Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo

Saulo de Tarso

 

“Eu sou judeu, de Tarso da Cilícia, cidadão de uma cidade de renome (At 21,39), circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus. Segundo a Lei, fariseu… Pela justiça da Lei, considerado irrepreensível (Fl 3,5-6).

 

Esta é a ficha que faz Saulo Paulo de si mesmo.

Como quase todos os judeus que viviam no mundo grego, acrescentara ao próprio nome judeu – Saulo ou Saul – outro nome grego que, quanto possível, se lhe assemelhasse foneticamente: Paulos, ou seja, Paulo.

Tarso era uma cidade culta, mas é de se supor que seus pais, fariseus recém-emigrados da Palestina, continuaram a estrita observância judia, abstendo-se de enviar seu filho às escolas gregas. O certo é que, tão logo completados os quatorze anos, Paulo foi enviado a Jerusalém, para fazer estudos rabínicos na escola mais ilustre da época: Aos pés de Gamaliel (At 22,3).

Alguns autores, deixando-se levar por uma fantasia completamente infundada, supuseram que Paulo, em sua juventude, tenha levado vida licenciosa e, para isto, aduzem a trágica descrição que, na primeira pessoa, ele mesmo faz, no capítulo 7 da “Carta aos Romanos”.

Todavia, parece que o que Paulo quer destacar ali não é sua vivência pessoal e individual, mas a trágica situação do próprio “eu” humano, envolto na desgraça coletiva de uma pecaminosidade estrutural.

Por outro lado, temos em suas próprias cartas afirmações sinceras e humildes sobre a conduta irreprovável que o jovem israelita observou sempre, em sua boa fé. Fariseu desde jovem (At 26, 3-5), observador das tradições judaicas (Gl 1,14), irrepreensível em sua conduta (Fl 3,6).

O fariseu de direita – Hoje, graças às recentes descobertas de Qumrân, estamos em melhores condições de enfocar histórica e ideologicamente os acontecimentos que deram origem ao surgimento do cristianismo.

Através da numerosa literatura religiosa, encontrada às margens do Mar Morto, conhecemos o estado religioso daquela interessante época.

A “direita” constituíam-na os fariseus, conservadores das velhas tradições de Israel, inclusive das mais significativas minúcias rituais. Eram integristas e se consideravam os expoentes autênticos e indiscutíveis das mais puras essências religiosas e nacionais. Para isto, a ordem religiosa se identificava com a situação sociológica. Seu sistema se podia qualificar de “nacional-judaísmo”.

Não obstante, apesar de seu alardeado nacionalismo, haviam chegado a um status quo em suas relações com o poder romano, regendo-se por um equilibrado modus vivendi que lhes permitia certa estabilidade e flexibilidade de movimentos.

Todavia, os fariseus eram somente minoria, ainda que numerosa, do povo israelita. E é isto que o sensacional achado de Qumrân veio iluminar.

Completamente à margem da fração farisaica, pululava uma multidão de seitas, uma das quais denominada, por Flávio Josefo e por Plínio, “essênia”.

O núcleo central deste tipo de seita era constituído por um grupo de homens célibes, que se retiravam para o deserto, para se dedicarem à vida de oração e de estudo da Lei. Eram autênticos monges, cujas regras e modos de vida influíram, sem dúvida, na própria organização do monacato cristão, que nasceu exatamente naqueles mesmos desertos palestinos e egípcios.

Em redor dos mosteiros, e espiritualmente ligados a eles, havia numerosos assistidos, que bem podiam ser comparados às “ordens terceiras” de nossas grandes ordens mendicantes ou aos “sócios benfeitores” de congregações e institutos religiosos. Nem sempre viviam ali; iam e vinham, fazendo uma espécie de exercícios espirituais, que vivenciavam no resto do ano.

Pelas descobertas de Qumrãn, sabemos que ali existiu um grande mosteiro, talvez o mais importante de todos, e do qual encontramos uma espécie de sucursal em Damasco, constituída por alguns monges fugidos de Qumrân em época de perseguição.

A espiritualidade “qumrânica” era diferente da farisaica. Sem serem abertamente cismáticos, afastavam-se do legalismo ritual e estreito do culto do templo de Jerusalém, sobre o qual se encontram finas e veladas críticas em suas regras e livros ascéticos.

Diante do orgulho farisaico, professavam uma humildade desconfiada de si mesmos e fortemente baseada num sentimento de absoluta dependência do Criador. Finalmente, eram de tendência universalista e aberta aos demais povos não israelitas.

Saulo militava abertamente na ala extrema do farisaísmo mais estreito e ortodoxo e, no círculo intelectual hierosolimitano, assistira mais de uma vez às ásperas críticas que se faziam freqüentemente àqueles inovadores populares, perigosos para a ortodoxia.

Quando, mais tarde, Saulo volta a Jerusalém e se defronta com o problema da nascente comunidade judeu-cristã, sua indignação chega ao paroxismo. Exatamente os judeu-cristãos, procedentes do movimento “qumrânico”, que, de algum modo, coincidiam com os que Lucas denominava “helenistas” (At 6,1), foram os que diretamente se converteram em alvo de suas iras.

Seu chefe era o jovem levita Estêvão. O discurso do protomártir, que Lucas nos refere (At 7, 2-53), é farto das idéias centrais do “qumranismo”, sublimadas e superadas numa esplêndida e originalíssima versão cristã.

Decididamente, Estêvão era um elemento demasiado perigoso e, nas reuniões conciliares da “direita” farisaica, chegou a tomar a decisão de que a própria sobrevivência de Israel estava gravemente ameaçada e que, por conseguinte, era preciso eliminar, pela violência, quem assim minava sua própria existência.

Definitivamente, Estêvão foi apedrejado: única pena que as autoridades nacionalistas podiam infligir, quando se tratava de um caso declarado de “blasfêmia”.

Durante a macabra execução, os apedrejadores, para ficarem mais livres, puseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo (At 7, 58). O próprio Paulo orava, mais tarde,

Senhor enquanto era derramado o sangue de tua testemunha,
Estêvão, eu estava presente, de acordo com eles, e guardava as vestes daqueles que o matavam (At 22,20).

Saulo se converteu na peça-chave da primeira perseguição à Igreja nascente, persegui de morte esta doutrina, acorrentando e encarcerando homens e mulheres (At 22,4). Isto, naturalmente, produziu uma fuga dos cristãos, sobretudo dos da “ala esquerda”, que se refugiaram em Damasco, onde haveria, certamente, cristãos de tipo “qumraniano”. Saulo lutava inteligentemente e dirigiu seus ataques a Damasco: era preciso impedir decididamente que rebrotasse aquela semente envenenada. O resto dos judeu-cristãos não foi molestado e pôde permanecer em Jerusalém.

Caminho de Damasco – O que aconteceu no caminho de Jerusalém a Damasco, conta-o o próprio Paulo, simplesmente assim:

Recebi cartas do Sumo Sacerdote e de todo o colégio dos anciãos para os irmãos de Damasco, aonde fui com o fim de prender os que lá se achassem e trazê-los acorrentados para Jerusalém, onde seriam castigados. Ora, estando eu a caminho e aproximando-me de Damasco, pelo meio-dia, de repente me cercou uma intensa luz do céu. Caí por terra e ouvi uma voz, que me dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues’? Respondi: ‘Quem és, Senhor?’E ele me disse: ‘Sou Jesus Nazareno, a quem persegues’. Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz daquele que me falava. Eu disse: ‘O que hei de fazer Senhor?’ O Senhor me disse: ‘Levanta-te e entra em Damasco, que ali te será dito o que deverás fazer ‘(At 22,5-10).

Saulo obedeceu. Era muito difícil o que se lhe exigia. Convertendo-se ao cristianismo, teria preferido ser recebido pela “ala direita” da “seita”, ou seja, por aqueles que ficaram em Jerusalém e foram tolerados pelo tribunal fariseu de depuração, de que ele era parte principal. Mas, agora, ordenava-se-lhe receber o ingresso da “seita” naquele ambiente de Damasco, plenamente solidário com os “helenistas” (At 6,1), que comandara o odiado Estêvão. A esta dura renúncia se refere, sem dúvida, quando, depois de fazer sua própria ficha, acrescenta, cheio de nostalgia pegajosa: Mas tudo isto, que para mim era vantagem, considero desvantagem por amor de Cristo (FI 3,7).

Esta transformação dolorosa de sua postura mental constitui indubitavelmente a infra-estrutura psíquica daquela atitude combativa, às vezes violenta, que teve que adotar, no seio da comunidade cristã, contra seus antigos correligionários fariseus, que pretendiam manter, dentro do cristianismo, uma posição integrista, sufocando a novidade expansiva do Evangelho.

O noviciado do apóstolo – A princípio, Paulo começou a experimentar sua vocação apostólica pregando a Jesus nas próprias sinagogas de Damasco. Mas, pouco depois, se retirou para o deserto, para ali se preparar, na oração, e quem sabe se uniu a algum grupo monástico judeu-cristão, procedente da “Seita da Aliança”, intimamente aparentada como movimento “qumrânico”.

Daqueles primeiros anos, narra-nos Lucas alguns fatos cruciais do novel apóstolo. Ao fim de três anos de conversão, subiu a Jerusalém para “visitar” o chefe da Igreja, Pedro (GI 1,18).

Dali, voltou a sua cidade natal de Tarso, de onde teve que sair, finalmente, para se defender de uma conjura, tramada pelos judeus contra ele.

De Tarso, dirigiu-se Paulo a Antioquia, cuja comunidade florescia, devido, em parte, à própria perseguição do ex-fariseu. Na verdade, em conseqüência da rajada de vento anticristã, provocada por Saulo em Jerusalém, muitos cristãos “helenistas” se dispersaram pela Fenícia, Chipre e Antioquia. Estes começaram a pregar a fé. Posteriormente, os apóstolos de Jerusalém enviaram Barnabé, como delegado oficial, e este, seguindo uma inspiração do Espírito, associou-se a Paulo, em sua tarefa apostólica. Por um ano inteiro, Paulo colheu uma messe tão abundante que o fato transcendeu o grande público e este começou a chamar os fiéis pelo nome de “cristãos”, como eram chamados “pompeanos” ou “cesarianos” os partidários de algum dos dois rivais do Império.

A carreira apostólica de Paulo chegara a seu ponto culminante e nele se realizariam os projetos de Deus, manifestados desde o primeiro momento de sua conversão: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, a fim de levar meu nome perante as nações, os reis e os israelitas (At 9,15).

Um dia, na assembléia litúrgica de Antioquia, o Espírito falou por meio da mesma comunidade de oração: Separai-me Barnabé e Saulo, para a obra a que os chamei (At 13,2).

Texto do livro “O Evangelho de Paulo”, de José Maria González Ruiz, publicado pela Editora Vozes.

A conversão de Saulo

Quando Lucas escreveu o livro de Atos dos Apóstolos, já eram passados mais ou menos 20 anos da morte de Paulo. Muitos cristãos que só conheceram a fama de Paulo, quiseram saber: o que teria acontecido para que o grande perseguidor Saulo se transformasse no mais ardoroso missionário cristão? O que levaria um fariseu rigoroso na observância da Torá judaica, a ponto de perseguir cristãos, a afirmar depois: “Ninguém será justificado diante de Deus pela prática da Lei” (Rm 3,20)?

No tempo de Lucas, já circulava entre algumas comunidades, a Carta aos Gálatas, um escrito do próprio Paulo, em que ele narra sua conversão (Leia Gl 1,11-24). Ao falar de sua conversão, Paulo é muito sóbrio. Aliás, ele nem usa o termo “conversão”. Prefere dizer que recebeu uma visão ou “revelação” de Jesus Cristo (cf. Gl 1,12. Cf. também 1Cor 9,1; 15,8-10).

Paulo dá muita importância a essa revelação. Mas não entra em nenhum detalhe sobre como se deu aquele acontecimento no caminho de Damasco – em nenhuma de suas cartas. Paulo está mais interessado em defender seu apostolado entre os pagãos, afirmando que o evangelho que ele anuncia brota daquela revelação. A visão que tem de Jesus Cristo é o que o faz mudar de posição, é o seu chamado. Por essa graça, Paulo se coloca em pé de igualdade com os outros apóstolos (cf. lCor 15,3-11).

O livro de Atos dos Apóstolos narra três vezes a conversão de Paulo. Para Lucas, este é o maior de todos os acontecimentos da Igreja dos primeiros tempos.

Quando quer falar do sucesso que o anúncio cristão está alcançando por toda parte, Lucas refere-se às conversões em termos quantitativos: 3 mil convertidos (cf. At 2,41), 5 mil (cf. At 4,4), muitas aldeias (cf. At 8,25), todos os habitantes de uma cidade (cf. At 9,35).

Quando o convertido é alguém ilustre ou especial, Lucas dá um pouco mais de destaque ao episódio: o mago Simão (cf. At 8, 9-24), um alto funcionário da rainha da Etiópia (cf. At 8, 26-40), Cornélio, comandante romano em Cesaréia (cf. At 10), o procônsul da ilha de Chipre (cf. At 13, 6-12).

Quando o convertido é muito especial mesmo, Lucas conta e reconta o episódio – é o caso de Paulo. De grande perseguidor, Paulo se torna o maior dos evangelizadores. Isso merece destaque especial.

Para não dar a impressão de mera repetição, Lucas cria uma moldura distinta para cada um dos três relatos. Assim:

• Em At 9,1-30, o evento é contado por um narrador. Com muita habilidade, Lucas dispõe este primeiro relato antes do trabalho missionário de Pedro, misturando com outros episódios de conversão de pagãos, desaguando na grande controvérsia sobre a circuncisão que motiva o concilio de Jerusalém. À primeira vista, a primeira narrativa da vocação de Paulo parece estar solta no meio dos outros episódios. Mas há de fato uma moldura que dá enquadramento a tudo: os diversos sinais que apontam para o rumo dos pagãos. A conversão de Paulo é, talvez, o mais importante desses sinais (*).

• A segunda narrativa (At 22,1-21) é colocada na boca do próprio Paulo, na forma de um discurso dirigido ao povo. A moldura do relato é o episódio em que Paulo é preso no templo de Jerusalém. Também nesta segunda narrativa, o sentido para o onde o discurso aponta é a missão de Paulo: “Vai! É para longe, para os pagãos que vou te enviar” (At 22,21).

• Também a terceira narrativa (At 26) Lucas a escreve na forma de um discurso de Paulo. No episódio que serve de moldura ao relato, Paulo se defende diante do rei Agripa, em Cesaréia, das acusações movidas por judeus. Aqui, Lucas constrói um ligamento entre a esperança judaica expressa na Lei e nos Profetas e a resposta cristã (cf. 26, 22-23 e 26, 27-28). Também neste relato, há o aceno para o anúncio “ao povo judeu e às nações pagãs” (At 26,23).

A cada vez que narra a conversão de Paulo, Lucas vai acrescentando e variando novos detalhes. Assim, na primeira narrativa, Paulo se vê cercado por uma luz vinda do céu, cai por terra, ouve uma voz. Também seus companheiros ouvem a voz, ficam mudos de espanto, mas não vêem ninguém (cf. At 9, 3-9).

Na segunda narrativa, a luz que envolve Paulo é uma grande luz. Também aqui Paulo cai por terra, ouve uma voz. Quanto aos companheiros de Paulo, inversamente ao que é dito no primeiro relato, eles vêem a luz, mas não ouvem a voz (cf. At 22, 6-9). Na terceira narrativa, Lucas amplia os detalhes sobre a luz: é meio-dia (hora em que a luz do sol é muito forte) e, no entanto, a luz que Paulo vê é mais brilhante que o sol, envolvendo também os companheiros de Paulo. Todos caem por terra. Paulo ouve a voz (cf. At 26,13-14).

Nas duas primeiras narrativas, os companheiros de Paulo o conduzem pela mão, por causa da cegueira que a luz lhe trouxe (cf. At 9,9; 22,11). O terceiro relato, por sua vez, fala de cegueira, mas não em relação a Paulo. E também não cita Ananias, que é um discípulo, conforme At 9,10. Já em At 22, Ananias é apresentado como um homem “piedoso e fiel à Lei, com boa reputação junto de todos os judeus que ali moravam” (At 22,12).

Por que tantas diferenças entre uma narrativa e outra? Teria isso algum sentido?

(*) Na segunda seção de Atos (At 6-15,35), a conversão de Paulo é um dos sinais do novo rumo do anúncio cristão.

Texto do livro “Uma Leitura dos Atos dos Apóstolos”, da coleção “Ser Igreja no novo milênio”, da CNBB.

O sentido da conversão de Saulo

Nos relatos sobre a conversão de Paulo, as incoerências entre os detalhes já são significativas por si mesmas. E a primeira coisa que significam é que Lucas não está preocupado com pormenores históricos. Se nem o próprio Paulo entra em detalhes!

Comparando o modo como Lucas narra a conversão de Paulo com aquilo que o próprio Paulo escreve em suas cartas, podemos observar que há um ponto fundamental de concordância entre os dois enfoques: a importância do episódio de Damasco. Se Paulo (nas epístolas) é discreto e não entra em detalhes é porque deseja ir diretamente à questão que para ele é fundamental: justificar seu trabalho entre os pagãos. Lucas, por sua vez, reveste o episódio com muitos detalhes, como uma outra forma de realçar sua importância. Em relação à importância do acontecimento, os dois enfoques concordam. Lucas, todavia, imprime à conversão de Paulo um sentido teológico próprio, de interesse para o momento da Igreja cristã dos anos 80.

Assim, na Carta aos Gálatas, ao falar da revelação de Jesus Cristo, Paulo se atribui expressamente o título de apóstolo (cf. GI 2,17); quer com isso justificar e defender seu ministério entre os pagãos. E que, nos inícios da Igreja, o movimento dos seguidores de Jesus mais se parecia com uma “seita” judaica; nesse contexto, abrir-se aos pagãos significava entrar em choque com a linha judaizante do cristianismo. Por isso Paulo foi combatido e teve problemas, inclusive com Pedro e Tiago, líderes da Igreja (cf. 01 2).

Entretanto, quando Lucas escreve Atos dos Apóstolos, os frutos do trabalho missionário de Paulo já podiam ser percebidos por toda parte. A dedicação de Paulo ao anúncio da palavra de Deus entre os gentios tornava sua obra comparável à dos outros apóstolos, talvez até maior que a de Pedro e Tiago. Não é por acaso que Lucas dedica metade de seus Atos dos Apóstolos a falar de Paulo. E pelos mesmos motivos que narra três vezes o episódio da conversão de Paulo.

Para Lucas, este é o maior, o mais importante acontecimento da história da Igreja primitiva. A repetição do relato sugere isso. Nos três relatos sobre o assunto, as “incoerências” realçam o que mais interessa: de grande perseguidor da Igreja, Saulo se torna o maior dos apóstolos. Não se trata, contudo, da conversão de um perseguidor qualquer que se transforma num missionário anônimo. Para Lucas é importante deixar explícito que se trata de um judeu radical, zeloso de sua fé, que assume de modo também radical o anúncio de Cristo entre pagãos.

Texto do livro “Uma Leitura dos Atos dos Apóstolos”, da coleção “Ser Igreja no novo milênio”, da CNBB.

E a lei como fica?

No seu tempo, ao transformar-se de judeu perseguidor em missionário cristão, Paulo esbarra numa questão que para ele mesmo é muito difícil de responder: Diante da Lei judaica, expressão da aliança com Deus, qual é o significado de Cristo e de sua morte na cruz? Para os cristãos, principalmente para aqueles vindos do judaísmo, que posição adotar face à Lei? Que fazer com a religião, o culto, a moral, as normas sociais do judaísmo? Que novidade é essa do cristianismo?

Naquilo que é o cerne da questão da Lei, Paulo é duro e intransigente: A lei não salva. Ela está superada e se tornou inútil (cf. Gl 2,16; 3,11; 5,18; Rm 3,20.28; 6,15), ‘Se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu por nada” (Gl 2,21)(*). O que a Lei faz é revelar a condição de pecado que constitui a história humana. Para falar que a Lei não tem mais serventia, Paulo usa uma comparação muito curiosa: a Lei é como um ‘pedagogo”, o escravo que leva o menino até o mestre. Uma vez que entregou a criança (a humanidade) aos cuidados do mestre (que é Cristo), o escravo (a Lei) está dispensado (Não deixe de ler Gl 3,19-29). No tempo de Paulo, sua posição e suas afirmações sobre a inutilidade da Lei foram motivo de escândalo para os judeus – e também para muitos cristãos convertidos do judaísmo. De fato, os judeus sempre tiveram um enorme apreço e veneração pela Torá (Leia o grande elogio da Lei de Deus que faz o Salmo 119).

(*) Toda a Carta aos Gálatas e depois a Carta aos Romanos giram em torno desse confronto entre a declaração de justiça pelo cumprimento da Lei e a salvação que se realiza por Cristo e pelo agir consequente da fé em Cristo.

Texto do livro “Uma Leitura dos Atos dos Apóstolos”, da coleção “Ser Igreja no novo milênio”, da CNBB.

Paulo, "pai" do novo Israel

Quando Lucas escreve o livro de Atos, a ruptura entre cristianismo e judaísmo já está bem demarcada. A posição mais livre do cristianismo helenístico face à Lei judaica não causa mais tanto escândalo nem tem o tom de ofensa da época de Paulo. Mesmo escrevendo para cristãos do mundo grego, Lucas interpreta os acontecimentos fundantes do cristianismo em estreita ligação com as tradições judaicas. Lucas constrói, com muita habilidade, uma compreensão do seguimento de Jesus com sua identidade fundada na fé judaica e, a um só tempo, livre do mesmo judaísmo.

Assim, os relatos que Lucas cria para falar da conversão de Paulo estão cheios de referências àquelas tradições. No segundo relato da conversão (At 22), quem abre os olhos de Paulo, Ananias, é apresentado como um judeu piedoso e querido entre seus concidadãos. Na mesma linha de compreensão, o terceiro relato (At 26) não fala da cegueira de Paulo; Lucas usa, no entanto, a mesma imagem, com uma citação do profeta Isaías, para falar da missão de Paulo ao povo judeu e aos pagãos: “para que lhes abras os olhos e para que eles se convertam das trevas para a luz” (At 26,18; cf. Is 35,5;
42,7.16).

No relato de At 26, a obediência de Paulo à visão celeste está em perfeita concordância com aquilo que a Lei e os Profetas ensinam (cf. At 26,19-23). Ao final do relato, Lucas constrói um diálogo entre Paulo e o rei Agripa. Mesmo tendo um certo tom de ironia, o diálogo apela para a fé nos Profetas como fonte do caminho cristão: “Rei Agripa, acreditas nos Profetas? Aliás, eu sei que acreditas. Então, Agripa disse a Paulo: Ainda um pouco, e me convences a tornar-me cristão!” (At 26,27-28). Essa conexão entre fé judaica e fé cristã, Lucas a estabelece até mesmo na estrutura da narrativa. Com pequenas diferenças entre si, os três relatos seguem basicamente este esquema:

• Descrição do que Saulo está fazendo e quais são suas intenções: viagem a Damasco, com autoridade, para prender cristãos (At 9,1-3; 22, 4-5; 26,12);
• Epifania (manifestação) da divindade e êxtase de Paulo (visão da luz, queda por terra, voz que vem do céu) (At 9,3; 22,6; 26,13);
• Diálogo entre a voz e Saulo. A voz pergunta: Saul, Saul, por que me persegues? Paulo pergunta: Quem és, Senhor? A voz responde: Eu sou Jesus, a quem persegues. (At 9, 4-5; 22,7-8; 26,14-15).
• As ordens e a missão dadas a Paulo (At 9,6ss; 22,10ss; 26,l6ss).

Esse esquema básico, Lucas o extrai do Antigo Testamento, daquelas narrativas sobre a vocação e a missão dos pais e profetas do povo de Israel. Um exemplo é o da vocação de Moisés (Leia Ex 3,1-17): o relato começa com a descrição do que Moisés está fazendo; depois, vem a epifania divina (o anjo de Deus na sarça ardente) com o diálogo: uma voz chama Moisés pelo nome e se revela; há uma pergunta sobre a identidade de quem está chamando; no fim, Moisés recebe a missão de libertar e guiar o povo. São muitos os exemplos. Entre outros: a missão de Jacó (Gn 32,23-33); a vocação de Gedeão (Jz 6,11-24); a vocação de Samuel para ser profeta (1 Sm 3); a vocação dos profetas Isaías (Is 6,1-13) e Jeremias (Jr 1,4-10).

O aspecto mais importante da conversão de Paulo é, certamente, sua missão no meio dos gentios. Lucas compreende que essa missão é resposta a um chamado divino. Neste sentido, a fé cristã aberta a todos os povos dá continuidade de modo fiel e legítimo, à religião de Israel. Uma boa imagem para descrever este fato talvez seja a da árvore nova plantada a partir de uma estaca de galho da árvore antiga. A planta nova é – e não é mais – parte daquela que lhe deu origem. Dentro desta compreensão, Paulo, o apóstolo dos gentios, é pai e profeta do povo de Deus que reúne agora tanto judeus como pagãos.

Texto do livro “Uma Leitura dos Atos dos Apóstolos”, da coleção “Ser Igreja no novo milênio”, da CNBB.

Cronologia da vida de Paulo

Há várias discordâncias entre os dados das epístolas e os dados dos Atos dos Apóstolos. Estas discordâncias suscitam problemas quando se trata de procurar fundamentar uma cronologia de Paulo. Existem inúmeras obras sobre o assunto e inúmeras tentativas de cronologia. Vamos apenas oferecer algumas das últimas hipóteses apresentadas pelos críticos entre as que se apegam mais estritamente às regras da critica.

1. A cronologia de Jerome Murphy-O’Connor
Eis a cronologia apresentada para a primeira parte da missão de Paulo, o espaço entre a primeira e a segunda visita em Jerusalém, por Jerome Murphy-O’Connor, da escola bíblica de Jerusalém, num artigo da “Revue Biblique”, 1983, p. 71-91, sob título Pauline Missions before the Jerusalem Conference. Já vimos anteriormente que Lucas atribui a Paulo cinco viagens a Jerusalém (At 11,30; 9,26-30; 15,2-30; 18,22; 21,15). Segundo as epístolas, sobretudo Gl 1,17-18; 2, 1, Paulo subiu somente três vezes a Jerusalém, sendo que a terceira foi a viagem com a coleta anunciada em diversas epístolas. Lucas acrescenta duas viagens que não houve. Temos aqui um caso particular do princípio reconhecido hoje em dia como fundamental na crítica do Novo Testamento: entre o testemunho das epístolas e o dos Atos dos Apóstolos é preciso escolher a versão do próprio Paulo. Tal é também o princípio que J. Murphy-O’Connor põe na base do seu estudo. Ora, para fundamentar a sua cronologia, o autor estabelece primeiro alguns fatos que servem como referências e pontos de partida da hipótese.

1º ) Quando Paulo foi expulso de Damasco, o rei Aretas reinava dentro da cidade. Ora, Aretas morreu em 39 e somente pode ter exercido o poder dentro de Damasco entre 37 e 39. Por conseguinte, Paulo deve ter sido expulso não antes de 37. Por conseguinte podemos colocar a primeira visita a Jerusalém em 37. Daí podemos inferir que Paulo se converteu em 34.

2º ) Do exame atento de certos textos de Gl e 2Cor podemos inferir que Paulo evangelizou a Galácia antes da conferência de Jerusalém. Também podemos concluir que o convênio entre Pedro e Paulo mencionado em Gl 2,7 foi feito na primeira visita a Jerusalém em 37 e desde então Paulo tinha consciência de ter sido chamado para evangelizar as nações.

3º) Fortes indícios tirados das epístolas mostram que Paulo evangelizou a Macedônia e a Acaia, isto é, Filipos, Tessalônica, Corinto, antes da conferência de Jerusalém, isto é, antes de 51.

4º) Paulo estava em Corinto quando Galião foi governador, isto é, entre o 1º de julho de 51 e o 1º de julho de 52. O testemunho dos Atos não pode ser desmentido. Paulo esteve 18 meses em Corinto, mas não se sabe se antes ou durante ou depois do mandato de Galião. Estava no começo ou no fim da estadia quando Galião mandava?

5º ) A data de 49 para o edito de Cláudio expulsando os judeus de Roma e a viagem de Áquila para Corinto não têm garantia. O testemunho de Orósio é muito fraco por causa da fraqueza das suas fontes. Outros testemunhos de Suetônio e Dio Cássio tendem a colocar o edito em 41 logo quando Cláudio assumiu o poder. Mas daí não devemos concluir que Áquila foi imediatamente a Corinto. Nada se opõe a que tenha ido até pelos anos 46/47.

6º) Nada justifica que houvesse duas viagens a Corinto antes da conferência de Jerusalém. Tudo indica que a conferência se realizou não como diz Lucas antes da fundação das igrejas gregas, mas depois, isto é, depois do mandato de Galião em Corinto. Isto nos levaria a uma data de 51, 14 anos depois da primeira visita segundo a afirmação de Gl 2,1. Eventualmente poderia haver uma decalagem das duas datas até 39 e 53, mas certamente não mais tarde. Daí o seguinte quadro: 34 Conversão de Paulo
37 Fuga de Damasco e visita a Jerusalém, acordo com Pedro
45 partida de Antioquia
45-49 Missão: Síria e Cilícia, Derbe, Listra, Frígia e Galácia, Trôade, Neápolis, Filipos, Tessalônica.
50-51 Corinto
51 fim do ano: Jerusalém, conferência relatada por Gl 2,1-10, e de modo um pouco diferente por Lucas nos Atos 15.
Depois disso as datas das outras viagens podem ser antecipadas.

2. A cronologia de J. Roloff no seu comentário
Roloff admite a sucessão das viagens de Paulo na ordem de Lucas e aceita como Lucas que a conferência de Jerusalém se tenha realizado depois da primeira viagem e antes da fundação das Igrejas da Grécia. Daí a cronologia proposta. As coincidências básicas com a história profana são a presença do rei Aretas em Damasco, a presença de Galião em Corinto de 51 a 52, e a substituição de Félix por Festo como governador da Palestina colocada em 58. Daí a seguinte cronologia: 33 Conversão de Paulo
35-37 Presença em Damasco
37 Fuga de Damasco e visita a Jerusalém
depois de 40 chegada a Antioquia e primeira missão
48 Conferência de Jerusalém
48-50 Grande Missão
50-52 Corinto
53-55 Éfeso
55-56 Segunda viagem à Grécia
56 Prisão em Jerusalém
58 Festa em Cesaréia, apelo a César, viagem para Roma

3. Uma cronologia clássica: a Bíblia de Jerusalém
34
 Conversão de Paulo
36/38 Fuga de Damasco e visita à Igreja de Jerusalém
46/48 Primeira Missão de Paulo (At 13-14)
48 Concílio de Jerusalém
49-52 Segunda missão de Paulo
50-52 Corinto
53-58 Terceira missão
54-57 Éfeso
Fim 57 Macedônia, Corinto
Páscoa 58 Filipos

Texto do livro “Atos dos Apóstolos – Comentário Bíblico”, de José Comblin, Editora Vozes.

Paulo, perfil do homem e do apóstolo

Personagens importantes da Igreja primitiva dedicaram a sua vida ao Senhor, ao Evangelho e à Igreja. Trata-se de homens, e também de mulheres que, como escreve Lucas no Livro dos Actos, “expuseram as suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (15, 26).

O primeiro deles, chamado pelo próprio Senhor, pelo Ressuscitado, para ser também ele um verdadeiro Apóstolo, é sem dúvida Paulo de Tarso. Ele brilha como estrela de primeira grandeza na história da Igreja, e não só da primitiva. São João Crisóstomo exalta-o como personagem superior até a muitos anjos e arcanjos (cf. Panegirico, 7, 3). Dante Alighieri na Divina Comédia, inspirando-se na narração de Lucas feita nos Actos (cf. 9, 15), define-o simplesmente “vaso de eleição” (Inf. 2, 28), que significa:  instrumento pré-escolhido por Deus. Outros chamaram-no o “décimo terceiro Apóstolo” e realmente ele insiste muito para ser um verdadeiro Apóstolo, tendo sido chamado pelo Ressuscitado ou até “o primeiro depois do Único”. Sem dúvida, depois de Jesus, ele é o personagem das origens sobre a qual estamos mais informados. De facto, possuímos não só a narração que dele faz Lucas nos Actos dos Apóstolos, mas também um grupo de Cartas que provêm directamente da sua mão e sem intermediários nos revelam a sua personalidade e o seu pensamento. Lucas informa-nos que o seu nome originário era Saulo (cf. Act 7, 58; 8, 1, etc.), aliás em hebraico Saul (cf. Act 9, 14.17; 22, 7.13; 26, 14), como o rei Saul (cf. Act 13, 21), e era um judeu da diáspora, estando a cidade de Tarso situada entre a Anatólia e a Síria. Tinha ido muito cedo a Jerusalém para estudar profundamente a Lei moisaica aos pés do grande Rabi Gamaliel (cf. Act 22, 3). Tinha aprendido também uma profissão manual e áspera, era fabricante de tendas (cf. Act 18, 3), que sucessivamente lhe permitiu sustentar-se pessoalmente sem pesar sobre as Igrejas (cf. Act 20, 34; 1 Cor 4, 12; 2 Cor 12, 13-14).

Para ele foi decisivo conhecer a comunidade dos que se professavam discípulos de Jesus. Por eles tinha sabido a notícia de uma nova fé um novo “caminho”, como se dizia que colocava no seu centro não tanto a Lei de Deus, quanto a pessoa de Jesus, crucificado e ressuscitado, com o qual estava relacionada a remissão dos pecados. Como judeu zeloso, ele considerava esta mensagem inaceitável, aliás escandalosa, e por isso sentiu o dever de perseguir os seguidores de Cristo também fora de Jerusalém. Foi precisamente no caminho para Damasco, no início dos anos 30, que Saulo, segundo as suas palavras, foi “alcançado por Cristo” (Fl 3, 12). Enquanto Lucas narra os factos com riqueza de pormenores de como a luz do Ressuscitado o alcançou e mudou fundamentalmente toda a sua vida ele nas suas Cartas vai directamente ao essencial e fala não só da visão (cf. 1 Cor 9, 1), mas de iluminação (cf. 2 Cor 4, 6) e sobretudo de revelação e de vocação no encontro com o Ressuscitado (cf. Gl 1, 15-16). De facto, definir-se-á explicitamente “apóstolo por vocação” (cf. Rm 1, 1; 1 Cor 1, 1) ou “apóstolo por vontade de Deus” (2 Cor 1, 1; Ef 1, 1; Col 1, 1), para realçar que a sua conversão não era o resultado de um desenvolvimento de pensamentos, de reflexões, mas o fruto de uma intervenção divina, de uma imprevisível graça divina. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3, 7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Agora a sua existência será a de um Apóstolo desejoso de “se fazer tudo em todos” (1 Cor 9, 22) sem reservas.

Isto constitui para nós uma lição muito importante:  o mais importante é colocar no centro da própria vida Jesus Cristo, de modo que a nossa identidade se distinga essencialmente pelo encontro, pela comunhão com Cristo e com a sua Palavra. À sua luz todos os outros valores são recuperados e ao mesmo tempo purificados de eventuais impurezas. Outra lição fundamental oferecida por Paulo é o alcance universal que caracteriza o seu apostolado. Vendo a agudeza do problema do acesso dos Gentios, isto é dos pagãos, a Deus, que em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado oferece a salvação a todos os homens sem excepções, dedicou-se totalmente a dar a conhecer este Evangelho, literalmente “boa notícia”, isto é, anúncio de graça destinado a reconciliar o homem com Deus, consigo mesmo e com os outros. Desde o primeiro momento ele tinha compreendido que esta era uma realidade que não dizia respeito só aos judeus ou a um certo grupo de homens, mas que tinha um valor universal e se referia a todos, porque Deus é o Deus de todos.

O ponto de partida para as suas viagens foi a Igreja de Antioquia da Síria, onde pela primeira vez o Evangelho foi anunciado aos Gregos e onde também foi cunhado o nome de “cristãos” (cf. Act 11, 20.26), isto é, de crentes em Cristo. Dali ele dirigiu-se primeiro para Chipre e depois várias vezes para as regiões da Ásia Menor (Pisídia, Licaónia, Galácia), depois para as da Europa (Macedónia, Grécia). Mais relevantes foram as cidades de Éfeso, Filipos, Tessalônica, Corinto, sem contudo esquecer Beréia, Atenas e Mileto.

No apostolado de Paulo não faltaram dificuldades, que ele enfrentou com coragem por amor de Cristo. Ele mesmo recorda ter agido “pelos trabalhos… pelas prisões… pelos açoites, pelos frequentes perigos de morte… três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado; três vezes naufraguei… viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos; trabalhos e fadigas, repetidas vigílias com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! E além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia:  cuidado de todas as Igrejas” (2 Cor 11, 23-28). De um trecho da Carta aos Romanos (cf. 15, 24.28) transparece o seu propósito de chegar até à Espanha, às extremidades do Ocidente, para anunciar o Evangelho em toda a parte, até aos confins da terra então conhecida. Como não admirar um homem como este? Como não agradecer ao Senhor por nos ter dado um Apóstolo desta estatura? É claro que não lhe teria sido possível enfrentar situações tão difíceis e por vezes desesperadas, se não tivesse havido uma razão de valor absoluto, perante a qual nenhum limite se podia considerar insuperável. Para Paulo, esta razão, sabemo-lo, é Jesus Cristo, do qual ele escreve:  “O amor de Cristo nos impulsiona… para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5, 14-15), por nós, por todos.

De facto, o Apóstolo dará o testemunho supremo do sangue sob o imperador Nero aqui em Roma, onde conservamos e veneramos os seus despojos mortais. Assim escreveu acerca dele Clemente Romano, meu predecessor nesta Sede Apostólica nos últimos anos do século I:  “Por causa dos ciúmes e da discórdia Paulo foi obrigado a mostrar-nos como se obtém o prémio da paciência… Depois de ter pregado a justiça a todo o mundo, e depois de ter chegado até aos extremos confins do Ocidente, sofreu o martírio diante dos governantes; assim partiu deste mundo e chegou ao lugar sagrado, que com isso se tornou o maior modelo de perseverança” (Aos Coríntios, 5). O Senhor nos ajude a pôr em prática a exortação que nos foi deixada pelo Apóstolo nas suas Cartas:  “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1 Cor 11, 1).

Papa Bento XVI

A cidade de São Paulo: grande como o apóstolo

A fundação de São Paulo insere-se no processo de ocupação e exploração das terras americanas pelos portugueses, a partir do século XVI. Inicialmente, os colonizadores fundaram a Vila de Santo André da Borda do Campo (1553), constantemente ameaçada pelos povos indígenas da região. Nessa época, um grupo de padres da Companhia de Jesus, da qual faziam parte José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, escalaram a serra do mar chegando ao planalto de Piratininga onde encontraram “ares frios e temperados como os de Espanha” e “uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”. Do ponto de vista da segurança, a localização topográfica de São Paulo era perfeita: situava-se numa colina alta e plana, cercada por dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú.

Nesse lugar, fundaram o Colégio dos Jesuítas em 25 de janeiro de 1554 – Festa da Conversão de São Paulo -, ao redor do qual iniciou-se a construção das primeiras casas de taipa que dariam origem ao povoado de São Paulo de Piratininga.

Em 1560, o povoado ganhou foros de Vila e pelourinho mas a distância do litoral, o isolamento comercial e o solo inadequado ao cultivo de produtos de exportação, condenou a Vila a ocupar uma posição insignificante durante séculos na América Portuguesa. Em 1681, São Paulo foi considerada cabeça da Capitania de São Paulo e, em 1711, a Vila foi elevada à categoria de Cidade. Hoje, a metrópole paulistana é a maior do país, com uma população de 16 milhões de habitantes.

Non ducor, duco!

Tu me acolhes, esconde e seduz.
Uma gama de possibilidades a cada manhã.
Teu cinzento céu encobre as cores dessa gente.
Cidade dos sons, metrópole do lixo e do luxo.
Agrada-me tua diversidade.
Em ti é possível se isolar no meio da multidão. Anônimo, desconhecido, despercebido.
És indiferente, esnobe, auto suficiente, orgulhosa, tolerante, fria, ambiciosa, capitalista, egoísta. Assemelho-me a ti!
Sinto tua falta quando viajo.
Teu ar, correria, frenesi, burburinho, becos e palácios me enfeitiçam.
Doentia paixão. És minha Paris, minha Nova York, minha Tóquio, meu Toronto.
Viciado por andar por tuas ruas. Sempre existe um lugar onde não fui um local novo para conhecer.
Vives em constante transformação. Não és sempre a mesma, mas não mudas tua essência.
Um filho iludido, um paulistano! Que acha graça em ti, que vê possibilidades onde as pessoas vêem problemas.
São Paulo, cidade que sempre vou amar!

“Por isso e para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de locomotiva.” (Mário de Andrade)