, de Leonardo Boff, Vozes.

São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia

Em Carta Apostólica de 29.11.1999, o Papa João Paulo II proclamou, S. Francisco de Assis “celeste padroeiro dos cultores da Ecologia”.

JOÃO PAULO PP. II

Ad. Perpetuam rei memoriam. – Entre os santos e preclaros varões que respeitaram a natureza como maravilhoso presente que Deus fez ao gênero humano, figura merecidamente São Francisco de Assis. Pois com sensibilidade singular ele apreciava todas as obras do Criador e, como que divinamente inspirado, criou este admirável “Cântico das Criaturas”, as quais, o irmão sol sobretudo, e a irmã lua como as estrelas do céu lhe davam ensejo de render devidamente louvor, glória, honra e toda a benção ao altíssimo, onipotente e bom Senhor.

Estava, pois, muito bem avisado o nosso venerável Irmão Sílvio Oddi, Cardeal da Santa Romana Igreja e Prefeito da Sagrada Congregação para os Clérigos, quando, fazendo-se porta-voz principalmente dos membros da Associação Internacional chamada “Planning environmental and ecologycal Institute for quality life”, pediu a esta Sé Apostólica que São Francisco de Assis fosse declarado padroeiro junto de Deus daqueles que se empenham pela Ecologia.

E Nós, de acordo com a Sagrada Congregação para os Sacramentos e o Culto Divino, em virtude destas Letras, válidas para todo o sempre, proclamamos São Francisco de Assis, padroeiro celestial de todos os cultores da Ecologia, com todas as honras e respectivos privilégios litúrgicos.

Nada possa obstar. E isto pronunciamos, mandando que estas Letras sejam religiosamente observadas e surtam efeito no presente como no futuro.

Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 29 de novembro de mil novecentos e setenta e nove, segundo do Nosso pontificado.

João Paulo II

São Francisco e sua forma de vida continuam atuais

São Francisco não é certamente o santo mais popular, mas é com certeza o santo mais universal e atual. De sua universalidade dão testemunho os milhares de seguidores espalhados por todo o mundo, não só na Igreja católica, mas também em outras Igrejas irmãs. São Francisco não é patrimônio exclusivo dos franciscanos ou dos católicos; na realidade, é um santo para todos os homens e mulheres de boa vontade. De sua atualidade falava-nos João Paulo II em sua mensagem ao Capítulo de Pentecostes de 2003: “A atração de São Francisco é muito grande”. Com razão foi eleito o homem do II milênio.

Diante dessa constatação, é lógico que também nós lhe perguntemos: “Por que a ti? Por que a ti?”. Pessoalmente, fiz-me essa pergunta muitas vezes e a resposta que encontro é sempre a mesma: o segredo do fascínio que Francisco continua a despertar após 800 anos está em sua “inatualidade”. Francisco, como todo o profeta, é “inatual”, vai sempre além, antecipa o futuro, não se deixa aprisionar pelo presente.

É a sorte das sentinelas (cf. Is 21,11-12) e de quem se sente realmente “peregrino e forasteiro neste mundo” (1Pd 2,11; cf. RB 6,2); é a condição do homo viator ou in statu viae, do crente em busca constante, do seguidor de Jesus e de quem, como Francisco, faz do Evangelho sua regra e vida (cf. RB 1,1); é o destino do todo o peregrino que faz sua esta lei: “hospedar-se sob teto alheio, ansiar pela pátria, andar pacificamente”.

O que é presente, passa; mas o Evangelho, como forma de vida, não passa: “Jesus Cristo [evangelho do Pai à humanidade] é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Como não sai de moda quem, como o Poverello, assume o Evangelho como regra e vida, como exigência de totalidade.

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1. João Paulo II, Mensagem ao Capítulo geral, n. 5.

2. LM, VII,2,5.

Trecho do Relatório do Ministro Geral Frei José Rodríguez Carballo, OFM, “Com Lucidez e Audácia, em tempos de refundação”.

A docilidade ao Espírito requer ousadia

Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

1. A “ortopráxis” como verificação da “ortodoxia” do nosso carisma

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa. identidade franciscana, mediante o estudo das Fontes, e em repropô-la nas nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e esperamos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas das nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm num prazeroso “incesto intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

2. O desafio perene de requalificar nossa vida

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tomar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.

Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação assídua à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.

Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.

Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, capaz de suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua radicalidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, está escondida no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: nos libertam da idolatria do poder, do ter e do prazer e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

3. A urgência e a imprescindibilidade de se recuperar a ousadia

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase que espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?” O que fazer para não nos deixarmos sucumbir frente à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia com a qual abraçamos a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus do uniformismo massificante e asfixiante?

Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no trato com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

4. Deixar-se inspirar por Aquele que faz novas todas as coisas

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?

Texto da “Revista Franciscana”, 2006, da FFB.

São Francisco de Assis, uma alternativa humanística e cristã

Por Leonardo Boff

O contato com Francisco produz uma crise muito profunda e salutar. Sua figura envolve os leitores dentro de um círculo luminoso no qual descobrimos nossa mediocridade e lentidão face aos apelos que vêm da verdade mais profunda do coração e do evangelho. Ele conduziu sua vida sempre a partir da utopia e a manteve viva como uma brasa contra todas as cinzas do dia-a-dia e a razoabilidade da história. Incorporou o arquétipo da integração dos elos mais distantes, historizou o mito da reconciliação do céu e da terra, dos abismos e das montanhas. Daí o fascínio que se irradia dele e a catársis humana e religiosa que ele opera.

Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna.

Francisco em sua gesta nos coloca imediatamente diante do evangelho e do sermão da montanha. Tomou absolutamente a sério a mensagem de Jesus como se lhe fora dirigida pessoalmente a ele. Assumiu tudo ad litteram et sine glosa e procurou viver com coração generoso e alegre. Não queria saber de interpretações. Bem sabia que quase sempre as interpretações emasculam a força do evangelho. E o evangelho lhe era simplesmente a formula vitae.

Se procurou orientar-se sempre a partir do evangelho e não da sensatez da razoabilidade, não era, entretanto, um fanático. Por isso se abraça a vida evangélica mostra também o sentido de uma regra; se vive do carisma compreende igualmente a instituição; se se entrega às duras penitências, sabe também alegrar-se e ser com todos cortês; se assume uma pobreza radical, postula outrossim uma fraternidade extremamente sensível à satisfação das necessidades uns dos outros; se é rigoroso para consigo mesmo, mostra-se ao mesmo tempo compassivo para com o confrade que grita na noite: morior fame!

Sempre segurou firme os dois pólos, mas começando todas as vezes pelo pólo do evangelho. Quebrou sem receios as barreiras instituídas para assegurar a vida livre do evangelho. Por isso é que nele coexistem admiravelmente ternura e vigor, que resultam da tensão sustentada permanentemente entre o evangelho e a regra, entre o sermão da montanha e a ordem. Se houvesse apenas vigor, emergiria então a figura de um santo duro, inflexível e sem coração. Se houvesse somente ternura, projetaria a imagem de um santo sentimental, adulçorado e sem perfil. Ternura e vigor compaginando-se na mesma pessoa criam o sol de Assis, como diria Dante, sol que gera ao mesmo tempo luz e calor, sol cantado pelo Poverello como “belo e radiante e com grande esplendor”, mas também criam a lua com sua luminosidade amena e amaciadora de todas as pontas que ferem e fazem sangrar. Francisco aflora assim como um homem solar e lunar, integração feliz dos opostos.

Francisco faz ainda um apelo de inaudita importância para a nossa situação atual. Vivemos num mundo de objetos; tudo é feito objeto de troca, de interesse, de negociação, de falsificação, de mascaramento e de fetichização. As coisas mais e mais perderam seu uso humano direto e simples como satisfação de necessidades objetivas que devem ser atendidas coletivamente. Com sua pobreza radical Francisco postula uma radical expropriação, especialmente do dinheiro cuja natureza se resume em ser puro objeto de troca sem nenhum uso a não ser a troca. Inaugura, no exato momento de formação do espírito capitalista, assentado na troca, uma existência humana que se baseia unicamente no valor do uso: duas túnicas, um capuz, calçados para os que precisam, os instrumentos de oração e de trabalho. A ausência de qualquer excedente visa, limpar o caminho de todos os obstáculos para o encontro dos homens entre si em sua transparência de irmãos, servindo-se mutuamente como convém entre membros de uma mesma família. Este projeto pode parecer utópico e, de fato, o é. Mas a utopia pertence à realidade porque esta não se resume naquilo que é e pode ser medido, mas muito mais naquilo que nela é possível e pode ser no futuro. A utopia expressa as possibilidades todas da realidade concretizadas. Porque ainda não foram concretizadas, ela convoca para novas realizações, a superar o já feito e ensaiado na direção de formas mais plenas e humanizadoras.

A utopia de Francisco de uma fraternidade sem plus-valia e, por isso, não exploradora, anima as buscas modernas por caminhos de satisfação das necessidades coletivas com o menor custo social e pessoal possível.

A seriedade evangélica de Francisco vem cercada de leveza e de encanto porque é imbuída profundamente de alegria, finura, cortesia e humor. Há nele uma inarredável confiança no homem e na bondade misericordiosa do Pai. Em conseqüência exorcizou todos os medos e ameaças. Sua fé não o alienou do mundo nem fez dele um mero vale de lágrimas. Pelo contrário, transformou-o pela ternura e pelo cuidado em pátria e lar do encontro fraterno, onde os homens não aparecem “como filhos da necessidade, mas como filhos da alegria” (G. Bachelard). Podemos dançar no mundo porque ele constitui o teatro da glória de Deus e de seus filhos.

Francisco de Assis mais que um ideal é um espírito e um modo de ser. E o espírito e o modo de ser só se mostram numa prática, não numa fórmula, idéia ou ideal. Tudo em Francisco convida para a prática: exire de saeculo, sair do sistema imperante, numa ação alternativa que concretize mais devoção para com os outros, mais ternura para com os pobres e mais respeito para com a natureza.

Texto do livro de Leonardo Boff, “São Francisco de Assis, Ternura e Vigor”, Editora Vozes, 1981.

Dançar o amor

Por Frei Vitório Mazzuco Filho

Pretendo fazer três colocações. Sou filho de Francisco de Assis, que não é mais patrimônio apenas dos frades nem só do cristianismo católico. Como prova disso, compartilho com vocês a lembrança de um episódio, ocorrido em 1988, quando eu morava na Itália. Nessa ocasião, junto ao governo italiano estava sendo empossado o novo embaixador da União Soviética. No rápido curso da história, em 1988 ainda existia a União da República Socialista Soviética.

“Após a cerimônia de passagem, no Palácio Quirimale, quando o embaixador apresentou ao governo italiano suas credenciais, foi-lhe oferecido um jantar e, no dia seguinte, uma visita acompanhada à cidade de Roma. O embaixador aceitou o protocolo e visitou a Roma dos césares, a Roma dos papas e a Roma moderna. No terceiro dia foi-lhe oferecida a possibilidade de encontrar-se com o papa João Paulo II. Ele, de forma gentil e diplomática, recusou o convite, dizendo que agradecia, mas que o governo da União Soviética não mantinha relações diplomáticas com o Estado do Vaticano.

Dois dias depois, o jornalista Domenico Del Rio, do jornal La Repubblica, encontrou esse embaixador na cidade de Assis. Junto com a esposa, acompanhado pelo seu segurança, ele caminhava pelas ruelas da cidade. Domenico Del Rio, com sua perspicácia de jornalista, perguntou à queima-roupa ao embaixador russo: “Por que o senhor, estando em Roma, o centro do governo italiano, e morando na Itália, não aceitou visitar o Vaticano, e agora eu o vejo aqui nas ruas de Assis?” O embaixador respondeu com toda a calma: “Se vou a Roma e me encontro com o Papa no Vaticano, visito apenas o mundo cristão católico. Em Assis, visito a humanidade´.”

Francisco, uma porta aberta

O que acontece neste nosso evento é exatamente isto: o encontro de pessoas profundamente unidas no amor que buscam resgatar e recuperar o humano. Essa é a proposta de Francisco, um homem apaixonado: só os apaixonados são criadores e criativos; e só os apaixonados conseguem aproximar-se profundamente da vida na sua totalidade.

Francisco de Assis, atualmente, escapou até do nosso patrimônio franciscano. Ele pertence ao mundo, à vida. Ele é um santo, e não porque foi canonizado, mas porque foi uma grande alma. Ser santo é ser uma grande pessoa – esse é um aspecto muito importante, e sinto-me muito feliz por poder dividi-lo com vocês.

No que se refere a uma terapia das religiões, vivi muito essa experiência, em primeiro lugar pelo fato de ser franciscano. Tenho uma porta de entrada em todo o mundo religioso porque Francisco tem o menor índice de rejeição de toda a história, tem um bilhete de entrada em todas as culturas. Ele entrou tanto no Oriente quanto no Ocidente. Há uma outra história ilustrativa.

“Em 1219, em Damieta, no Egito, confrontavam-se dois grandes exércitos: o muçulmano, comandado pelo sultão Melek-el-Kamel, e o exército cristão, comandado pelo rei de Leão e Castela. Também estava presente um representante do papa, Pelagro Galvan, um prelado da península Ibérica, mais precisamente de Portugal. Eles estavam prontos para um grande combate pela Quinta Cruzada. De um lado o Islã, do outro lado a Cruzada. Ambos motivados por um belo nome: guerra santa.

Francisco, descalço, chegou com mais três companheiros ao campo de batalha. Pediu para ir ao outro lado. O comandante cristão não permitiu. Diante da insistência de Francisco, o comandante acabou concordando, mas como quem diz: “Se ele quer ser um mártir, um suicida, que vá”.

Francisco atravessou as colunas muçulmanas e declarou na frente dos soldados: “Sou um cristão e quero falar com seu comandante, o sultão”.

Os soldados, mesmo reconhecendo que era loucura, encantaram-se com a simplicidade desarmada daquele homem, que não vinha com lança nem escudo; vinha vestido como camponês, com uma coragem tranqüila, apesar de estar do lado adversário. Melek-el-Kamel recebeu-o em sua tenda. E Francisco disse diante dele: “Eu vim falar com você sobre aquilo em que eu acredito: o Evangelho do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo”. E conversou longamente com o sultão, que o escutou atenciosamente – nessa hora ele não se comportou, como escreveram os cronistas do século XII e XIII, como um animal cruel. O sultão era um líder religioso. Era líder religioso de um povo monoteísta, que tem a mesma estrutura teológica do cristianismo, a mesma estrutura teológica do judaísmo e de outras grandes religiões.

O sultão o ouviu e depois o mandou de volta, pedindo: “Reze ao seu Deus para que dê ao meu espírito a sabedoria que for melhor”. E Francisco voltou vivo e tranquilo para o outro lado.

Os laços do coração

Esse significativo episódio ilustra, exatamente, as afirmações de Pierre Weil (escritor e psicólogo). Não houve a violência da guerra: houve o encontro do que a humanidade tem de mais belo: o espírito comum. Sabemos que não são os laços econômicos que unem a humanidade, não são os laços políticos que unem o grupo humano. Há pouco tempo o Brasil celebrou quinhentos anos de colonização. Politicamente, ainda nem nascemos, nem fomos descobertos. São os laços afetivos que unem um grupo humano. Pode haver inveja, ciúme, competição. Apesar disso, o que mais une o grupo humano? O espírito comum. Foi o que Francisco e Melek-el-Kamel fizeram: conversaram sobre o que a humanidade tem de mais fecundo, a partir da interioridade, da profundidade do humano, daquilo que eles crêem.

Porque o ser humano, quando é profundamente humano, encarna o divino. Por isso, todos os sinais dados pelos xeiques, pelos rabinos, pelos sacerdotes, pelos pastores, indicam que haverá solução para os conflitos no Oriente Médio quando eles tiverem coragem de se encontrar, cada um falando do que se passa nas profundezas do seu coração, em vez de brigarem por montanhas em Golan e por lugares estratégicos da faixa de Gaza.

Um outro aspecto que quero lembrar e considero muito importante na proposta da terapia das religiões, foi o que ocorreu em 1989, quando morei por alguns meses em Assis. Assis é mais do que uma cidade; é um estado de espírito. É mais do que um lugar; é um ponto de encontro, é a cidade da paz.

Na leveza da dança

Por morar em lugar tão especial, passei a andar pela cidade em momentos diferentes – de madrugada, à tarde, ao meio-dia, à noite – para sentir todo o seu fascinante mistério. Um dia, levantei-me de madrugada e encontrei uma jovem paquistanesa sozinha, dançando no meio da praça. Era seguidora de um segmento popular da religiosidade muçulmana com forte influência dos dervixes. Ela realizava aquilo que é tradição do povo do interior de São Paulo, de onde venho: a dança de São Gonçalo. Existe uma música do cantor Pena Branca, fiel escudeiro e companheiro do saudoso Xavantinho, que diz: “Os santos querem que eu reze, São Gonçalo quer que eu dance!”

Ela dançava a dança dos dervixes, girando, com as mãos abertas em concha para colher a energia divina e trazê-la à Terra. Nunca me esqueci do nome dela: Merril Parakaratarambill. Perguntei-lhe: “O que você está fazendo?” Surpreendentemente, ela respondeu: “Orando, rezando”. Tornei a perguntar: “Para quem?” Porque ela usava vestes de cor laranja e estava muito bonita, muito serena. E ela disse: “Eu estou rezando para Francisco”. “Por quê?”, perguntei. E ela: “Porque aprendi com os dervixes, aprendi com a minha religião”.

Nós nos apresentamos e seguimos conversando. Ela disse que a religião era como a dança. Que a sua filosofia era esta: para dançarmos, temos de dar um passo. Para darmos o passo, temos de amar profundamente o chão que pisamos, conhecê-lo muito bem e, ao mesmo tempo, não ficar preso a ele ou não haverá nem passo nem dança. Disse, finalmente, que rezava para Francisco porque ele a ensinava a viver a vida um pouco de pernas para o ar, na leveza da dança…

Então, com esses encontros, fui aprendendo com as diversas culturas o que é esse caminho da terapia das religiões.

Encerro, contando mais um fato. Realizei alguns retiros no Monte Alverne, na região da Toscana, onde Francisco vivenciou os estigmas. Lá, encontrei um monge budista. Quando perguntei o seu nome, ele respondeu: “Eu não tenho nome. Chamamos este lugar de encontro. Quero que você me chame Francisco”.

O serafim do amor

As boas fontes franciscanas dizem que, de repente, Deus tocou profundamente Francisco. Ele é um imitador perfeito dos caminhos do Senhor Jesus, e todo aquele que é marcado pelos dedos terríveis desse amor, a ele é impossível não trazer essas marcas em seu corpo. Teologicamente, espiritualmente, dizemos que o anjo, o Serafim alado, veio e marcou o corpo dele com aquelas chagas do Amado. E para sempre o amor tomou forma num corpo. Porque o amor estava no seu coração, e o que está no coração toma conta do corpo, da história, da vida e deixa marcas profundas.

As pessoas que se amam verdadeiramente vão ficando parecidas, não é mesmo? Às vezes observamos que, quanto mais velhos ficam nossos pais, mais se assemelham fisicamente. Naquele retiro eu queria entender o que significavam as chagas de Francisco. O monge me respondeu que, de acordo com sua cultura oriental, todas as nossas energias, o nosso potencial de amor, a nossa fonte do amor, brotam de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele disse que, em sua grande capacidade de amar, Francisco explodiu, seu coração se fez como o Sagrado Coração. O coração de quem ama muito faz assim: Pluf! Salta para fora. E o coração dele abriu-se em chagas, em estigmas. Enraizado naquela terra, naquele chão que ele conhecia e pisava, seus pés ficaram marcados com as chagas do Amor.

A concretude do amor estava nas suas mãos, nos seus pés. É nas extremidades vitais que circulam as energias mais poderosas. E foi aí que o amor transbordou na vida de Francisco. Penso que, quando amamos profundamente, todas as experiências humanas e religiosas nos marcam com as marcas profundas do amor. Quem dá o coração, recebe corações. Isso eu aprendi com Francisco, com o cristianismo e também com o budismo. Eu tenho um mestre taoísta, Chuang Tzu. Eu o leio com a mesma paixão que leio o Evangelho, com a mesma paixão com que leio as fontes franciscanas.