Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Fundação Imaculada Mãe de Deus em Angola

Apresentação

28 ANOS DE MISSÃO

Nestes 28 anos de história, mais de 50 frades estiveram em Angola como missionários, sem contar outros tantos que passaram pela Missão para um período mais curto de ajuda na formação de frades, leigos e das Irmãs Clarissas e outras atividades. Hoje, compõem a Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA) 18 frades de profissão definitiva, dos quais cinco angolanos. Um total de 43 são angolanos professos temporários  e três brasileiros fazem a experiência do Ano Missionário.

Os trabalhos realizados pelos frades da FIMDA se distinguem pela diversidade manifesta no atendimento a paróquias, na formação, no atendimento aos necessitados, na educação escolar, a escuta cristã, na assistência às Irmãs Clarissas, na produção e apresentação de programas de rádio, nos trabalhos sociais, no serviço da escuta cristã, nas celebrações, nas visitas a aldeias e lugares de difícil acesso, no acompanhamento vocacional dos candidatos à Vida Religiosa Franciscana.

Para além de tantas atividades, nota-se um esforço dos frades em cultivar uma grande proximidade com o povo. Visitando as fraternidades, não é raro ver o afluxo de pessoas que vêm ao encontro dos irmãos, seja quando estão em casa ou quando andam pelas ruas e vielas das localidades onde estão presentes. São muitos os cumprimentos, os sorrisos e a demonstração de carinho àqueles que abraçaram o seguimento de Cristo ao modo de Francisco e se esforçam para serem esta presença evangélica e evangelizadora entre os irmãos e irmãs de Angola.

As cinco Fraternidades

MALANGE

Malange
Fraternidade Franciscana do Seminário Monte Alverne
Fraternidade Franciscana São Damião

Existe um jargão na vida religiosa que identifica o primeiro lugar de transferência de um religioso que concluiu a formação inicial como o “primeiro amor”. Aplicando esta linguagem à presença franciscana em Angola, pode-se dizer que Malange foi o “primeiro amor” da Ordem dos Frades Menores em terras angolanas. Capital da Província de mesmo nome, localizada na região Centro-Norte do país, com população aproximada de 968 mil habitantes, (segundo o Censo de 2014) sendo que 486 mil pessoas vivem na região da capital.

Em Malange, a presença dos frades se localiza no bairro chamado Katepa, onde estão duas fraternidades: São Damião e Seminário Monte Alverne. Sob os cuidados da Fraternidade São Damião, estão a Paróquia dos Santos Mártires de Uganda, a Missão em Kangandala e a assistência às Irmãs Clarissas.

Em Malange, as duas fraternidades trabalham em profunda sintonia, num espírito de interajuda e proximidade. Destaca-se também a convivência muito próxima com as diversas congregações religiosas femininas que ali se fazem presentes, como as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, as Irmãs Franciscanas de São José e as Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Quibala
Fraternidade Franciscana Santo Antônio

Quibala é um município da Província de Kwanza Sul e conta atualmente com cerca de 135 mil habitantes. Localiza-se a 194 Km de Sumbe, a capital da Província e a 323 km de Luanda, capital do país. No período da guerra, Quibala, apesar de se localizar  no Interior, é um ponto estratégico, pois por ali passa a ligação entre o Norte e o Sul do país. Por este motivo, era alvo de grandes disputas, ora estando sob o domínio do governo (MPLA), ora sob o comando da UNITA. Até hoje chamam a atenção de quem anda pelo centro da cidade. Alguns prédios em ruínas, por conta dos bombardeios da época, e também tanques e carros de guerra estão abandonados. No terreno onde se localiza atualmente a Fraternidade Santo Antônio, ainda hoje se encontram  restos de projéteis deflagrados e também armas abandonadas. O lugar é montanhoso, rico em belas paisagens, e com muitas grandes pedras que conferem uma especial beleza à cidade.

A ida dos frades para esta localidade se deu logo no início da Missão por conta do atendimento ao Mosteiro de Irmãs Clarissas, de fundação mexicana, que ali se instalara. Devido à guerra, em 1998, quando os frades também interromperam a presença em Quibala, as Irmãs Clarissas se transferiram para Lubango, na Província de Huíla, ao Sul de Angola.

Assim como em Malange, a presença em Quibala tem um contorno pastoral bastante intensa,pois os frades têm atuação efetiva na Missão Nossa Senhora das Dores, de responsabilidade dos padres diocesanos. Em comunhão com a Igreja local, os freis de Quibala celebram nos bairros e aldeias e também os postulantes têm diversas atividades pastorais. Conquista recente da Fraternidade do Postulantado é a Capela Santo Antônio, uma construção simples, porém bastante expressiva da espiritualidade franciscana.

Luanda
Fraternidade Franciscana São Francisco de Assis

Luanda é a menor Província de Angola, mas também a mais populosa, com 6,5 milhões de habitantes, sendo cerca de 2,1 milhões apenas no entorno da capital, segundo o censo de 2014. É um lugar de intensa movimentação, tanto de pessoas quanto de veículos. O trânsito é bastante pesado e pouco organizado, o que torna demorados deslocamentos razoavelmente curtos. Dentre os principais desafios estão a melhoria da qualidade dos serviços públicos, o saneamento básico e a coleta de lixo.

Assim como chegaram a Malange por conta do atendimento às Irmãs Clarissas, em 1990, seis anos mais tarde, acompanhando as Clarissas deste mesmo mosteiro, de fundação espanhola, os frades se instalaram em Luanda e passaram a morar ao lado do mosteiro construído para as Clarissas, no Bairro do Palanca, em Luanda, em terreno cedido pela Arquidiocese de Luanda. Hoje, a sede da Fundação é a Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda, e ali os frades se dedicam ao atendimento da Paróquia São Lucas,  o acompanhamento formativo dos frades professos temporários, o atendimento ao Quimbo São Francisco, o Projeto Nossos Miúdos, que se ocupa na acolhida de meninos que foram abandonados pela família.

Em Palanca, moram os frades de profissão temporária que cursam Filosofia na Universidade Católica de Angola, situada a cinco minutos de caminhada da Fraternidade São Francisco. Em termos de instalações físicas, foi construído  junto ao Convento do Palanca uma residência para acolher  os frades estudantes de Filosofia.

Viana
Fraternidade Franciscana da Porciúncula

Viana é um município pertencente à Província de Luanda. Tem 1,5 milhão de habitantes. Os frades estão aí instalados desde 2000. O bairro da Estalagem, onde se localiza a Fraternidade, é muito populoso, e por isso a casa dos frades também é muito movimentada. Muitos meninos  vêm treinar futebol no Projeto Bola da Paz, que busca a socialização através do esporte. Responsável pelo trabalho social da casa, que também oferece um projeto de inclusão digital, Frei Ivair Bueno se sente muito à vontade entre o povo e trata as pessoas de modo muito próximo, sempre com sorrisos e brincadeiras.

Devido à superpopulação do bairro, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima também tem movimentação intensa. Para se ter uma ideia, são três mil crianças na catequese, que se reúnem no entorno da igreja matriz, sentadas sobre banquinhos coloridos de plástico e sob a sombra das árvores.

Em Viana, os frades mantêm também convivência muito próxima com a as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, de quem são vizinhos de terreno. Num espírito de integração e interajuda, a celebração da Eucaristia diária, com a presença dos frades e das irmãs, se reveza semanalmente entre as duas casas: ora os freis vão até as irmãs e vice-versa.

Quimbo São Francisco

Chão de terra batida a céu aberto. Árvores sob as quais as pessoas se abrigam à sombra. Muita gente! Mulheres com roupas coloridas, grande número delas com crianças, que trazem junto às costas amarradas por um tecido também de cor bem marcante. Crianças muito pequenas deitadas no chão, sobre um lençol e sob o olhar cuidadoso da mãe. Para sentar, uma pedra, a poeira do chão ou um banquinho colorido, de plástico, simples, leve e fácil de carregar. À frente, num pequeno palco, que também é altar, algumas mammás (termo típico angolano para designar mulher) rezam, cantam, louvam e agradecem, incentivando a multidão a fazer o mesmo. Isso desde o começo da manhã, totalmente dedicada à oração e, com a fidelidade ao modo angolano de se expressar, também na fé, com cantos e danças que dão som e movimentos a pedidos, agradecimentos, súplicas, dúvidas, medos, alegrias e todos os outros sentimentos e atitudes que povoam o coração humano.

Esta seria, em breves palavras, a descrição da manhã de uma quinta-feira no chamado Quimbo São Francisco. O lugar, localizado no terreno da Fraternidade São Francisco, em Luanda, se firmou como um verdadeiro santuário, onde grande número de fiéis acorre semanalmente em busca de um momento de oração, reflexão, louvor e celebração.

O espaço surgiu a partir de um pedido do cardeal Arcebispo de Luanda na época da chegada dos frades, Dom Alexandre Nascimento. Preocupado com a movimentada rotina dos religiosos por conta dos desafios da guerra e com medo que caíssem num ativismo exagerado, o cardeal pediu aos frades que criassem naquele espaço, junto à fraternidade, um lugar de cultivo espiritual, onde o religioso ou a religiosa que desejasse pudesse ter um momento de recolhimento, meditação, leitura da Palavra de Deus, enfim, de oração pessoal. E foi nesta perspectiva que surgiu o Quimbo São Francisco.

Hoje em dia, a utilização do espaço foi além daquela sugerida pelo arcebispo e pensada pelos frades e, também com a aproximação da Renovação Carismática Católica, o Quimbo se tornou um lugar de peregrinação em massa. Ali as pessoas chegam de manhã para participar de orações, pregações, momentos de louvor, novenas. Às 11 horas, celebra-se a Missa, sempre com a presidência de um dos frades e animada com canto e dança.

Para quem deseja, existe ainda no Quimbo São Francisco um serviço de escuta cristã, onde um voluntário e também algum dos frades estão à disposição para uma conversa pessoal e particular. E assim mais uma quinta-feira se vai… Embora seja este o dia de maior movimento, sempre há naquele espaço pessoas em oração, sozinhas ou em grupo, revelando que o Quimbo São Francisco mora no coração do povo e pertence ao povo de Angola.

Frei Gustavo Medella

Os primeiros missionários da Missão

Há 28 anos, no dia 16 de setembro de 1990, na Missa solene no Seminário de Agudos foram enviados os primeiros missionários.

“E pelo mundo eu vou, cantando o teu amor, pois disponível estou para servi-te, Senhor!”

O canto ecoou solene na bela igreja do Seminário Santo Antônio de Agudos no dia 16 de setembro de 1990, já Festa das Chagas de São Francisco de Assis, festa que fala diretamente da Cruz do Senhor, quando era celebrada a Missa de Envio dos primeiros missionário a Angola.

Na celebração presidida pelo Ministro Provincial, Frei Estêvão Ottenbreit, estavam os três missionários, que abririam as trilhas da Missão: Frei Plínio Gande da Silva, Frei José Zanchet e Frei Pedro Caron. Eles representavam os 550 frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição, que naquela momento dava o seu “sim” à convocação do Ministro Geral, Frei John Vaughn, com o pedido “A África nos chama”.

 

Antes de entregar a Cruz Missionária, o Ministro Provincial lhes fez três perguntas, em que estava embutido o programa da Missão:

– Diante de representantes de mais de 20 Fraternidades de nossa Província, eu lhes pergunto se, de fato, estão dispostos a partir e a perseverar em todas as adversidades e, na alegria franciscana, dar testemunho de total entrega à Missão, incluída a própria vida?

– Partindo para a missão na África, Vocês deverão – como o Cristo fez quando veio ao mundo – encarnar-se no povo a quem vão servir. Estão dispostos a renunciar seus modos culturais de viver, fazendo todo o esforço para levar a paz e o bem na convivência plena com a nova  cultura que Vocês vão encontrar?

– Vocês irão à Missão não para satisfazer a própria vontade. Vocês irão em nome de todos os Confrades da Província. Vocês irão como se o próprio Pai São Francisco refizesse sua Missão na África. “De São Francisco se disse que levava sempre Jesus no coração, Jesus na Boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os membros do seu corpo”. É exatamente isto que Vocês querem fazer na Missão?

Naquele dia, Frei José revelou que havia dentro dele um fogo que teimava em não se apagar, já que em 1967 partiu para o Chile e, em 1984, partiu para o Mato Grosso. Agora, definindo-se como “louco”, viajava a Angola para “o que der e vier”.

Frei Plínio confessou: “Parto feliz – acrescentou – de uma felicidade nunca antes experimentada por mim”.

Já Frei Pedro revelou que nunca tivera coragem de se apresentar para a Missão no Mato Grosso, por ser muito longe. E não sabia explicar por que partia naquele momento. Para ele, era a vontade de Deus: “Deus escolhe os mais simples e tolos. Coloca-se entre eles para dizer, como Isaías: ‘Eis-me aqui, enviai-me’.”

Os três missionários embarcaram, com o Definitório, no dia 24 de setembro de 1990 e chegaram em Angola no dia 25.

 

A Africa nos chama

Principais trechos da Carta “A África nos chama” ou do “Projeto-Franciscano-África”, apresentado pelo Ministro Geral  Frei João Vaughn, OFM, por ocasião do oitavo centenário de nascimento de São Francisco, foi uma escolha da Ordem no continente mais jovem para  dar continuidade à fraternidade que Francisco iniciou na pequena cidade de Assis.

Interprovincialidade:

É evidente que muitas Províncias não podem assumir sozinhas o peso de um novo território de missão. Isto desagrada por várias razões. Infelizmente, a diminuição de irmãos disponíveis em cada Província e o descobrimento da Igreja local, vistas em conjunto, podem ser um sinal providencial da necessidade de revisar a nossa tradição missionária. Pensamos que, de fato, um projeto interprovincial responda melhor às suas exigências, que pedem uma abertura maior e generosidade para os valores dos irmãos de outras Províncias e levam a acentuar, mormente, a inculturação na cultura da Igreja local.

Oferecimento franciscano:

o irmão missionário será, primeiramente e antes de mais nada, um hóspede e um discípulo na Igreja local; mas ele não vem com as mãos vazias; seu dom à Igreja local é a espiritualidade franciscana, que está viva na Igreja universal. Cremos que esta espiritualidade é um aspecto particular da vida total da Igreja, à qual os africanos têm direito, como qualquer outro membro da Igreja universal. Nós procuramos compreender este novo modo à luz dos sinais dos tempos hoje, e estamos muito animados, neste sentido, pelas respostas dos Bispos, encontradas numa recente viagem de orientação pela África.

Resposta africana:

Esperamos que este novo modo de enfrentar as coisas clarifique outro aspecto daquilo que a missão é na Igreja hoje. A evangelização é um processo com duplo sentido: no sentido em que se dá e se recebe. Portanto, em nosso caso deveria existir uma resposta africana ao nosso oferecimento da espiritualidade franciscana. Até agora, a vida e o trabalho de Francisco foram

interpretados quase exclusivamente em termos de cultura ocidental, especialmente na cultura de Assis e de Itália. Cremos que a experiência africana dos valores humanos e religiosos possa dar-nos, a nós todos, novas intuições dos valores, tão importantes para nós, como a oração, a pobreza, a minoridade, a alegria, a simplicidade, a vida fraterna, o estilo de vida evangélica …

Prioridade da Fraternidade sobre o trabalho:

Nossa decisão de sublinhar o valor da fraternidade sobre o trabalho implica numa nova escolha importante. Também o nosso método missionário deve assumir um caráter diferente. O primeiro objetivo é a realização destes valores da fraternidade em nosso estilo de vida. A própria experiência da fraternidade se converte num objetivo. Para nossos irmãos será um passo essencial para o momento em que todo o peso da missão estará sobre os ombros deles.

No passado os irmãos andaram pelas regiões mais afastadas do mundo para levar o Evangelho e, muitas vezes, estiveram a sós por muito tempo. E muitos ainda vivem assim. Isto não é contrário ao franciscanismo e temos o maior respeito e admiração por seu espírito de sacrifício e pelos resultados obtidos. É uma opção pelo bem da missão. Pensamos que esta escolha deva ser cedida aos

próprios irmãos africanos. Mas, deveriam ter, sobretudo, a plena experiência da fraternidade franciscana; somente mais tarde, e com esta experiência, poderão decidir o que a vocação missionária parece exigir deles, uma cultura particular, num tempo particular.

Novas estruturas jurídicas:

A interprovincialidade deste Projeto-África terá também uma particular estrutura jurídica para a nossa presença franciscana. Uma vez que muitas situações só podem ser previstas de maneira muito genérica, parece aconselhável que as estruturas devam ser simples e flexíveis. Para ser eficaz, o grupo internacional e interprovincia1 dos irmãos fará bem reduzindo ao mínimo a quantidade de estruturas que agora têm e, por outro lado, assumir uma atitude aberta para a integração na cultura africana, já desde o princípio.

Ao mesmo tempo, visto que serão necessárias algumas estruturas, para formar as Comunidades, para determinar as responsabilidades, para manter os laços com a Cúria Generalícia e com as Províncias de origem, já se começou, na Cúria Geral, um estudo para um esquema de estruturas provisórias adaptadas.

Preparação adequada:

A cuidadosa preparação de uma iniciativa como está é uma exigência justa da prudência e do interesse fraterno. De fato, muitos bispos africanos e missionários nos aconselharam tomar muito a sério esta preparação. As diferenças culturais e as sensibilidades nacionalistas são hoje muito mais aguçadas do que eram no passado. Além disso, cada grupo levará consigo as próprias dificuldades, causadas pela posição interprovincial e internacional. O compromisso missionário põe-se em discussão, já desde o princípio, pela prioridade da inculturação e da exposição transcultural.

Os membros de qualquer grupo que vá à África deverão conhecer-se bem entre si. Estes receberão uma primeira introdução na cultura para a qual estão sendo designados e começarão o estudo da língua. Neste estágio, a Secretaria Geral das Missões e uma comissão consultiva terão um trabalho importante.

Característica franciscana:

Concluamos esta descrição do projeto com uma alusão ao seu caráter interfranciscano. Nossa apresentação do carisma franciscano ficaria incompleta se não se pudesse comunicar a Igreja local africana, como outros religiosos, homens e mulheres, como também tantos mosteiros de Franciscanas de vida contemplativa e Congregações de Irmãs da Ordem Terceira Regular e até de franciscanos seculares, vivem os ideais de São Francisco em seu estado concreto de vida. Naturalmente, dependerá muito dos voluntários que conseguirmos recrutar para esta iniciativa.

Entrevista com o presidente da FIMDA

O presidente da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola, Frei José Antônio dos Santos, hoje tem como palavra-chave de sua rotina o verbo CONSOLIDAR. É com esse pensamento que ele participa da consolidação do belo trabalho missionário da Fundação, ou seja, fazer com que o já foi realizado durante estes 28 anos de presença franciscana consiga produzir frutos em terras angolanas. Os frutos, contudo, são abundantes como se pode ver pelo celeiro vocacional que se tornou a Missão nos últimos anos. Nesta entrevista, Frei José Antônio fala do passado, do presente e do futuro da Missão. Acompanhe!
Moacir Beggo

logo-angolaSite Franciscanos – Que cenário religioso, político e social o sr. encontrou em Angola quando chegou como missionário há 14 anos?

Frei José Antônio dos Santos – Todo o cenário politico, religioso e social era marcado pela guerra civil, que se estendia já por vários anos, com momentos de maior ou menor intensidade. A guerra destruiu, além das estruturas físicas, também muito das estruturas familiares, com o constante deslocamento das famílias e, dessa forma, muito das referências culturais. Os vários anos de guerra determinaram a realidade política fortemente marcada pela desconfiança que impedia qualquer tipo empreendimento e, portanto, dificultava o avanço econômico e social do país. As estradas eram precárias, impedindo a livre circulação de mercadorias, por vezes até mesmo os produtos mais básicos. O ambiente religioso era bastante intenso. Lembro-me de uma prece que era repetida ao final de todas as missas e celebrações litúrgicas. Era uma súplica pela paz. O povo repetia aquelas palavras em voz alta e forte. A vibração presente na oração demonstrava a esperança que todos tinham de que, um dia, a paz iria chegar.

Site Franciscanos – O que mudou neste tempo?

Frei José – Acredito que é possível afirmar que quase tudo mudou. Saímos de um período marcado pela guerra que destruiu todo o país, para um momento de grandes esperanças na reconstrução. Há um avanço muito grande na reforma e ampliação das cidades, construção de moradias populares, hospitais, escolas etc. Acredito que o grande desafio neste momento é a manutenção de tudo o que está sendo feito. Quando terminou a guerra, o governo sugeriu que a Igreja ajudasse no processo de reconstrução nacional, sobretudo no setor da educação e da saúde. A Igreja realmente tem procurado ajudar nestas duas áreas. Nossa missão franciscana tem se envolvido neste processo, sobretudo, através das escolas paroquiais, que acolhem as crianças e adolescentes mais carentes que, de outra forma, muito possivelmente, ficariam sem estudar.

Site Franciscanos – Que balanço o sr. faz deste trabalho na missão?

Frei José – O balanço é positivo. Inicialmente, havia muita expectativa em torno do que fazer e como fazer. Fui enviado para a fraternidade do Postulantado (Viana) para ajudar na formação, como vice-mestre dos postulantes. Ao chegar, já pelo meio do caminho, recebi a notícia de que o confrade que estava à frente da fraternidade e da formação, havia pedido para se retirar da missão e ir para outro projeto missionário da Ordem.

Avaliando todo o meu itinerário na missão, acredito que foi o momento mais difícil de todos. Chegar a outro país, recém-saído da formação, e cair dentro desse tipo de situação totalmente inesperada. Ninguém sabia quem iria substituir o confrade. O processo formativo do grupo de postulantes já seguia avançado. A dúvida pairava no ar. No meu coração meditava e me perguntava: que pai é esse que abandona os filhos em meio ao vendaval.

Havia muito boa vontade dos frades que permaneceram em ajudar a encontrar uma solução, dar apoio, ajudar, porém, durante quase dois anos, o que aconteceu foi uma sucessão de reajustamentos na fraternidade que a tornava inconstante. Mesmo recém-formado, percebia que esse ambiente não ajudava em nada a formação. Finalmente, as coisas foram se ajustando e, um novo confrade, já com experiência em formação chegou e ajudou a fazer a transição. Passei estes 6 anos iniciais na fraternidade de Viana. Durante esse tempo de missão, meu programa de trabalho tinha escrito em letras bem grandes sobre minha mesa: APRENDIZADO. Queria lembrar sempre que estava ali, naquele momento, mais para aprender do que para ensinar.

Algumas coisas me ajudaram muito neste momento: a acolhida, a abertura e o espírito fraterno por parte dos confrades que já estavam na missão; a partilha e a amizade dos confrades que foram junto comigo para a missão; o Curso para Missionários, oferecido pela Conferência Episcopal, que nos apresentava um pouco de tudo: oportunidade para conhecer um pouco da cultura, das línguas locais, da organização econômica, política e religiosa, mas, sobretudo, para conhecer outros missionários, recém-chegados de outras congregações e assim partilhar expectativas e experiências; a alegria dos nossos formandos e o seu entusiasmo e busca por cultivar a vocação franciscana; os tempos de trabalho pastoral junto às aldeias de Malange, com os frades estudantes, no período pós-guerra. Todas essas experiências ajudaram a conhecer um pouco da realidade de nossa missão. Hoje, a palavra-chave do meu trabalho tem sido CONSOLIDAR. Ou seja, tentar fazer com que o que já foi realizado durante estes 25 anos consiga produzir frutos e assim, aos poucos, a Fundação vá se consolidando, cada vez mais, em terras angolanas.

Desde quando cheguei a Angola que procuro estudar um pouco da sua história. Comecei com o processo de chegada dos primeiros europeus até o processo de independência. Depois percebi a necessidade de descobrir um pouco o processo de fixação dos vários povos de origem bantu no território, pois isso nos ajuda a entender um pouco da cultura ou culturas locais. Atualmente tenho pesquisado sobre os outros momentos em que houve presença de frades menores ou de algum dos grupos de frades que depois se integraram à OFM. Foram vários os momentos, como podem comprovar algumas ruínas de antigos conventos ou a lista dos bispos da cidade de Luanda, pelo menos 6 eram franciscanos. Alguns vieram diretamente de Portugal, outros já eram missionários. Isso indica a presença dos frades. Porém, pouco dessa história foi conservada, mas, conhecê-la nos ajuda a entender o que é necessário fazer para que a presença atual seja realmente duradoura e produza frutos de verdadeira evangelização, de promoção da dignidade da pessoa humana.

01Site Franciscanos – Hoje, como presidente da Fundação, quais os principais desafios da missão?

Frei José – Podemos afirmar que passamos do período de “instalação e reconhecimento” do terreno. Assim, surge o grande desafio que é a consolidação do que foi instalado e reconhecido. Com isso, o maior desafio é ter frades em número suficiente para oferecermos um trabalho na área pastoral e formativa de qualidade para que o nosso serviço de evangelização possa realmente ser o lugar onde o frade menor e todos aqueles que com ele se encontram possam sempre sair realizados em sua missão. Sabemos que tudo é um construir constante, mas, nos encontramos no momento em que o maior desafio não é somente construir, mas manter o que já foi edificado. Não falamos apenas das construções de pedra e cimento, mas, sobretudo da construção espiritual da Fundação.

Nossas paróquias cresceram, não em extensão territorial, mas, em número de pessoas, que passaram a residir nelas por causa do processo de deslocamento das populações que se iniciou logo nos primeiros anos do pós-guerra e vem se intensificando cada vez mais. A paroquia de Malange, por exemplo, há bem pouco tempo (três ou quatro anos) tinha poucas residências. Atualmente, para todo lado que se olha se vê uma nova construção. O mesmo pode ser dito das outras duas paróquias. O Kimbo São Francisco (em Luanda) vê o número de peregrinos aumentar todos os dias. Antes, recebíamos pessoas da grande Luanda, hoje há fiéis vindos mesmo de outras regiões.

Na formação, o número de vocacionados tem aumentado. Isso nos ajuda a fazer uma melhor seleção inicial. Ou aproveitamos o bom momento que a graça nos concede ou talvez nos arrependamos depois. Acrescenta-se a isso o fato de que o índice de perseverança tem sido bastante alto. Porém, a inconstância no número de formadores tem sido uma prática. Isso empobrece a nossa capacidade de acolher e ajudar no processo de discernimento e animação vocacional. Além disso, as constantes mudanças fazem com que não se gerem experiência e continuidade nos processos formativos. Muitas vezes acabamos por experimentar de novo aquilo que o passado já comprovou ser ineficiente.

Site Franciscanos– A Fundação vive um bom momento vocacional, fale sobre esse “celeiro vocacional” na missão.

Frei José – O atual bom momento vocacional é resultado do trabalho de todos os frades ao longo destes 25 anos. Outros fatores que também têm contribuído para tal foi o crescimento no número de escolas que possibilitam aos jovens terminar o ensino fundamental e, por vezes, o ensino médio e assim estarem aptos a entrar em um seminário ou casa de formação. No nosso caso específico, o apoio das religiosas nas regiões onde não temos presença tem sido fundamental. O material vocacional, sobretudo os subsídios impressos contribuem para que os jovens que nos procuram venham já com uma ideia geral sobre o que significa ser frade menor. A criação de uma coordenação mais centralizada da Pastoral Vocacional que ajuda na animação local também tem ajudado a promover mais visitas às famílias etc., algo muito importante na acolhida dos jovens vocacionados por aqui.

Site Franciscanos – Por que quis ser missionário?

Frei José – O desejo de ser missionário surgiu já no primeiro ano de formação, durante o aspirantado. Os primeiros frades tinham sido enviados para a missão em Angola havia pouco tempo. Os relatórios, as notícias falavam das primeiras experiências, das dificuldades e eram entusiasmantes. Então surgiu a primeira ideia de também ir para Angola.

Essa ideia foi reforçada durante o tempo de noviciado com a leitura das biografias dos frades que chegaram para a reforma da Província. Durante os momentos de meditação líamos essas biografias e era um momento onde podíamos viajar até a missão e pensar como tudo tinha sido e como tudo poderia vir a ser se tomássemos a decisão de seguir para a missão. No último ano da Teologia, conversei com o ministro provincial da época e ele disse que se eu quisesse realmente ir, que escrevesse uma carta. Em 8 de dezembro de 2000 recebi a transferência para a missão. Na verdade, quis ser missionário por acreditar que poderia aprender muito vivendo dentro de uma realidade e cultura diferentes, por acreditar que todos somos chamados a ser missionários e porque tenho claro que o carisma franciscano pode ajudar a construir uma sociedade mais justa e mais fraterna, sobretudo em um lugar onde a palavra guerra, no passado, era mais usada do que a palavra paz.

Site Franciscanos – Como se deu o seu discernimento vocacional? Por que escolheu ser franciscano?

Frei José – A descoberta da vocação religiosa como possibilidade de realização existencial se deu quando ainda era bem criança, no primeiro dia de catequese. A arquidiocese de Niterói, da qual sou originário, vivia um momento de trabalho vocacional bastante intenso, pois, na época, faltavam vocações. Havia um pequeno caderno vocacional e o catequista o usava nos primeiros encontros. Pois bem, o primeiro encontro falava sobre a vocação de Samuel, quando Deus chama Samuel pelo nome. Naquele dia senti que talvez esse poderia ser meu caminho.

Passou muito tempo e uma religiosa catequista franciscana me questionou sobre a possibilidade de ser franciscano e me levou até aos frades. No primeiro encontro com os frades tive a certeza de que queria mesmo ser franciscano. Muitos foram os que me ajudaram neste processo de descoberta. Hoje, cada vez que visto o hábito e o vejo cada vez mais velho, desgastado e surrado, lembro com carinho de todas essas pessoas e tenho clara a certeza de que foi a melhor e mais acertada decisão que já tomei na vida. Sobre por que escolhi ser franciscano poderia dizer muitas coisas, mas acho que posso resumir da seguinte maneira: nos momentos de alegria ou de dificuldade ser franciscano me realiza, me sustenta espiritualmente e me dá forças para continuar a caminhada. O modo de vida e o ideal de São Francisco, dos irmãos menores e itinerantes, me fez encontrar sentido para a caminhada.

Site Franciscanos – O que você diria para os frades e leigos que querem se tornar missionários em Angola?

Frei José – Cada um tem a sua própria medida, mas todos podemos doar um pouco de nosso tempo e de nossa vida como frades menores e como cristãos para a missão. Já tivemos irmãos que ficaram na missão durante dois anos ou até menos e fizeram muito. Até hoje as pessoas têm uma boa lembrança deles. Não importa o tempo que você pode oferecer: um ano, dois, três… a vida inteira. O que importa é ser capaz de fazer algo, sobretudo, neste momento em que a missão cresce. Esse tempo, se bem aproveitado, ajudará a consolidar nossa Fundação missionária. E depois teremos irmãos angolanos que, por si, tocarão a missão. É necessário ir sem a pretensão de que resolveremos tudo. Vamos para ajudar a regar as sementes já lançadas em terra boa e com a plena certeza de que fazer crescer é obra do próprio Deus.

Crônica de Frei Vitorio Mazzuco

Frei Vitório Mazzuco, OFM

Aterrissei em Angola no dia 6 fevereiro para uma visita curta, mas intensa; aliás, pisar aquele chão africano é viver tudo com intensidade. Ali, uma longa e lenta guerra civil destruiu, dispersou, matou, mutilou, desalojou, perseguiu um povo. Vi tanta coisa pelo chão, mas uma coisa a guerra não pôde derrubar: a beleza da raça daquele povo, sua esperança, sua Fé. Um povo luzente e carente que acredita num futuro. Vi o país como um grande hospital, onde cada detalhe vai convalescendo em seu leito de dor e sonhos desta longa agonia pós-guerra civil.

Fui ver meus confrades missionários, encontrei heróis resistentes. Eles me ensinaram o sentido da Missio… que não é apenas envio, mas é pura convivência, é o bem-estar de uma presença afetiva, espiritual, efetiva. O bem-estar de uma presença que ajuda a buscar o material mínimo para uma existência. Existe a voz do povo, mas o missionário é o eco, a ressonância, a amplificação do grito de um povo pobre. E o povo pobre não está só nas aldeias, está em Luanda e seus bairros, sua periferia plena de contradições, onde beleza e lixo convivem, onde limpeza e poeira formam uma eterna manutenção. Não podemos falar de organização, mas podemos ver ruínas do período colonial português, o trânsito insano, o comércio livre formando um camelódromo cósmico.

Meus confrades missionários me levaram para ver… e eu ali só bobo de tanto espanto, de tanto maravilhamento, de tantos detalhes de lugares onde existe ainda a alegria, o gesto lindo de responder um bom dia ou um aceno com o mágico: “Obrigado!” Há lugar para a música, para o colorido dos panos, para a multiplicidade de tribos e línguas, umbundo, kibumdo, português com acento lusitano e muita criança! Muitos jovens, mulheres e crianças! Se Luanda instala-se numa baía… o que existe ali é um mar de gente! Um oceano de crianças, o único tesouro dos pobres! Que vontade de aprender, de estudar, de ter sala da aula ou sala de explicação, de ter um diploma, de ter conhecimento. Quantas crianças! Vestidas ou nuas, mas sempre e eternamente a beleza das ruas!

frei-vitorioVi também muitos soldados armados, amados ou não, os “fazedores da guerra”, hoje desempregados ou beneficiando-se dos espólios. Vi mulheres, milhares de mulheres pelas ruas, pelas estradas, pelos becos, bosques, praças e aldeias… todas andando, andando, vendendo, batalhando a única refeição do dia de um povo que não tem comida suficiente. Aliás, a guerra fez o banquete só de alguns. Falta alimento, mas tem fartura de mutilados, vítimas das minas, das bombas, dos tanques, dos canhões, dos fuzis e suas balas. Tem os sem-pernas, tem os sem-braços, os sem-mãos e os sem nada para fazer. Tem falta de energia elétrica… mas este povo tem Luz própria! Mesmo fazendo os “gatos” para iluminar suas casas ou suas clandestinas ligações para jorrar água…, este povo não perde a energia, o sonho, a vontade…. E quando você pergunta: E a vida? A resposta é uníssona: “Está boa!”

O governo que inventou esta guerra fratricida e cruel nacionalizou os bens das Igrejas e das Missões… Muita coisa foi destruída ou ocupada; mas o verdadeiro missionário não fugiu ou mudou de lugar; ficou firme vivendo junto com um povo martirizado, que não tinha bem nenhum para ir deixando para trás. Aprendi que ser missionário é não mudar de lugar, isto é, permanecer lá onde está a subnutrição, as doenças que surgem por falta de vacinas, por falta de cuidado e higiene, por causa de remédios falsos que entram em Angola.

Ser missionário é ficar pensando dia e noite o que fazer por este povo! Mas é muito bom ver as igrejas e as escolas renascendo das ruínas, mesmo que a saúde, o ensino e a fé se arrastem… vale a pena lutar por isso! Vi meus confrades heróis levando a paz, a justiça, os direitos humanos, a não-corrupção, a presença… tudo segundo o Evangelho. Ah! Como nosso Pai Francisco está orgulhoso deles! Eles são instrumentos de paz, pois ajudam com a solidariedade a combater a miséria e não precisam de armas nas mãos. E o governo que inventou a guerra agora inventa um jeito de devolver as ruínas! A fala do Crucifixo de São Damião é concreta, é real: “Reconstrói a minha Casa!” E os meus confrades estão lá, junto com famílias missionárias de tantas congregações masculinas e femininas de todo o mundo, mostrando que a fé e as práticas que brotam dela realizam o milagre de colocar tudo novamente em pé!

Antes eu não sabia bem o que é solidariedade, agora eles me ensinaram que é uma Caridade Incansável e Criativa; que quando não se tem o que se quer, é preciso querer o que se tem e trabalhar com o mínimo necessário para não faltar nada para ninguém. A solidariedade provoca os dramas da humanidade, mas mostra, que pouco a pouco, pacientemente, pode se construir um mundo de saciedade, de equilíbrio e de fraternidade. Ser missionário franciscano lá em Angola é estar junto na Força, na Festa, na Fraternidade, na Fé e no Futuro! Tudo isso em oposição à preguiça, à estagnação, ao desânimo, à violência, à gatunagem, à imoralidade e à falta de perspectiva para o amanhã. Entendi o que é escutar o grito dos excluídos, só grita quem precisa muito mesmo; e a guerra não matou a voz daquele povo, nem sua razão de viver.

Em Luanda, Viana, Palanka, Malange e Katepa percebi que tudo é plural: as alegrias e esperanças; as tristezas e as angústias; é plural ser cristão, ser Evangelho pleno de Ternura e Libertação: “Estamos juntos!” é uma saudação nacional! Vive-se no plural de ter ou não ter… mas ali aparece nítida a convocação da Senhora Dama Pobreza: “É preciso ter tudo em comum! Estamos juntos?” Há tudo num processo de Reconstrução: desde a auto-estima das pessoas até a mínima necessidade material; fazer que a paz não traga a acomodação, e assim reconstruir o trabalho, a educação, a disciplina, a aceitação das etnias, erradicar o espírito de retaliação e vingança, o desarmamento.

É preciso reconstruir as vítimas das injustiças sociais, as famílias destroçadas pelos ataques, a juventude sem uma referência moral, a criança abandonada, o analfabetismo crescente, a falta de documentação, os aleijados, os refugiados, os deslocados, os contaminados, os que precisam de re-inserção social. É preciso alertar contra a feitiçaria, contra a proliferação de seitas oportunistas, contra a falta de respeito aos direitos humanos, e contra alguns costumes já defasados como na obituária tradição de arrumar um inocente-culpado pela morte; e através de uma pseudo-justiça popular eliminar as pessoas com envenenamento.

Andei rumo ao interior do país; saracoteei buracos, saltei feito peão-de-boiadeiro na boléia de uma Land Cruiser em estradas sem a mínima condição. Mas nada impede, nada detém a força missionária de meus confrades em dar formação humana, cristã, franciscana; em dar formação profissional e intercâmbio de bens, dons e cultura.Nada atrapalha o grande apoio aos doentes, às famílias, à juventude, aos grupos sociais marginalizados e escondidos nos fins de mundo das aldeias. Aprendi que ser missionário é ajudar concretamente na Reconstrução Nacional, o novo nome da Paz! É a cristianização da vida com o nome de saúde moral, o instaurar o Reino, a salvação!

Vi muitos umbuzeiros, os baobás, as borboletas, a mandioca, os pilões para a farinha, os tanques de guerra abandonados, as cercas , as minas, o milho, mulheres carregando tudo na cabeça: lenha, carvão, comida! É a primeira vez que vi um país carregado nas costas por mulheres! Elas trabalham muito, andam muito, lutam muito… e fiquei até envergonhado, porque aqui no meu país nós colocamos os filhos em depósito de crianças… e lá elas levam as crianças bem acomodadas nas costas. Trabalham, varrem, lavam roupa, vendem produtos da terra e das mãos, mas não largam a cria! Não largam os filhos por nada! As crianças dormem grudadas na pele da mãe enquanto elas vertem o suor da busca da sobrevivência.

Vi as casas feitas de adobe, cobertas de palha, vi rios, vi peixes, vi frutas… mas vi uma economia rastejante e bens de primeira necessidade apenas nas mãos de uns poucos oportunistas considerados vencedores da guerra. Vi a candonga, vi a zungueira, vi um povo, que apesar de tudo transpira alegria por todos os poros. Vi um país rico em petróleo e diamantes vivendo na miséria. O petróleo e o diamante hoje pagam as armas da guerra vendidas pelos EUA, pela Rússia, Cuba e África do Sul… uma dívida longa de uma guerra que desuniu e complicou a vida de um país. Vi resquícios de dois partidos: O MPLA e a UNITA, que em vez de terem criado um programa político só voltado para o bem humano… criaram um descomunal desnível social, criaram o medo e o ódio, criaram as mineradoras e as empresas que levam tudo para fora.

Mais do que dinheiro, Angola precisa de valores, consciência e razões para viver! Angola agora sabe que não resolve expulsar invasores com catanas, nem criar guerra para enriquecer os outros; Angola agora sabe que político não serve o povo, mas serve-se dele. Políticos que ensinaram a máxima: com guerra e sem Deus! A política missionária é gritar a ordem contrária: sem guerra e com Deus!

Vi a esperança e o pavor do povo na perspectiva de próximas eleições: um partido único não pode ser o único dono de uma nação. Vi um povo que sabe que palavras que não toquem a vida cotidiana não interessam. Vi a realidade de uma guerra que acabou, mas começou outra batalha: a luta pela sobrevivência, pela reorganização, pela reconstrução em todos os níveis de vida; pelo saneamento básico, e pela denúncia profética. Como pode não ter paz, não ter hospital, não ter pão, não ter emprego, não ter escola, não ter transporte, não ter segurança… e nunca faltar dinheiro para as armas? Pode Freud? Como pode uns poucos enriquecerem e mais de 10 milhões de angolanos passarem ao lado do desenvolvimento e progresso ?

Mas chegou o momento de agradecer! Eu queria muito agradecer os meus confrades pela grande entrega, pela generosa entrega, pela mais bela oferenda da vida. Agradecer por serem esta presença de Fé, Esperança e Reconciliação no meio de poeira, calor, mosquitos, paludismo, febre tifóide, violência, ódio e desrespeito pelos direitos. Agradecer porque vocês incutem valores humanos, cristãos e franciscanos, com suor e sangue… O Lotário está enterrado aí e o Valdir foi metralhado em 1998. Parabéns por acreditar num futuro de justiça e de paz; parabéns pela intensa comunhão com a Ordem, com a Província, com a Igreja Local… e esta fantástica amizade e entreajuda com todas as famílias missionárias masculinas e femininas. Que testemunho visível este da união entre as famílias missionárias!

Quero agradecer a paciência e a segurança que vocês têm em dialogar com as outras igrejas, com outras culturas e outras forças políticas;sempre em nome da Verdade, mesmo com todos os riscos que isto comporta. Que exemplo a disponibilidade de vocês para a mobilidade, para as contínuas mudanças, a atenção profunda com o povo, a situação precária que vocês viveram e vivem em muitos momentos. Como vocês conseguem unir-se ao povo na falta de médicos, de enfermeiros, de laboratórios, de medicamentos, de hospitais, de socorro rápido… como vocês se adequam à falta de luz, de água, de peças de reposição… mas não se acomodam e lutam para consertar, para funcionar geradores, tratorar as lavras, construir escolas e sanatórios!

Quero agradecer à Evangelização… o deslocamento para as aldeias longínquas, o atendimento no santuário, na paróquia, no seminário, no ambulatório, nas Clarissas, na Conferência dos Religiosos, no cuidadoso trabalho com os nossos Formandos Angolanos, o nosso amanhã nestas terras. Quero agradecer às liturgias vividas, cantadas, dançadas, coloridas, vibrantes, plenas de Deus e de Mistério. Quero agradecer a pemba, o bubú, a Senhora Negra, Coração de Mãe, a formação dos Catequistas e a escuta sábia dos Sobas. Quero agradecer a acolhida que tive aí… tenham certeza, não voltei o mesmo! Quero agradecer a atenção que vocês dão ao povo sem descriminação, o trabalho com os meninos abandonados, a padaria, as bênçãos, os sacramentos e a vontade de falar a mesma língua.

Mas chegou também o momento de pedir perdão! Perdão porque eu achava que Missões eram o que estavam nas Comunicações; porque eu tinha uma retrógada mentalidade de que não precisávamos sair daqui para fazer aí. Perdão por rezar pouco por vocês, por fazer pouco por vocês, por arrecadar pouco por vocês e pelo povo de vocês. Perdão por achar que Angola era a degola de um tal Plano de Evangelização. Perdão pelas ironias e pelo pessimismo, pelo maldito clichê de achar que todo africano é um excluído. Perdão pelos falsos conceitos e preconceitos… até de achar que eu não ia me acostumar com o fungi, aquele angu de fubá e mandioca… Eu queria pedir perdão por pensar como a burguesia acomodada do meu país… que reclama comendo o filé, mas não sabe o que é roer o osso! Vocês sabem sentar-se à mesa com um Povo! “Estamos juntos!”

Um jovem missionário em um país em reconstrução

No livro “A África nos chama”, Frei Atílio Abati lembrava que em 1995, a situação do povo era muito difícil no pós-guerra: preços altos, faltava ajuda internacional (mantimentos e remédios) e crescia a violência. “Havia grande intranquilidade por causa do grupo de soldados que, à noite, invadia as hortas para roubar. Os soldados “pediam” produtos ao povo com a arma apontada e facas encostadas no pescoço. Em toda parte existiam ainda campos minados, que volta e meia, tolhiam as vidas de inocentes”, descreve Frei Atílio. Nesse quadro, é inaugurado no dia 14 de junho de 1996, o Mosteiro das Clarissas, em Luanda, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. A fundação, que contou com 14 irmãs vindas do Mosteiro de Malange, era um desejo do Cardeal D. Alexandre de ter uma comunidade contemplativa em Luanda.

É neste cenário que Frei Samuel Ferreira de Lima, recém-ordenado presbítero, chega para ser capelão das Clarissas e trabalhar como formador no Aspirantado, inaugurado em janeiro de 1996, com a admissão dos quatro primeiros jovens angolanos vocacionados: Domingos, Nélson, Cândido e Adão. Nesta entrevista, Frei Samuel conta como foi esta primeira experiência como neo-sacerdote e missionário. Acompanhe!
Moacir Beggo

Site Franciscanos – Como foi a chegada e o início do trabalho missionário?

01Frei Samuel Ferreira de Lima – O início foi muito desafiador e exigente, pois quando viajei para Angola só sabia que seria capelão das Irmãs Clarissas. Não tinha noção de onde moraria e de como seria a nossa fraternidade. Eu estava saindo de uma fraternidade de 70 frades em Petrópolis, para uma de dois; eu e mais um em Luanda. A própria viagem de ida foi tensa já no voo, pois muitos passageiros eram soldados brasileiros que iriam participar da UNAVEM III da ONU.  Cheio de incertezas e apreensões, marinheiro de primeira viagem a caminho de uma terra desconhecida e em guerra civil, eu e uma irmã clarissa convalescente de cirurgia, frágil e deslocada de seu mundo. Dentro do avião dava para sentir no ar a apreensão de todos e, para piorar, o ar condicionado não funcionava. O calor era insuportável. Eu ficava imaginando se todo aquele calor era por que estávamos próximos do Continente Africano. Nunca havia feito uma viagem internacional. Chegando a Luanda, no dia 28 de junho de 1996, a paisagem era cinzenta, o aeroporto cheio de sucatas de aviões por todo o lado. Havia apenas um ônibus para levar os passageiros do avião até o desembarque. Já na abertura da porta do avião, uma jovem que viera ao Brasil comprar seu enxoval de casamento, recebeu a notícia de que seu noivo havia falecido. Os gritos de desespero nos deixaram estarrecidos. Perguntávamo-nos o que estaria acontecendo? Passado o primeiro susto, eu e a irmã ficamos por último para fugirmos do tumulto que se formou na entrada do ônibus. Só fomos na quinta viagem, e ao chegar no desembarque, o irmão da irmã Clarissa, que era funcionário da migração, pegou nossos passaportes e resolveu todos os trâmites. Frei Dílson A. Geremias e Frei Genildo Provin nos esperavam. Foi uma alegria vê-los. No caminho para o Mosteiro, cenas desoladoras de um país agonizante, cheio de sucatas, montanhas de lixo, esgoto a céu aberto, veículos sucateados andando sem porta, para-brisa, poucas pessoas na rua. Quanto mais próximos de nossa nova morada, mais aterradora ficava a paisagem. Finalmente chegamos ao Mosteiro do Sagrado Coração de Jesus. O sorriso contagiante das irmãs era um elixir para o nosso coração apavorado e desconcertado diante da nova realidade. Nunca em minha vida havia sentido uma mistura tão grande de sentimentos ao mesmo tempo: medo, angústia, vazio, incerteza, dúvida etc. Na minha mente vinha apenas uma frase: “Agora somos eu e Deus. Seja feita a sua Vontade!”.

Eu, recém-ordenado, nem sabia o que seria ser capelão de Clarissas. A minha primeira Missa no Mosteiro foi na Solenidade de São Pedro e São Paulo. Os cantos, as danças, a celebração, tudo foi magnífico e de uma alegria indescritível. Aos poucos, as celebrações que presidia, os momentos de oração, as aulas de espiritualidade clariana e franciscna davam um suporte interior e me enchia da alegria do Cristo, ajudando a me equilibrar diante de toda aquela situação social e conjuntural. Nosso principal trabalho era ser apoio logístico para as duas missões no interior do país, a saber: Malange e Kibala. Correr atrás de mantimentos, documentação, materiais diversos. Era um peregrinar durante o dia inteiro para tentar resolver as necessidades de nossas fraternidades no interior. Logo fui convidado a ajudar no Seminário Maior de Luanda, ministrando aulas de História da Filosofia para os seminaristas do primeiro e segundo anos. O povo do bairro que participava das missas com as Clarissas passou a me chamar para visitar os doentes. Assim fui me inserindo na realidade sofrida daqueles irmãos na fé. A alegria deles era contagiante e, mesmo diante de tantas dificuldades, o sorriso meigo confortava e animava a nossa caminhada.

Site Franciscanos – Quanto tempo você ficou lá?

Frei Samuel – Fiquei um ano em Luanda e nove anos e cinco meses em Malange, até o meu retorno ao Brasil. De Junho de 96 a dezembro de 2006.

Site Franciscanos – Por que escolheu fazer parte do grupo dos missionários?

Frei Samuel – Eu não escolhi. Fui convidado pelo Frei Johannes Bahlmann, hoje Bispo de Óbidos, PA, que era na época o Moderador da Evangelização Missionária. Ele fez o convite se eu estaria disposto a ir para a Missão em Angola.  Respondi prontamente que sim, pois sempre desejei estar junto dos que fazem a experiência concreta do leproso, como o fez nosso Seráfico Pai São Francisco.

Site Franciscanos  – Como o povo angolano recebeu os missionários?

Frei Samuel – Com muito carinho e alegria. Via o quanto fazia para, mesmo tempo pouco, nos oferecer o melhor que tinha. O cuidado, a preocupação com a nossa segurança e bem-estar. As pessoas estavam sempre atentas para nos ajudar em nossas dificuldades e preocupações. Quando cheguei a Malange, me comoveu ver as mamás dançando e cantando, fazendo uma roda em torno da gente e oferecendo os produtos da terra que elas produziram com tanto esforço e sacrifício. Eu me sentia um membro da família.

Site Franciscanos – Quais os desafios que viveram naquela época?

Frei Samuel – O principal desafio era ser, junto àquele povo sofrido e apavorado com os constantes ataques e raptos de seus filhos para serem soldados, uma presença de fé, esperança e solidariedade. Havia muita fome, carência de quase tudo: medicamentos, roupas, sapatos, livros, médicos, etc. Éramos na missão a única centelha de esperança e de apoio para o povo: celebrar a Eucaristia, ministrar os sacramentos, dar catequese e formação para os catequistas, organizar junto com a Cáritas diocesana e a PAM-ONU as cozinhas comunitárias para alimentar as crianças e idosos. Com a cooperação das Irmãs Franciscanas de São José, fazíamos o atendimento médico e, com as Irmãs Franciscanas de Missionárias de Maria, o atendimento educacional através da escolinha da missão. Também íamos às aldeias para dar o atendimento religioso, recursos básicos de sobrevivência, atendimento ambulatorial e medicamentos. Fazia-se o que era possível. De tudo um pouco. Em determinados momentos, éramos requisitados para transportar um doente ao hospital, em outro, para buscar um falecido do hospital e levá-lo para uma aldeia.

As viagens eram verdadeiras epopeias: seja ir de Malange à capital Luanda buscar mantimentos e materiais diversos para a missão, pelos riscos e constantes de ataques na estrada, seja enfrentar caminhos esburacados, com atoleiros, rios sem pontes ou pontes improvisadas com troncos para chegarmos a aldeias distantes onde ninguém havia ido.

Depois, com a intensificação do conflito, dos bombardeios à cidade, a cidade de Malange ficou cercada por sete meses, de onde só se saia em comboios escoltados. As coisas tornaram-se muito mais difíceis e desafiadoras para, em meio a todo este contexto, formar jovens angolanos que desejavam abraçar o caminho da vida religiosa franciscana, assim como construir as primeiras casas de formação. Tudo era um grande desafio e exigia de nós uma intensa vida de oração, comunhão fraterna e solidariedade com as outras congregações, ONU e Ong’s. No mútuo apoio, fortalecíamos a certeza de lutar pela paz e pelo bem de todos.

Site Franciscanos – Que Mensagem você deixaria para quem quer ser um missionário em Angola?

Frei Samuel – Primeiro e acima de tudo, ir por causa de Deus. Despojar-se de qualquer expectativa de ser “salvador da Pátria”, mas colocar-se na dinâmica do discipulado, de quem vai para aprender, para fazer penitência, para estar e ser junto do povo angolano, um homem de Deus, um servo amigo e um irmão de todos.

O carisma missionário

‘Se, pois, houver irmãos que quiserem ir para entre os sarracenos e outros infiéis, que vão com a licença de seu ministro e servo… E os irmãos que partirem poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em se absterem de rixas e disputas, submetendo-se “a todos os homens por causa do Senhor” e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor’
(Regra Não Bulada 16,3 e 6-8).

São Francisco aspirou ser missionário. Santo Antônio fez-se franciscano a partir do testemunho e do martírio de alguns frades que tinham sido enviados em missão… Portanto, a missão é uma característica fundamental do carisma franciscano.

São Francisco mesmo é quem ensina como os seus irmãos devem ser missionários (veja texto acima).
Seguindo o Cristo, que colocou sua morada no mundo, os franciscanos são chamados a viver seu carisma entre todos os homens e estarem atentos aos sinais dos tempos como instrumentos de Justiça e Paz. (RFF, 32).

Fiéis à própria vocação, os franciscanos encarnam-se em situações concretas do povo com quem vivem, descobrem nele os diversos rosotos de Cristo e nele encontram a forma adequada de vida. (RFF, 33).

A família franciscana é em si missionária (*)

Costuma-se fazer distinção entre “institutos missionários”, dedicados exclusivamente à atividade missionária, fundados para este fim, e outros institutos que – além de suas tarefas pastorais ordinárias -, assumem também certas obras ou atividades missionárias. Esse tipo de distinção, porém, parece representar uma noção muito estreita do conceito “missão”, por ser aplicável unicamente àquelas atividades que se concentram em países longínquos, na tentativa de converter seguidores de outras religiões e crenças ao cristianismo.

É verdade que um engajamento missionário entre outros povos e outras culturas continua tendo o seu valor, mesmo se os tempos e a interpretação do sentido de  “missão” já tenham mudado de conteúdo.  Convém relembrar, todavia, que justamente, para Francisco, o sentido da missão era muito mais amplo, significando o fato de dar um testemunho de vida, tanto aqui como acolá; anunciando a Palavra – também tanto por perto quanto ao longe – se assim for agradável a Deus. Resumindo: o movimento franciscano é essencialmente  missionário por natureza.

Esta nova compreensão conciliar da missão, assumida por todos os ramos da família franciscana após o Vaticano II, se reflete igualmente nos mais recentes documentos missionários. Se, a seguir, iremos citar alguns trechos representativos destes documentos, é porque fazemos questão de frisar que se trata sempre do movimento franciscano em sua totalidade. Pois,  por causa da riqueza e quantidade de documentos significativos para mulheres e homens que pertencem aos mais variados ramos da  família franciscana, não é possível citar exaustivamente todas as contribuições valiosas que existem. Vejamos apenas alguns exemplos:  “Toda a nossa fraternidade é missionária, e todo irmão compartilha esta vocação missionária” (Medellín 1971, 2).

“Toda vocação franciscana é essencialmente missionária. O projeto de vida evangélica de Francisco contém uma dimensão apostólica, ultrapassando espontaneamente todas as fronteiras, pois o Evangelho também não reconhece fronteira alguma”(Mattli 1978, 10).

Como já dissemos, antes do Vaticano II, o conceito “missão” era aplicado – numa visão estreita – unicamente à atividade além-mar. Em conseqüência, as duas realidades, a da  missão e a da província-mãe (3), ficaram totalmente separadas e eram tratadas de modo diferente. Para os missionários, havia um “estatuto das missões”, contendo regras específicas e concedendo certas isenções da vida comum ordinária. Nas Constituições dos Capuchinhos, por exemplo, válidas para todos os irmãos, falava-se de missões somente no 12º capítulo, e com poucas palavras.

Na Igreja pré-conciliar, paralelamente, a missão era um assunto reservado aos missionários individualmente e não dizia respeito à Igreja do país de origem. Neste ponto, o Concílio Vaticano 2º trouxe uma mudança significativa. Definiu que a Igreja, como um todo, é missionária por natureza (Ad Gentes 2, Lúmen Gentium 1).

Essa convicção do Concílio resultou na elaboração de um Decreto especial para as missões, afirmando a definição missionária fundamental no documento principal sobre a Constituição da Igreja (Lúmen Gentium). Daqui por diante, ninguém mais pode dizer que o assunto das missões não lhe diz respeito. Em conseqüência, os capuchinhos suprimiram até o seu Estatuto de Missões, transferindo todas as referências ao assunto para as Constituições, fazendo-as valer para todos os membros da Ordem.

(Texto do Curso do Carisma Franciscano, publicado pela FFB)