Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

São José, fiel à vontade de Deus

São José, fiel à vontade de Deus

Apresentação

 

Neste dia 19 de março, a Igreja celebra solenemente São José, esposo da Virgem Maria.  “A admiração silenciosa e o culto firmado a São José têm as suas fundamentações, que devem ser como que garimpadas em meio às alternâncias da história e das vicissitudes do povo de Deus”, diz Frei Hugo D. Baggio. E, segundo o frade, como a Abraão, dele também foi exigida uma carga de fé quando se viu diante do inexplicável mistério. “E ele suportou a prova, venceu o teste. Ficou firme na sua posição, enfrentou o futuro, e a partir daí entrou em cheio na vida de Cristo e de Maria. Exige-se uma sensibilidade muito afinada com a vontade de Deus para perceber suas ordens através de sinais. E José o fará muitas vezes, sempre no silêncio”.

É esse silencioso “sim” que aborda Leonardo Boff, autor de um belo livro sobre São José, publicado pela Editora Vozes. “Esse silêncio não é mutismo de quem não tem nada a dizer. José teria muitíssimo a dizer. Ele, sendo justo, no sentido que aclaramos acima, certamente irradiou ao seu redor mais pelo exemplo que pelas palavras. Entretanto, quando as coisas são grandes demais, simplesmente calamos”, diz o teólogo.

Frei José Ariovaldo da Silva faz uma introdução detalhada de como nasceu a devoção ao esposo de Maria no Oriente e no Ocidente até se espalhar por todos os recantos do mundo cristão. “É muito bom sermos profundamente humanos em nossa vida espiritual. Pensar e viver a vida espiritual também com o coração! E quem assim fizer, sem dúvida encontrará em São José a figura de um pai extraordinariamente bom, inspirador de confiança, animador da esperança, e, sobretudo, criador de serenidade decidida. Parece que a história da devoção a São José nos ensina isso”, diz Frei José, refletindo também liturgicamente a solenidade.

Pe. Pe. Johan Konings, SJ, também comenta a liturgia do dia: “São José aparece como o homem responsável, fiel e prudente, a quem Deus confiou seu Filho. Nós temos o costume de achar que responsabilidade só diz respeito ao que nós mesmos fazemos. Mas muito maior é a participação quando nos tomamos responsáveis por aquilo que não tem em nós a sua origem”, observa.

Na sua reflexão, Frei Almir Guimarães destaca José como aquele a quem foram confiados os mistérios da salvação: “A criança que nasce de Maria, que precisa de leite, de pão, de atenções, de cuidados será objeto das atenções de José que chamamos de Pai nutrício do Filho de Deus feito carne. José será o homem da ação de todos os dias e da ininterrupta contemplação dos adoráveis mistérios de Deus”, observa Frei Almir.

Citada pelos articulistas deste Especial, não poderíamos deixar de apresentar a bela exortação apostólica de São João Paulo II, sobre a figura e a missão de São José: Redemptoris Custos.

Encerramos o Especial com uma oração a São José e a música “Meu Bom José” de Rita Lee. Boa leitura!

São José, a santidade ao cotidiano

Desde nossa infância, sobretudo contemplando o presépio  no  tempo do Natal, aprendemos a venerar São José, esposo de Maria, pai nutrício do Filho de Deus.  Em seu ambiente, Jesus era conhecido como “filho do carpinteiro”. Karl  Rahner, grande teólogo jesuíta do século passado,  tem uma bela reflexão  sobre José.  Dela nos inspiramos para redigir este texto (L’homme  au miroir de l’année chrétienne, Mame, Paris  1966, p. 117-125).

Quando celebramos a memória dos santos temos sempre, como pano de fundo,  a realidade da comunhão dos santos. Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos. Quem morre na graça de Deus, vive junto de Deus e,   concomitantemente, perto de nós.  Os habitantes do céu, celebrando a liturgia celeste, intercedem por seus irmãos da terra. Os santos são nossos precursores e representam de maneira viva nosso futuro.  Eles veem ao nosso encontro na medida em que  nossa vida mortal vai se tingindo das cores da eternidade.

Os santos no céu conservam sua personalidade

Esses homens e essas mulheres que chegaram à bem-aventurança, à sociedade a  que já pertencemos  pela comunhão dos santos,  não são pálidas sombras. Levaram  com eles,  para a vida eterna de Deus, o que foi sua vida terrestre, o que dá a cada um deles um semblante único.  No hoje eterno, Deus continua a chamá-los por seu nome. Continuam sendo o que foram no termo de sua caminhada pessoal e singular.  Todas as vezes que celebramos a festa de um determinado santo, invocando-o como protetor e intercessor celeste, ele  representa aos nossos olhos um valor único e insubstituível com o modo original de santidade que realizou. Sentimo-nos ligados a ele porque o escolhemos  devido a um “parentesco”  especial. Pedimos sua assistência e nos comprometemos com seu jeito de ser santo.  São garantias que apresentamos para gozar de sua assistência.

Rahner faz alusão bem prática ao povo de habitantes das montanhas ao qual esse dirige o texto que, antes de ser publicado, provavelmente era homilia. “Como não ver uma afinidade entre São José, esposo da Virgem Maria e pai nutrício  de nosso Senhor e a população alpina que me escuta?  Ouso dizer que esta população  somente realizará seu destino  seguindo as pegadas daquele que escolheram como patrono celeste, o carpinteiro de Nazaré. Qual é a vocação providencial deste povo, vocação a que deve permanecer fiel? Certamente a de trabalhar nestas terras pouco férteis  com o suor da fronte, no cumprimento da palavra, praticando a fidelidade e a retidão sem desvios”. Todos os  fiéis e todos os povos cristãos  são chamados a viver a fé cristã em sua plenitude. Uma tal tarefa nunca está completa. Podemos, isto sim, atingi-la atravessando muitas portas e percorrendo variegados caminhos. Não temos como nosso o grande portal das comemorações ruidosas e entusiasmadas. A humilde porta da fidelidade silenciosa, o cumprimento modesto e exato do dever haverão de nos abrir os horizontes incomensuráveis do mundo de Deus.

A santidade terrena de São José

As Escrituras pouco nos falam de São José, o necessário, porém, para que nos inteiremos do essencial. Não se conservou uma só palavra do santo. Falou tão pouco que se chegou a pensar desnecessário transmitir  o que ele tinha proferido. Sabemos que era originário da ilustre raça do rei Davi  que domina toda a história nacional de seu povo. Essas origens tão grandiosas  colocaram em realce o caráter modesto e pouco brilhante do santo: a vida  dura de um carpinteiro num “buraco” perdido no mapa do mundo… e seus impostos e sua administração. Chegou ele até a experimentar a sorte de pessoas que devem fugir de sua terra e, com dificuldade, buscar abrigo no exterior. Deve ter intensamente amado sua terra já que  não quis se fixar nos arredores  da capital, preferindo a vida no interior.  Depois disso apenas a vida  obscura, desapercebida, na aldeia de Nazaré.  A vida de família, eis um pano de fundo bem pouco  solene  para a entrada em cena de Jesus.

A vida corriqueira deste homem apagado escondia, no entanto, sob insignificantes aparências, riquezas espirituais de alto preço.

Antes de tudo o silencioso cumprimento do dever.  Por três vezes a Escritura diz que “ele se levantou”. Para fazer o quê?  Para colocar em prática  o que havia percebido em sua consciência como sendo a voz de Deus. Sua consciência estava tão desperta que durante o sono ela comunicou a mensagem do anjo por mais estranhos que lhe parecessem os caminhos que ele devia percorrer.

O outro tesouro que a Escritura nos atesta entrar presente na alma de José  é a justiça.  José era um “justo” e esta expressão designa, na linguagem da Escritura, o homem que coloca sua vida sob a luz da  palavra e da lei de Deus. Justo não somente quando a palavra acompanhava e realizava  os desejos humanos, mas em todas as circunstâncias mesmo quando custasse, mesmo quando o próximo tivesse vantagem em detrimento de seus próprios direitos. José possuía essa justiça que significa cuidado pela ordem das coisas, delicadeza e respeito para com a personalidade do outro, por mais desconcertante que esta pudesse ser.

Esta fidelidade ao dever e à justiça respeitosa diante do real, dupla característica do amor no mundo masculino, José haveria de testemunhar  com relação ao  Deus de seus pais. Era um homem piedoso e tinha uma piedade de homem, uma piedade distante de todo sentimentalismo inconstante, uma humilde fidelidade unicamente preocupada com Deus e não consigo mesmo  precisamente para, desta forma, forjar uma “alma piedosa”. “Cada ano, nos   diz o Evangelho, subia a Jerusalém, segundo o costume, para a festa da Páscoa”  (Lc 2,41-42).

Assim foi o homem e sua vida cotidiana sob o tríplice signo do dever, da justiça e da piedade viril. Somente após as considerações feitas sobre estas três riquezas é que podemos falar da maior de todas: o papel tutelar e paterno que Deus dignou lhe confiar para com aquele que é a salvação do mundo, Jesus. Acolheu em sua família quem veio resgatar o povo de seus pecados, o Santo de Deus. José teve o privilégio de lhe conferir o nome: Jesus, quer dizer, “Deus salva”. É no silêncio e na fidelidade que ele cumpre sua tarefa de servidor da Palavra eterna do Pai que se tornou uma criança desse pobre mundo. Os homens, por sua vez,  o designaram de seu Salvador, o “ filho do carpinteiro”  (Mt 13,55).  Quando a Palavra eterna do Pai, começou, através da pregação do  Evangelho, a ressoar  no meio dos  homens, José  saiu da cena deste mundo  como alguém que havia terminado de desempenhar um papel pouco importante  e que quase ninguém percebeu. A vida desse homem, no entanto, teve um conteúdo, o único que conta numa existência: Deus e sua graça que se fez carne. A José  se podia aplicar o final da parábola evangélica:  “Servo bom e fiel entra na alegria de teu Senhor”  (Mt 25,21).

Uma santidade ao alcance de todos

Não escolhemos bem como nosso padroeiro este homem cuja vida se desenrolou sob o signo da cotidianidade  banal, do dever silenciosamente realizado, da escrupulosa preocupação  de acercar-se de coisas e pessoas de acordo com sua natureza, pessoa de piedade viril? Este homem que teve a graça de zelar pelo próprio corpo da graça de Deus?

Um povo necessita de figuras de proa nas coisas do espírito e da vida pública. José foi um desses guias capazes de apontar para novos objetivos, desses homens audaciosos e pioneiros. Ora, tais lideranças deverão ser de homens e de mulheres com suas vidas orientadas para o cumprimento do dever, sob o signo da fidelidade humilde e da disciplina do corpo e do espírito, pessoas convencidas de que só se alcança a verdadeira grandeza  quando se olha para além de seu próprio horizonte e se entrega sem reserva à vocação santa que representa toda a existência, pessoas animadas de verdadeiro temor de Deus, vitoriosas sobre si mesmas, à escuta da Palavra divina, executoras  escrupulosas dos oráculos inquebrantáveis de sua consciência; pessoas que por toda a sua vida mostram abertamente a graça de Deus, desarmadas como uma criança, diante dos novos Herodes que odeiam a graça de modo especial estampada no roso da Criança; pessoas que a graça de Deus nunca desconcerta, mesmo que se precise procurá-la em vão  como foi o caso de José em sua busca angustiante da Criança divina. Tais homens deveriam existir em todas as partes. Podem existir e são terrivelmente necessários, nas mais diferentes condições e situações.

O patrocínio de São José

Este é padroeiro que admiravelmente nos convinha. E que convém a todos. Ele é o patrono dos pobres, dos trabalhadores e dos exilados, modelo da oração e santa disciplina do coração; modelo dos pais de família, porque através de seus  filhos é o Filho do Pai eterno que lhes é confiado. Os moribundos, por sua vez, podem  recorrer à sua proteção, ele que teve à sua cabeceira aquele que conheceu nossa morte e  a aceitou por nós. Nossos antepassados fizeram boa escolha quando nos colocaram sob a proteção de São José. Permanecemos dignos desta tradição que nos foi legada? Que fizemos para conservar e intensificar este parentesco?

São José está bem vivo, bem perto de nós no mistério da comunhão dos santos. Tiremos de nossa cabeça a ideia de que os santos seriam como que devorados pelo brilho  ofuscante da luz eterna  de Deus na qual penetraram, ou devorados na torrente que toma conta deles incessantemente  ganhando distância dos séculos passados. Deus não é Deus dos mortos, mas o Deus dos vivos; daqueles que longe de viverem de maneira neutra sua vida eterna conservaram da existência terrena sua substância profunda que os define para sempre e que o integraram na fonte real da vida onde ela se alimenta, isto é, a fonte dos séculos a virem. Assim devemos conceber a maneira como vive  São José. Ele é nosso padroeiro. Não experimentaremos o benefício de  sua proteção, sendo protegidos  pela graça divina, se permitirmos que nosso coração e nosso espírito venham a se abrir ao seu espírito e ao poder silencioso de sua intercessão.

José das poucas palavras

Frei Hugo D. Baggio

Garimpando no pouco

Quando nos detemos na figura de São José, no primeiro instante, pode parecer uma figura grande, importante, entrosada no plano de Deus, presente no momento augusto da história do homem, quando Deus vem estabelecer sua tenda na terra, tenda que José ajudou a fixar para que os ventos adversos não a derrubassem no primeiro instante de sua fixação. Além disso, São José mora profundamente na devoção do povo de Deus, talvez mais fortemente do que aparece na liturgia e nas fórmulas de louvor com que a Igreja celebra os seus homens ilustres, de cuja seiva se alimenta no decorrer dos séculos, e talvez mesmo além dos próprios tratados teológicos, tão parcos em comentar São José. Muitas igrejas e oratórios lhe são dedicados, muitos locais lhe ostentam o nome, inclusive o mês de março lhe é, de modo particular, consagrado. Muitas pessoas o homenageiam tomando-lhe o nome, fora de dúvida um dos mais populares. Em alguns países sua devoção é promovida de forma mais arrojada, enquanto em outros passa algo despercebida.

No entanto, quando a gente se mete a refletir sobre esta figura ou pretende escrever algo a respeito de sua passagem na história e de sua ação, caímos na realidade e que bem pouco fica recolhido que sirva como fundamento de sua presença e de sua atuação. Pouco a história guardou, como pouco os escritores sagrados dele se ocuparam. Teria ele pouco a fornecer, ou teria sido a presença marcante das duas figuras que, com ele conviveram, de tal magnitude que eclipsou o possível brilho que ele projetou? Porque, de fato, competir com Jesus e Maria é uma empresa de proporções descomunais. Sobretudo quando tanto Jesus quanto Maria, tiveram, no correr da história – e continuam tendo – momentos de particular influência, enquanto a José tal não aconteceu. Jesus, de quando em quando, na história tem seus ensinamentos revisados, seu Evangelho relido, o que aparece como uma redescoberta, como sucede em nossos dias. Com a doutrina, é claro, fica reencontrada e revivificada a figura de Cristo e sua atuação.

Maria, igualmente, teve momentos de exaltação e de ascensão na cotação do povo, fazendo com que sua figura se agigantasse e fizesse aflorar lembranças e dados históricos a ela ligados, levando, inclusive, teólogos a temerem riscos de excessos, como o registrou o Vaticano II. O que não aconteceu com São José, que pouco trabalho deu aos peritos do Concílio. Sua linha de modéstia e ocultamento foi uma constante: desde que apareceu no Evangelho até os nossos dias, pouco foi acontecendo no sentido de reforçar as fundamentações da devoção a São José, ou no sentido de acrescentar reforços aos poucos dados que a tradição havia colecionado. Tudo nele é tímido. Caiu sob a problemática da infância de Jesus, aquele espaço de tempo que a história nada registrou e que a curiosidade, desde os primeiros tempos do cristianismo, tentou preencher através de piedosas lendas, mas sempre lendas, criações movediças para historiadores que reclamam seriedade e documentação.

jose1Todavia, a admiração silenciosa e o culto firmado a São José têm as suas fundamentações, que devem ser como que garimpadas em meio às alternâncias da história e das vicissitudes do Povo de Deus. Sua grandeza aparece suficientemente embasada para que, o monumento que lhe foi erguido, no coração da cristandade, tenha solidez e apoie as conclusões a respeito dele extraídas. Talvez o silêncio que envolve sua personalidade seja exatamente o fascínio que ele exerce sobre as pessoas, sobretudo de religiosidade mais amadurecida. Há pessoas no plano de Deus que são como aquela gota, sem a qual, o copo não transborda, ou seja, a obra não fica completa. Justamente «a gota que faltava» parece algo insignificante pelo fato de ser «gota», mas verdade é que sem ela o plano não maturaria e os grandes projetos não chegariam a bom termo. A arte está em ser somente gota, sem complexos de inferioridade. É semelhante a uma equipe que elabora um minucioso projeto e o leva a bom termo, mas precisa de alguém para acionar o mecanismo, para que o voo fantástico atinja os espaços. É o caso de São José, que, «passa pelo Evangelho sem pronunciar uma única palavra e é forte neste silêncio, silêncio feito de fé, não de temperamento; silêncio de justo, de santo» (J. Mohana).

Tentaremos, pois, nas linhas que se seguem, garimpar a vida de São José e captar o que fez, o que significou e a perene mensagem que traz aos homens de hoje, em tempos em que todas as lideranças humanas estão falhando e, por isso mesmo, se fazem necessárias presenças vigorosas que sirvam de bandeira e guia. Quando os vivos falham com sua missão de condutores, Deus nos oferece os «mortos», que, como nós, enfrentaram as borrascas e encontraram os meios de as superar, sem se deixarem afogar. Assim, plantam-se como carvalhos, em tempos de “homens-alface” …

José, o esposo de Maria

Mateus (1,16), na genealogia de Cristo, diz: «Jacó gerou JOSÉ, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo». E Lucas (3,23) escreve: «Jesus, ao iniciar seu ministério, tinha cerca de trinta anos, sendo filho, como se suponha, de José, filho de Heli». E antes Lucas dissera (1,26): «Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré a uma virgem que era NOIVA dum homem da casa de Davi chamado JOSÉ, e o nome da virgem era Maria». Realidade extraordinária, na vida de José, foi seu CASAMENTO com Maria, pois, foi esta a ponte que o transportou para dentro do mistério salvífico de Deus, determinando-lhe o lugar específico que ocuparia dentro do plano de Deus.

Quando nos detemos neste episódio, encontramos uma série de dificuldades para explicitá-lo. Temos diante dos olhos o quadro de Leonardo da Vinci: os esponsais da Virgem, onde um sacerdote abençoa o jovem par, enquanto outros jovens, com cara de decepcionados, quebram varas, pois apenas a de José florira, numa espécie de teste que havia sido proposto para ver quem mereceria a mão da encantadora donzela, dentro dos padrões culturais do tempo, quando a jovem, aos treze anos, e, o jovem por volta dos catorze, tornavam-se aptos para o matrimônio e este era procurado e acertado pelos pais. Quanto a José as opiniões divergem; pois, para uns, ele era jovem; para outros, um senhor já maduro; e, para alguns ainda, até seria um viúvo, como aparece nos Evangelhos apócrifos e mesmo em escritores orientais. Daí, deduzem alguns, os «irmãos> de Jesus seriam filhos do primeiro matrimônio de José (cf. Carlos Cecchelli, Mater Christi, Roma 1948). No ocidente, São Jerônimo derrubou esta hipótese com a afirmação da virgindade perpétua de José que acabou sendo a doutrina da Igreja.

Era ele da mesma estirpe de Maria, na linha de descendência da família real de Davi, sem significar que, na oportunidade, este parentesco lhe desse algum destaque na sociedade, pois a casa de Davi perdera, lentamente, os privilégios e as mordomias que lhe advinham da ilustre ascendência. Nos costumes vigentes na época, entre o «noivado» e o «casamento» permeavam até alguns anos, pois os esponsais judeus compreendiam como duas etapas: o desposório ou noivado e o casamento ou matrimônio. Os primeiros realizavam-se na casa da noiva, mediante uma cerimônia em que o noivo entregava à noiva uma moeda com as palavras: «por este sinal ficas desposada comigo). Equivalia ao nosso matrimônio, pois a noiva recebia o tratamento de esposa, e caso o noivo viesse a falecer, a noiva era tida como viúva e caso houvesse rompimento do compromisso, podia ela pedir uma taxa de compensação, tal qual a esposa. No tocante ao adultério e à fidelidade, funcionava o mesmo rigor. Via de regra, passava-se um ano para o segundo passo: o matrimônio, quando o noivo conduzia a noiva à própria casa, buscando-a na casa dos pais, como o dão a entender as parábolas de Cristo, onde festividades de uma semana selavam a união. Nada sabemos de como foram aproximados José e Maria. Nem tampouco temos dados a respeito das condições que ambos se impuseram para uma vida conjugal em comum, sob o mesmo teto, na aparente normalidade dos matrimônios de todos os tempos. Estamos no campo das conjecturas nascidas da leitura das entrelinhas do pouco que possuímos a respeito.

Em todo o caso, José aparece sempre como o ESPOSO de Maria, como em Lucas 2,5, quando fala da ida a Belém, onde foi José, «a fim de recensear-se com Maria sua ESPOSA, que se achava grávida». Para todos os efeitos também, José, na opinião pública do tempo, era o «pai» de Jesus, como o registra Lucas: «iam seus pais, todos os anos, a Jerusalém, pela festa da Páscoa» (2,41). E pouco mais adiante coloca na boca de Maria: «Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Assim, como fica claro, José percorreu todas as etapas legais do tempo para as várias fases entre a promessa e a realização oficial do matrimônio, quando os dois começaram a viver de tal modo que, ante os olhos do público, formavam uma família legal, onde São José não aparecia apenas como um esposo ou pai «faz-de-conta», para defender a honra de Maria contra os rigores da Lei e as más línguas do público, tão afiadas naquele tempo como hoje.

jose2José, pois, como esposo de Maria era o pai legal de Jesus. Daí aparece ele nas genealogias, que entre os hebreus eram formuladas na linha masculina: “A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste fato, fundamenta-se solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José, é Jesus Cristo Messias descendente de Davi” (cf. Bíblia Sagrada, Edições Theologica, Braga 1985, p. 112).

Dos relacionamentos da vida familiar, da partilha dos inícios do matrimônio, dos dolorosos momentos de ansiedade e dúvida, pouco ou nada podemos pescar das fontes apenas entregar-nos a divagações e deduções que, sem dúvida, são válidas para captar algo deste mistério, para idealizar a história de um par que Deus, num determinado momento, atraiu para o centro de seu plano. Os dois, na fé, deram seu SIM e com ele se envolveram numa história luminosa e sangrenta, de cujos benefícios ainda hoje nós colhemos os frutos.

Por isso, o casamento de José é uma fusão da ternura com a fé desafiada e levada à maturidade, fé que o fazia enxergar nas sombras da realidade de envolvente a vontade de Deus, por vezes, dura e escorregadia, lenta em revelar-se, dolorosa quando clara. Esta fé fê-lo o esposo que devia confiar contra todas as evidências, que devia contentar-se com um «sonho» e a voz de um «anjo» como respostas às suas angústias e interrogações, que devia acreditar que o que lhe era pedido fazia parte de um plano total, cuja maturação estava um pouco mais adiante, seguindo uma linha de agir de Deus, que vinha desde seu ancestral Abraão. que devia ver à distância… O fato de haver na vida de José um forte apelo à fé não apaga a realidade da ternura e do carinho. Tenho a impressão de que certas opiniões relativas à sexualidade humana, ou algo contrárias até a esta sexualidade, que vigoraram na Igreja, levaram a considerar este casamento um tanto estranhamente. Qualquer troca de carinho que se tentasse insinuar neste casal apareceria, no mínimo, desrespeitosa e, sem dúvida, ainda hoje levantaria gritas de certos teólogos e algumas autoridades eclesiásticas, de maneira que o casal de Nazaré dificilmente poderá ser apresentado como exemplo aos demais casais, sobretudo para os casais de hoje que buscam relacionamento maduro e sadio, dentro de um matrimônio que é obra de Deus e, portanto, querido por ele. Em alguns momentos a legislação sobre o matrimônio parece torná-lo instituição humana, à mercê das interpretações “legalistas”. O esforço de defender a virgindade de Maria parece que transformou São José num «bom velhinho» que tomou sob sua proteção uma indefesa donzela, chamada para importante missão. Daí, até tentativas de fazer de José também um «concebido sem pecado»…

Está intimamente ligado à função de esposo, o episódio que Mateus narra, em 1,18: “Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. José seu ESPOSO, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente”. Breve trecho que, na sua parcimônia, oculta todo o drama que se apoderou de alguém que agia dentro da justiça de Deus, isto é, que queria ser justo. O hábito de ouvir este trecho já nem nos impressiona mais e nos faz ver e aceitar, como natural, a dramaticidade destas linhas. Aliás, tudo quanto se refere à hagiografia aparece-nos sob o filtro do imaginário popular e, assim, os acontecimentos ficam sendo para o «santo» algo de natural, de simples, de carismático e, consequentemente, não lhe abalam as estruturas, nem o machucam ou fazem sofrer. Coloca-se muito de «mágico» na vida dos santos. Mas é mera ilusão fabricada por um imaginário que teme o sofrimento e distorce os fatos e deforma o mundo do além. Quando os santos, inclusive São José, sofriam as consequências da natureza humana e debatiam-se em dúvidas angustiosas que eles não podiam mitigar pelo fato de pertencerem ao grupo dos chamados de Deus, porque Deus não trata com mais delicadeza os seus escolhidos, como o sabemos muito bem dos ensinamentos da Sagrada Escritura e da vida de alguns santos.

jose3Nossa maneira «piedosa» de considerar Maria recusa-se a aceitar que José tivesse dúvidas a respeito de sua honestidade, quando o dilema crucial dele, foi exatamente a dúvida: como teria ela engravidado!? Embora conhecesse ele muito pouco dos mistérios da biologia e da concepção, sabia, no entanto, o bastante para deduzir que tal fenômeno é colaboração de homem e mulher. E não lhe ocorreria, sem mais nem menos, vislumbrar, aqui, o dedo de Deus. José era “justo” o que em linguagem hebraica, significava piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade de Deus, e mesmo bom e caritativo com o próximo. Por isso, não passariam por sua cabeça pensamentos de desconfiança. Considerava Maria fora de qualquer suspeita, correta e santa, igualmente, como ele, «justa». Estava, porém, frente a uma realidade inexplicável. Sendo temente à Lei de Deus, sentia-se chamado a repudiá-la. Não conseguindo catalogá-la entre os infames, resolveu-se por uma saída que não prejudicasse o bom nome da esposa: abandoná-la secretamente. Para todos os efeitos passaria ele por um irresponsável que, às vésperas do nascimento do primogênito, deixa tudo e se mete mundo afora. Melhor assim que levar a esposa às barras dos tribunais, que não conheciam apelação, quando se tratava de uma mulher, e cuja sentença, na certa, seria o apedrejamento. Arcaria ele com a carga de infame…

É, nesta hora, que Deus entra em cena, continua o evangelista: “Andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor que lhe disse: ‘José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo’… E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa …” Sem dúvida, no momento da crise, Deus interveio, mas de um modo igualmente, exigente: através de um sonho, vale dizer através de um «sinal». Ora, sinal ou sacramento é um tipo de linguagem que contém em si mesmo algo de misterioso, algo de incompreensível à primeira vista, que reclama uma interpretação, ponderação e adesão da vontade. Bem podemos imaginar a carga de fé que foi exigida àquele homem. E ele suportou a prova, venceu o teste. Ficou firme na sua posição, enfrentou o futuro, e a partir daí entrou em cheio na vida de Cristo e de Maria.

Exige-se uma sensibilidade muito afinada com a vontade de Deus para perceber suas ordens através de sinais. E José o fará muitas vezes, sempre no silêncio. Não no silêncio passivo de quem se dobra ao sinal sem coragem para reagir ou retrucar. Temperamentos há que recusam manifestar-se frente a qualquer situação, seja por comodismo, seja por medo, seja por incapacidade. Mas o de José é o silêncio da fé: viu com os olhos da alma. Percebeu e captou a mensagem. A manifestação que recebeu de fora, foi como que a maturação de algo que se elaborara em seu interior. É a intuição daquilo que a palavra não verbaliza, mas que se transforma como que na tranquila posse da verdade, o suficiente para eliminar os fantasmas da dúvida roedora e serenar as plagas profundas da alma humana. Tais momentos são como que a repetição da chamada de Deus, uma segunda incumbência, um reflorescer da vocação.

Estes momentos atravessados por José demonstram a riqueza da vivência escondida no seu matrimônio. Ele é mais que o encontro de um homem e de uma mulher, na tentativa de juntos trilharem os caminhos da história. É uma comunhão profunda que envolve o homem em todos os seus mecanismos psicológicos e não lhe permite ser mero espectador, mas o atrai para o meio da luta, exigindo tomadas de posição que cansam, desgastam, mas levam ao entendimento do mistério, onde cada um é um, mas mais do que nunca um-para-o-outro. Da postura de José emanariam considerações preciosas para os casais de nossos dias, que transformam as dúvidas e as angústias em ferramentas de guerra e fazem da família um campo de batalha …

José o operário

Quando Jesus visitou sua terra Natal, conforme Mateus (13,53), seus conterrâneos pasmaram de sua sabedoria e se perguntavam: «Não é ele o filho do carpinteiro?» Diziam «do» carpinteiro, indicando que José exercia esta profissão e que pessoalmente era ele conhecido, como tal, daí a presença do artigo «o». E atestavam, além disso, que filho de carpinteiro não era pessoa de cursar universidades e adquirir ciências. Tal, como hoje .. É o único lugar, nos Evangelhos, em que se menciona a profissão de José. Em Marcos (6,3), o próprio Jesus é chamado de carpinteiro. Como Nazaré era uma aldeia de poucos habitantes e de pouquíssima exploração imobiliária, certamente não comportava mais que um marceneiro que, dentro das exigências locais, desempenhava um leque de funções ligadas à utilização do ferro e da madeira, tanto na ordem do mobiliário da casa, quanto na construção e acabamento a própria casa.

Nosso imaginário popular vem povoado das imagens os «santinhos» de nossa infância ou de quadros das igrejas ou familiares, mesmo nos manuais de catecismo, onde a Virgem aparece ocupada com trabalhos manuais de agulha, servida por anjinhos que lhe facilitam a tarefa, enquanto José se ocupa com plainas, machados, serrotes, martelos e madeiras, ajudado pelo Menino que cata cavacos ou modela cruzes com restos de madeira. Tudo dentro de uma atmosfera idílica, que sem dúvida prejudicou a ideia de realismo com que São José teve de enfrentar o dia a dia, na dura realidade de depender exclusivamente do próprio trabalho, sem as alternativas do milagre, ou da intervenção extraordinária de Deus. Devia, além disso, enfrentar as condições do tempo, onde o pagamento não acontecia através da moeda, mas da troca, onde os “bons” judeus haviam introduzido a barganha. Vivia na experiência do que o trabalho lhe rendia, o que o situava na faixa pobre de baixa renda.

jose4Aqui, aliás, a gente deve dar-se conta da naturalidade com que Deus age na vida do homem, mesmo quando o tenha engajado expressamente na sua obra salvífica. Não altera as realidades, no sentido de facilitar a tarefa. Assim quando decidiu que o momento da encarnação estava maduro, escolheu uma família na aparente normalidade dos moldes culturais do momento, sem «inventar» uma nova família com características diferentes. Mesmo a sustentação desta família correu por conta das circunstâncias que compunham o dia a dia de José e de sua esposa que, ao que tudo indica, pertenciam à estirpe de Davi, mas não faziam parte dos privilegiados da realeza, cujas mordomias facilitam tanto a vida e até excluem da servidão ao trabalho.

Portanto, da subordinação ao trabalho, da lei que rege o sustento da vida, nem José se eximiu, ou melhor dito: Deus não poupou o pai adotivo de seu Filho. Como não possuímos dados sobre a tarefa específica exercida por José, não dispomos igualmente de dados que nos explicitem a forma como ele desempenhou esta função. Mas tudo isso parece-me vir condensado na palavra «justo», entendido como aquele que se esforça para estar em tudo afinado com a vontade de Deus. Que procura, dentro de sua realidade cotidiana, realizar o equilíbrio difícil entre a vontade de Deus e aquilo que estamos desafiados a executar, sem lançar mão de subterfúgios ou de falsos misticismos, porque, afinal, mesmo na esfera do relacionamento com Deus corremos riscos de nos iludir ou anestesiar. E a ilusão é péssima companheira do homem que busca a perfeição. E, nesta linha, São José não foi poupado dos cansaços, dos suores, dos desânimos, e mesmo das revoltas. Viveu o trabalho no seu puro realismo, capaz de gerar alegrias, sem deixar de provocar sofrimentos.

Os santos são, por vezes, pintados pelo imaginário popular de forma algo desencarnada, mais perto do «de lá» do que do «de cá», quase neuróticos, de maneira que suas vidas pouco têm de atraente e bastante de repelente. Quando, em verdade, ser santo, por conteúdo do termo, entende-se um homem equilibrado, saudável mental e psicologicamente. Por isso, pensando em São José, imagino-o extremamente saudável e equilibrado e, consequentemente realista, que não alimentava sua fé com ilusões nem mascarava a realidade da vida com pseudo-misticismos, que não passam de fugas ingênuas. Enfrentava a vida de frente. Quanto ao trabalho, encarava-o ele como alternativa natural para construir a história que é confiada a cada homem e cada grupo humano e de alimentar a família que lhe fora entregue. Não via neste trabalho resquícios de castigo, nem achava que a situação de operário o colocava em escala inferior frente às demais profissões. Claro, que a consciência de classe daquela altura da história não se podia comparar à de hoje, como também não se podiam comparar os desvios e as manipulações a que o trabalho foi sujeito no correr da história, mormente em épocas de consumismo e capitalismo. O trabalho não apenas deve ser libertado de uma estrutura ou dos regimes que transformam o homem em escravo e escabelo, mas também deve ser libertado de concepções que o deformam e o apresentam como «carga», sejam quais forem as condições dentro das quais é ele executado. Por vezes fica a impressão de que a luta não é contra as condições adversas do trabalho, mas contra o próprio trabalho. Busca-se a libertação não das estruturas, mas da condição de “homo faber”.

Os documentos eclesiásticos designam José como «exemplar opificum» – «modelo dos operários», não visando simplesmente um sujeite passivo do trabalho, fatalisticamente preso a ele, que aguarda a solução dos sofrimentos do trabalho para os tempos escatológicos, mas como aquele que, apesar da situação histórica, tem uma visão teológica do trabalho, isto é, discerne Deus no seu trabalho, como o expôs João Paulo II, na sua Encíclica Laborem exercens.

Bem podemos imaginar São José como o homem que descobriu o mistério alimentador do trabalho, mesmo fatigante e esmagador: a razão familiar. Trabalhar para ele era arrancar do suor, das horas pesadas, da dura madeira, do ingrato labor, o pão com que alimentava sua bela esposa e o filho querido. Nada era desmesuradamente pesado, se no final de penosa jornada, podia fornecer a humilde dispensa de sua casinha, também humilde, em tudo igualzinha às demais daquele aglomerado de Nazaré, que mal merecia o nome de rua. Sem uma razão sólida que inflame o coração, a energia desprende-se das mãos e a inspiração foge da imaginação. Se o operário, ele mesmo, se coloca como razão de seu trabalho, terá pouca resistência e menor perseverança e nenhuma capacidade de enfrentar os reveses ocultos no bojo da dura missão de operário, que expressa subordinação e escassas compensações materiais. É o que me levam a pensar esses homens que, de marmita na mão, passam uma parte do dia apinhados num trem da Central e outra parte mourejando em fábricas ou ao ar livre, mal alimentados e pior remunerados: se neles não palpitasse a necessidade carinhosa de alimentar uma família, se não tivessem diante dos olhos a imagem da mulher grávida frente ao barraco e dos filhos nus e barrigudos de fome, não teriam uma sujeição que dura anos… Toda tarefa deve enraizar-se numa ideia carinhosa e tenra. Só assim o trabalho participa da ternura salvadora. Sem dúvida, fica difícil fazer aflorar o amor nesta trevosa realidade, como é difícil descobrir estrelas numa noite de tempestade. Mas tanto o amor quanto as estreIas existem sempre. E não é porque não aparecem que as estrelas e amor não existem. O importante é que existem dentro de mim.

Não precisamos, pois, fabricar artificialmente argumentos para imaginar José na fidelidade alegre de seu trabalho: ele amava. E amava profundamente com todas as veras da alma, porque possuía ternura e recebia ternura de Maria. Os dois não passavam o tempo todo discutindo temas teológicos ou lendo a Bíblia, fazendo aproximações entre o Antigo e o Novo Testamento, pois não sabiam estar no «Novo». Sabiam que Deus os amava e eles se amavam ternamente, pois, também para a durabilidade do matrimônio de José e Maria se fazia necessário o amor. Não viveram na aparência de querer-se bem. Não foram unidos pelo «milagre», mas pelo amor. E o Menino que ali estava era a fonte renovadora e inspiradora deste amor. Cada um deles devia dar a sua colaboração amorosa e compreensiva. Também para eles havia renúncias.

Um casamento como o deles corre o risco de ser encarado dentro de uma aura sobrenatural tal, que, no concreto, não passaria de um «arranjo» de Deus, para emprestar validade e salvar aparências. José e Maria seriam dois «atores» e nada mais. No entanto, eram marido e mulher, um homem e uma mulher e, embora celibatários, tinham sua sexualidade e dentro da realidade em que Deus os havia colocado deviam construir o seu matrimônio. Embora não tivessem trocas sexuais, tinham expressões de carinho alimentadoras da vida a dois. Suas renúncias tinham motivações profundas, por isso não viviam frustrados, podendo, pois, servir de exemplo tanto para os que optam pela vida em matrimônio, como para os que escolhem a vida na virgindade consagrada.

Tudo se lhes tornara generosidade. Onde há generosidade, não há revolta. Assoma a gratuidade. Com ela nasce a confiança. Encontra-se o mistério de Deus. Não é possível entender tudo. Menos ainda verbalizar tudo. Mas tudo pode ser vivenciado. José, porém, entendia o bastante para sentir a paz interior. E paz interior é paz consigo mesmo, com sua realidade existencial. Quando dizemos que José era humilde, sem ambições, que não buscava lucros nem sonhava fortunas, dizemo-lo um homem pacificado. O mesmo se afirme em relação ao trabalho. Sua atitude não deve ser confundida com uma aprovação tácita, silenciosa, da realidade obreira do tempo, afastada do plano do Criador, nem ignorância da situação vigente, como se ele pairasse em atmosfera mística superior, nem um cômodo pacto com as injustiças gritantes, por ele viver já na escatologia. De sua parte, descobrira-se operário de Deus, portanto, engajado em uma obra de proporções tais que não tinha seu término marcado para o fim do dia, da semana, da estação ou do ano, mas em uma obra que vinha do fundo dos séculos e caminhava para o futuro sem limites, cuja duração se ocultava nos arcanos do Pai. Esta

obra reclamava a colaboração humana e não raro, arrancava suor e lágrimas, vida e sangue, angústias e questionamentos. Entre as funções contidas na missão de zelar pelo Filho de Maria e de Deus, estava o trabalho que, como a função geradora de Maria, se tornava imprescindível, para que o plano maturasse em plena apoteose. No momento em que José entendeu que «o que acontecia em Maria era obra de Deus», tudo o mais ficou iluminado por esta compreensão, nascendo daí a fidelidade ao seu trabalho, mesmo no seu aspecto braçal. E captava toda a honra que tal trabalho significava. Não procurou passar por «empresário» de Deus, pois, não via nisso maior honra que «operário» de Deus.

Como conhecia determinadas técnicas para amaciar a madeira e torná-la dócil aos movimentos das ferramentas e de suas mãos, assim José encontrou profundas motivações que o faziam feliz e realizado em seu trabalho, evitando amargar a realidade com a revolta e a crítica azeda, o inconformismo e os sonhos de vidas diferentes. Tinha, pois, uma consciência correta do que significava ser «operário». Justo é o que tenta harmonizar sua vida e seu agir com o plano de Deus que intuiu na fé.

Espectador do mistério

A vida de José vem marcada pelo mistério. Desde que Deus decretara o fim da espera e optara pela realização da promessa, José esteve presente. Foi mesmo atraído para o centro do mistério, como para dentro de um turbilhão. Acabou seu sossego. A ordem do Senhor expressa no imperativo LEVANTA-TE começa a se tornar-lhe familiar, com os deslocamentos e penas que lhe são característicos. O tufão apanhou o jovem casal e o Filho e os fez experimentar as intempéries próprias a todos os viventes da faixa pobre, sem mitigação e sem considerações, lembrando sempre: não poupou seu próprio Filho.

jose5A anunciação trouxe a José noites de vigília e de sofrimento profundo, quando sua crença inabalável na honestidade da esposa media forças com uma realidade brutal que enchia os olhos e alimentava a dúvida, até que a intervenção de Deus terminou por sossegá-lo, evitando uma decisão precipitada que o teria afastado de outros lances em que Deus contava com ele. A fuga, que tantas vezes se apresenta como alternativa ao homem, tocou a José, com seu convite manso, como acontecera com Jonas ou com Elias.

Quando da visita a Isabel não nos consta tenha ele acompanhado a esposa, ainda que mais uma vez nosso imaginário popular tente ajudar, através dos artistas que pintam as duas mulheres absortas no sublime diálogo dos mistérios que elas traziam em seu seio, enquanto dois senhores, José e Zacarias, assistem silenciosamente, à distância. Terá Maria guardado silêncio como na ocasião da gravidez, ou teriam, em diálogos, trocado ideias e partilhado dos segredos das montanhas de Hebron? Ou teriam os dois vivido paralelamente as experiências sem uma partilha integrativa? Somos pela partilha mais do que pelo silêncio …

No episódio do nascimento, o próprio Evangelista colocou José tomando as providências e participando ativamente na solução dos problemas humanos criados pelas circunstâncias. Como cabeça da família cabia-lhe organizar a viagem a Belém, para o alistamento ordenado por César Augusto e ali foi colhido por mais um turbilhão de angústias com a procura da hospedagem que, seja por lotação de peregrinos, seja pela dureza dos corações, lhes foi negada, no crucial momento logo antes do parto. Apesar da bondade de Deus, sempre junto aos seus amados, bem podemos imaginar o desespero de José, que foi tomando corpo, à medida que aumentavam as negativas e diminuíam as probabilidades, ameaçando-os com um relento doloroso. Tudo para ele se tornava complicado, desde os preços proibitivos para uma noite de albergue até a aquisição das coisas mais indispensáveis. Outra vez o imaginário popular encheu nossas cabeças com luz, estrelas, anjos cantantes, ocultando toda uma realidade dolorosa onde José sentiu sua fé, mais uma vez, provada, tentando ver onde o caminho de Deus se paralelizava com o dos homens, pois para ele, naquele momento, havia milhares de perguntas fervilhando na alma, como as multidões de estrelas que brilhavam no céu. Para os pastores, os anjos ofereceram como «sinal» um Menino envolto em panos, e para José qual teria sido o sinal?

Sem dúvida, estava ele consciente de se encontrar frente ao mistério, que é o modo singular do agir de Deus. Mas estava igualmente consciente de que devia fazer gestos concretos. Não podia contentar-se em ficar em comovida contemplação frente àquele Menino, rememorando como Deus o havia feito participante daquele mistério. Cabia a ele a responsabilidade de ajudar o Menino a crescer, em todas as dimensões, pois, afinal, os laços que entre os dois haviam sido estabelecidos, como resultado do chamado de Deus, não eram simples «aparências», mas responsabilidade histórica. Deveria colocar-se todo inteiro a serviço desta missão. Podia não «ser» o pai, mas ele sentia-se, pai até as profundezas de seu ser e não simples espectador da maternidade de sua esposa. E não iriam tardar os chamados de Deus que comprovariam que Deus também pensava assim: havia dado a seu Filho um PAI terreno.

É interessante notar quanto Deus pode exigir de um homem que se deixou atrair para o centro do mistério, levando-o a caminhar à luz da fé em meio a mil acontecimentos que abalam programas e desmontam perspectivas, exigindo uma atenção constante para perceber de onde sopra o vento, obrigando a dizer «amém» ou dizer «sim», mesmo quando, ou principalmente, os motivos de Deus não aparecem claros ou até contraditórios, na repetição do pedido feito a Abraão para que sacrificasse o filho da promessa. Caminhar à luz de Deus, nestas horas, reclama um homem formado na escola de Deus, do recolhimento e da reflexão que fortalecem o interior do homem e o tornam forte frente às contradições, verdadeiras ou aparentes. Aqui, entende-se um pouco mais o silêncio de José: precisava dele para fortificar-se. Para reintegrar-se. O Evangelho diz que Maria guardava as palavras e as meditava em seu coração, identicamente deveria acontecer com José que ia recolhendo os sinais de Deus, a concreção da gratuidade de Deus, na forma de um Menino que fora entregue aos seus cuidados. E aquela espada de dor que o velho Simeão profetizara para a Mãe, como dolorosa perspectiva de horizontes sangrentos, atingiria também o coração do pai. Também no sofrimento cabia-lhe partilhar com a esposa.

Certo, terá sua caminhada cortada antes de chegar ao Calvário, não precisando ficar de pé junto à Cruz. Mas no trecho de caminhada que lhe coube como companheiro de Cristo, deu sua colaboração também no aspecto do sofrimento, numa participação sempre mais consciente e livre, sem condicionamentos ou medos do além. Também ele misturou seu sangue com o sacrifício salvífico, porque todos aqueles que são colocados em sociedade com Cristo salvador devem partilhar de seu sofrimento, sem o qual não há redenção. Deus não convida espectadores festivos ou caravanas de comícios para aplaudir. Quer homens de comunhão. Porque só existe responsabilidade na liberdade. Por isso, não podemos interpretar o silêncio de José como um oásis fornecedor de sombras e de melodias interiores apenas, mas como um laboratório onde purificava suas dúvidas, amansava suas revoltas, retemperava suas motivações e recriava sua disposição de discernir a vontade de Deus nestes «sinais» tão dispares por vezes. Assim, a vida com suas brutalidades não lhe desintegrava a vida interior, mas fazia de José um «contemplativo» no sentido mais puro e concreto do termo. Era o homem que «via» além das aparências, chegando à raiz das realidades, criando aquele espaço onde podia dialogar com Deus. Por isso, São Bernardo escreve: «O Senhor encontrou José segundo o seu coração e confiou-lhe, com plena segurança, o mais misterioso e sagrado segredo de sua sabedoria, concedendo-lhe conhecer o mistério, desconhecido a todos os princípes deste mundo».

Se aos Apóstolos Cristo dizia: «a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino», quanto mais concedeu esta ventura a José, companheiro de longos anos, mestre do entalhe, exemplo vivo de homem de Deus, participante da intimidade do lar, numa afinação maravilhosa de pai e filho. Por isso, São José é o espectador e colaborador privilegiado que vê e participa, que vibra e sofre, que vive e encarna o mistério da vida do Salvador e com o Salvador e a exemplo dele «cresce em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens» (Lc 2,52), até que amparado por Jesus e Maria faz sua passagem para a casa do Pai, para o reino do não-mistério…

Desterrado com Deus

Dentre as horas angustiosas que ensombraram a vida de São José, sem dúvida, figuram aquelas que cercavam a fuga para o Egito. Depois da visita dos Magos, «eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonhos, a José e diz-lhe: levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egito, e fica lá, até eu te avisar, porque Herodes vai procurar o Menino para o matar» (Mt 2,13). Uma ordem em todos os sentidos desafiadora e estonteante. Coloca um homem frente a um tremendo claro-escuro: afinal, o que é que Deus está querendo? Quando os problemas que haviam envolvido o nascimento do Menino pareciam terminados, eis que Deus abre novo filão de problemas. Realmente, o sossego do carpinteiro estava definitivamente comprometido.

jose6Ordem é ordem, diria um bom servo. Mateus continua: «levantou-se, tomou de noite o Menino e sua Mãe e retirou-se para o Egito» (2,14). Secamente descrito o passo, em sua casca exterior, fica, então, ao leitor a pesca dos sentimentos neste lago de águas claro-escuras, por onde se movimenta a vontade de Deus. São José é submetido a dois violentos deslocamentos: o geográfico e o psicológico. Geograficamente, afinal, o Egito não era aí nos arredores de Belém, onde a família se encontrava, nem nas fronteiras próximas de Israel. Havia todo um espaço ouriçado de riscos e perigos e ameaças, verdadeiros e imaginários, pois fora o caminho percorrido pelo povo escolhido, quando da marcha da libertação do Egito, e desta aventura pelos desertos, muita lenda foi criada, com seus monstros e gigantes, enchendo de terror a mente dos judeus. José deveria refazer, ao inverso, o caminho dos antepassados. Deveria enfrentar um povo estranho e fazer a dolorosa experiência do «estrangeiro», que José conhecia da recitação dos Salmos, num país sem o Templo, de língua estranha, de sobrevivência duvidosa.

Junto às dificuldades nascidas dos deslocamentos por aquelas estradas vinham as angústias interiores na perspectiva de dias sombrios, de penúria material, de relacionamentos dificultosos, de trabalhos mal remunerados, sem lembrar o espetro da fome e da marginalização. Deixar Nazaré, a terra natal, as poucas, mas sempre existentes garantias, significava o esvaziamento total. Deus estava exigindo até o fim a entrega do homem, sem reservar para si nem a paz interior. A limpeza da alma passa pelo abandono das coisas mais queridas.

A fuga para o Egito prefigurou, através dos tempos, a procissão dos sem-terra, dos sem-pátria, dos sem-direitos, arrastados pelos acontecimentos, pelos racismos, pelas discriminações, pelas guerras, pelas injustiças, pelo poderio ganancioso, pelos deuses sentados em tronos esmagando pequenos, ao toque de tambores, ao troar de canhões, à força de decretos expropriatórios, de conchavos de partidos todo-poderosos, de falsas alegações de segurança nacional. Fez, pois, a Sagrada Família a experiência do retirante, do exilado, do migrante, do nordestino deslocado. Nessa dura prova, teve José de manter-se firme, pois cabia a ele tomar decisões, traçar rumos, resolver problemas, arcar com as responsabilidades, rasgar escuridões, enfim, fazer as vezes do Pai mesmo dentro do túnel da dúvida.

À semelhança dos místicos, atravessou ele a «noite escura», onde a lua da fé devia espancar as trevas da dúvida, da angústia, da estupefação, do silêncio da realidade e de Deus, numa perigosa vizinhança com o desespero e a revolta. Interessante que José recebia suas mensagens sempre à noite, como que significando a noite que, por vezes, lhe envolvia a alma, quando tentava decifrar os pianos de Deus. Sem dúvida, estava ele na companhia de Jesus e de Maria. Que melhor companhia! Mesmo assim bebeu o cálice da amargura, do medo do amanhã, das horas sem eco. Falaria com a esposa dos sentimentos que lhe turbilhonavam na alma? Receberia dela a palavra tranquilizadora da confiança total no Pai? Creio que sim. Creio que a certeza de estar em tão sublime companhia deve ter derramado na alma ondas de consolação e de fortalecimento, ajudando-o a erguer-se, a caminhar, a acreditar, a amar sua missão. Como diz São João Crisóstomo: “É bem verdade que Deus, amigo dos homens, misturava trabalhos e doçuras forma de agir que emprega com todos os santos. Nem perigos, nem consolações ele no-los dá ininterruptamente, mas com uns e com outros vai entretecendo a vida dos justos. Assim fez com José”.

Pode-se, pois, embora com poucos dados, concluir que a vida de São José foi tecida por uma mistura de alegrias e consolações, de sobressaltos e tormentos profundos, levando-o a viver todo o místico ensinamento e o dinamismo dos Salmos, que como bom judeu conhecia e recitava constantemente, a exemplo de seu ancestral Davi que estivera em encruzilhadas semelhantes e experimentara o sofrimento como uma cárie que lhe ia devorando os ossos. Viveu a «proximidade física» de Deus e os percalços que o iam despojando das seguranças terrenas e limpavam os espaços interiores, que iam sendo ocupados por Deus. Talvez, não tivesse ele palavras para as expressar, mas o fato é que estava fazendo a mais bela experiência de Deus, que os séculos posteriores, a partir dos desertos até os nossos dias nas pequenas comunidade que vão nascendo, tentariam tematizar e viver…

Por fim

Peregrino andante, desterrado com Deus, companheiro de Jesus e de Maria pelos caminhos da diáspora, família de Deus sem-terra e sem-teto, alma grande que não se entregou ao desespero nem se rendeu à descrença, procissão luminosa a iluminar os horizontes do homem peregrino e desterrado, exemplo vivo do pôr-se-a-serviço e do deixar-se-arrastar pelos caminhos do século, cooperador da salvação, gota de suor e sangue a completar o cálice do Senhor, homem das longas caminhadas que, afinal, um dia, com Jesus de um lado e Maria do outro, atendeu ao último chamado de LEVANTA-TE e VEM, para entrar na glória do Pai e colocar-se como o inspirador da passagem temida, mas querida, de voar para junto daquele que preparou uma apoteose para os carpinteiros de todos os tempos que o ajudaram a CONSTRUIR O REINO SALVADOR…

Esse texto foi publicado na Revista “Grande Sinal”, da Província Franciscana da Imaculada Conceição, editada pela Editora Vozes.

O silêncio de José

Leonardo Boff

Um dos pontos impressionantes é o manto de silêncio que pesa sobre São José (23). Não sabemos praticamente nada de sua biografia. São Mateus na sua genealogia diz que seu pai era Jacó (cf Mt 1,16). São Lucas, na genealogia que constrói remontando de Jesus até Adão, diz que é Heli (cf. Lc 3,23). Em outras palavras, não sabemos exatamente qual deles é o verdadeiro pai. Não sabemos com que idade casou com Maria. Nem com que idade faleceu. Alguns acham que logo após a ida oficial de Jesus ao Templo de Jerusalém, com a idade de 12 anos, idade da maturidade de um jovem judeu. José teria cumprido sua missão de ser “o guardião do Salvador”, como o chama a Exortação apostólica sobre São José, de João Paulo II, Redemptoris Custos, e poderia, então, desaparecer da cena.

Mas essa razão é muito superficial e utilitarista. Faria de José mera peça de uma história da qual ele não seria parte, apenas um figurante secundário.

Apesar disso tudo, o silêncio que o cerca totalmente não deve ser fortuito. Não haveria aí um sentido secreto que caberia identificar? Essa nos parece ser a tarefa da reflexão teológica. Ela não quer simplesmente especular por pura curiosidade, mas descobrir, com a inteligência devota, sentidos que revelem os desígnios do Mistério. Diz a Redemptoris Custos com acerto:

O clima de silêncio que acompanha tudo o que concerne à figura de José se estende também ao seu trabalho de carpinteiro em sua casa de Nazaré. Trata-se de um silêncio que revela de maneira especial o perfil interior desta figura. Os evangelhos falam exclusivamente do que José “fez”; mas eles permitem descobrir nestas “ações”, envoltas de silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava cotidianamente em contato com o mistério, “escondido desde séculos” que “havia estabelecido morada sob seu teto” (n. 25).

Aqui há uma razão teológica plausível. Aquele que veio do silêncio foi quem, por primeiro, escutou a Palavra. Àquele que veio da obscuridade da vida cotidiana foi dado contemplar, por primeiro, a luz que ilumina cada ser humano que vem a este mundo, Jesus (cf. Jo 1,9).

Esse silêncio não é mutismo de quem não tem nada a dizer. José teria muitíssimo a dizer. Ele, sendo justo, no sentido que aclaramos acima, certamente irradiou ao seu redor mais pelo exemplo que pelas palavras. Entretanto, quando as coisas são grandes demais, simplesmente calamos.

Também não é absentismo de quem, alienado, não se dá conta do que ocorre consigo. Ele sabe de sua missão, cumpre-a fielmente e está totalmente presente quando precisa estar presente, na gravidez, no parto, na escolha do nome do bebê, na hora do batismo judeu (circuncisão), na fuga para o Egito, na definição do lugar onde morar, na introdução de Jesus na experiência espiritual de seu povo indo com ele ao Templo aos 12 anos. Aí há uma plenitude de presença que se expressa mal por palavras, porém melhor por gestos e ações.

Paul Claudel, grande escritor e homem da alta cultura francesa,  interessou-se muito pela figura de São José, especialmente por causa de seu silêncio. Numa carta a um amigo, de 24 de março de 1911, escreve: “O silêncio é o pai da Palavra. Aí em Nazaré há somente três pessoas, muito pobres, que simplesmente se amam. São aqueles que irão mudar o rosto da Terra?”.

Esse amor é vivido no mais absoluto silêncio, indiferente àquilo que era considerado importante para a crônica da época, seja em Jerusalém, seja em Roma.

Vemos três razões fundamentais que fazem o silêncio de José ser a atitude mais expressiva e adequada ao que ele é e significa para a história e para a comunidade cristã.

Em primeiro lugar, o silêncio de José é o silêncio de todo trabalhador. A fala do trabalhador são suas mãos e não sua boca. Quando trabalhamos, silenciamos, pois nos concentramos nas mãos e no objeto de nosso trabalho. O trabalho pertence à essência do humano. Pelo trabalho moldamos a nós mesmos, já que ninguém nasce pronto, mas deve completar a obra que a criação e o Criador começaram. Pelo trabalho plasmamos o mundo, transformando-o em paisagem humana, em cultura, garantindo nosso sustento. Pelo trabalho criamos um mundo que jamais emergiria sozinho pelas forças da evolução, por mais complexas e criativas que estas sejam. Sem o trabalho humano jamais teria surgido uma casa de madeira ou de pedra, jamais teria sido escrito o Livro Sagrado, jamais teríamos inventado um carro, um avião e um foguete que nos levou à Lua. O trabalho criou todos os valores no mundo. E foi feito no silêncio daquele que pensou. No silêncio das mãos que executaram o que se pensou.

O silêncio de José se insere no seio desta torrente de vida e de sentido representada pelo trabalho. Diz mais verdade quem afirma: “José foi um trabalhador, um artesão-carpinteiro”, do que aquele que simplesmente diz: “José foi o protetor do Verbo da vida”, pois ele foi protetor do Verbo da vida enquanto foi o trabalhador que, com seu trabalho, garantiu o sustento da vida da Vida encarnada em nossas vidas.

Em segundo lugar, o silêncio de José é o silêncio do Pai. O pai José representa o Pai celeste; segundo nossa compreensão, ele é a personalização do Pai eterno. O Pai, no seio da Trindade, representa o Mistério sem nome e sem palavra, o Princípio do qual tudo provém, a Fonte originária, geradora de todas as coisas. O Pai eterno é inexprimível. Sobre Ele cala-se a razão e silencia nossa boca. Ele é o silêncio de onde nascem todas as palavras. Quem fala é o Verbo. Ele é inteligência, expressão, comunicação. O silêncio do Pai se esconde dentro de cada palavra e de cada som do universo. O silêncio revela a natureza do Pai celeste. José, que é a sombra real e visível do Pai, só podia ser e viver o silêncio. Caso contrário, não seria a personificação do Pai celeste. Seu silêncio revela quem ele é: o Pai eterno presente, atuante, criando condições para que a história acontecesse assim como aconteceu. Sem José, Maria teria sido repudiada, não teria um lar, o Verbo não teria entrado numa família humana, não teria sido protegido quando nasceu em Belém e não teria sido defendido quando teve que fugir para o exílio. Todas essas ações se fazem no silêncio. O silêncio é a essência de José e a essência de quem ele representa e personifica: o Pai celeste.

Em terceiro lugar, o silêncio expressa nosso cotidiano e nossa vida interior. Grande parte de nossa vida acontece no cotidiano, no seio da família e no trabalho. Lógico, há palavras, às vezes até demais. Mas, quando queremos ouvir o outro, temos que silenciar. Quando trabalhamos, não conversamos nem discutimos. O trabalho só é bem-feito e cercado do cuidado necessário quando silenciamos e nos concentramos na obra que estamos fazendo.

Todos possuímos interioridade. Há um universo de vida, de emoções, de sonhos, de arquétipos e de visões em nosso interior. Dele nos vêm vozes e mensagens. Elas nos aconselham, nos advertem, nos inspiram. Misturada a essas vozes vem também a Voz de Deus, que nos conclama para uma vida mais sincera, mais transparente, mais aberta e mais devota. E só escutamos essa Voz e essas vozes se fizermos silêncio em nosso interior. A vida interior é a vida do silêncio eloquente e fecundo. É nesse silêncio que maduram as boas intenções, que se elaboram os sonhos que dão sentido à nossa esperança e que nascem as palavras transformadoras da realidade.

José é mestre da vida interior silenciosa. Seu silêncio testemunha outro tipo de santidade e de grandeza que não passa pela visibilidade e pela palavra. Ele é o patrono da grande maioria da humanidade que passa despercebida e anônima neste mundo, que vive no silêncio e que, não raro, é condenada a viver no silêncio iníquo, quando precisariam falar, protestar e gritar contra palavras que mentem e ações que oprimem. O silêncio de José mostra a fecundidade do

não falar, mas do fazer; do não se expressar, mas do estar no lugar certo com sua presença e ação.

Esse é o José da história, receptáculo preparado para receber em sua vida a plena presença do Pai.


 23. Sobre o tema do silêncio cf. SANABRIA, J.R. “Le mysterieux silence de Saint Joseph”. Cahiers Il de I’Oratoire Saint-Joseph. Montreal, dez. 2001, p. 9-22; no mesmo número, DOZE, A. “Marie révele Joseph”, p. 33-59; DOLORES, Sr.

“Saint Joseph et es crises de la vie”. Cahiers 6 de I’Oratoire Saint-Joseph. Montreal, jun. 1999, p. 51-68.

24. Paul Claudel, carta publicada em Paris, em 1934, na revista Positum: Propositions, vol. 2, p. 147-149.

São José, entre a devoção e a liturgia

Frei José Ariovaldo da Silva

Antes de tudo um esclarecimento. Ao falar aqui de «devoção», refiro-me ao aspecto histórico da devoção a São José, a saber, procurarei oferecer algumas informações históricas gerais sobre esta devoção, para então desembocarmos na liturgia atual da festa do santo patriarca, atendo-nos exclusivamente à missa do dia. Com isso, creio poder oferecer ao leitor (a) elementos suficientes para a reflexão e enriquecimento espiritual.

1. Devoção a São José. Informações históricas gerais

São José foi um personagem sempre conhecido dos cristãos, desde os primórdios da Igreja. Provam-no os relatos evangélicos, que falam de São José (cap. 1 e 2 de Mateus e LucasJ, e que, naturalmente, sempre foram lidos, meditados e comentados pelos seguidores do divino Mestre. No entanto, isto não significa que sempre houve uma devoção especial ou culto a São José. Não houve, principalmente na antiguidade cristã.

Só lá pelo século IV/V é que podemos perceber os primeiros indícios de uma veneração ao santo patriarca. É na piedade oriental que São José começa a ocupar um lugar de considerável relevância. Provam-no os sermões de São João Crisóstomo (+ 407), melhor ainda os sermões do diácono Santo Efrém (+ 373),  sobretudo a famosa “História de José o Carpinteiro” (apócrifo do Novo Testamento, cujas recensões mais antigas remontam ao século IV/V), que testemunham a presença de uma devoção viva a São José que chega a desabrochar em culto. Na verdade, pela documentação pode-se deduzir desta época – o que já foi feito pelos historiadores – a existência de uma festa de São José, no Oriente, com leitura litúrgica da “História de José o Carpinteiro”, e até mesmo um templo a ele dedicado.

As numerosas versões do citado apócrifo provam que o movimento de devoção e culto a São José no Oriente teve boa expansão bem cedo. Isso se liga com a psicologia do oriental, naturalmente muito espontânea, muito humana e mística, dada à contemplação e admiração cheia de ternura e afeto para com a Virgem Mãe e o Menino Jesus. Impossível, por exemplo, imaginar ou representar o Menino Jesus sem, ao mesmo tempo, perceber ao seu lado a figura profundamente humana e carinhosa do bom José, com suas dúvidas, dramas e virtudes heroicas. Assim, pode-se dizer que a “História de José o Carpinteiro” como que desdobra para um lado afetuoso e terno os relatos evangélicos da infância de Jesus, que já falam do bondoso José.

No Ocidente já não foi bem assim. Temos aí, na mesma época (século IV/V), algumas primeiras manifestações de devoção a São José. Encontramo-las, sobretudo, em São Jerônimo (+ 419) e Santo Agostinho (+ 430). Mas são ainda muito tímidas e bem mais aquém daquela devoção calorosa e terna já presente no Oriente. A razão está nas próprias tendências do gênio latino, mais discursivo, contido e reservado, menos terno, menos ligado à santa humanidade de Cristo e mais preocupado com precisão de ideias e fundamentação doutrinal.

A piedade ocidental demorou bastante para chegar a uma devoção a São José. Praticamente começou a se difundir só no século XI, sob a influência dos cruzados, que construíram em Nazaré uma basílica em honra do santo, e da Terra Santa começaram a trazer «relíquias» e notícias interessantes e curiosas sobre o lugar onde viveu a Sagrada Família. Mas é um início devocional ainda muito pálido. De culto há indícios neste período e antes (já a partir do século IX), notadamente na Itália e Inglaterra (1), mas muito pouco impregnado ainda de devoção. Como comenta J. Dusserre: «Tem-se a impressão que se trata de um tesouro mais possuído do que amado, e sem dúvida de um bem oriental ainda pouco assimilado». (2)

No século XII de repente assistimos a algo novo. Na Alemanha, com a poetisa Ava (+ 1127),  sobretudo na França com São Bernardo de Claraval (+ 1153), inaugura-se um movimento de devoção terna e apaixonada para com São José. Um movimento que praticamente ignora a existência de um culto, e tem influências do Oriente por meio dos cruzados. Está ligado a uma corrente de devoção à humanidade de Cristo, característica da espiritualidade do século XII e todo o restante da Idade Média. O Ocidente enfim compreende aquilo que no Oriente há muito tempo os cristãos já curtiam, a saber, a realidade doce e ao mesmo tempo amarga da vida humana do Salvador. São Bernardo foi sem dúvida o grande campeão da época na contemplação e admiração do lado profundamente humano do mistério de Cristo. Para ele, cada detalhe da vida de Cristo provoca afeição, sobretudo a infância e a Paixão. Ora, toda vez que medita os mistérios da manjedoura, necessariamente se defronta com a figura do bom José. E, consequentemente, toda a afeição apaixonada que prova pelo Menino Jesus alarga-se também para Maria e para José: a figura do patriarca é descrita e admirada então com encanto e doçura. Em São Bernardo e seus seguidores podemos notar que quanto mais uma pessoa se liga com terno amor ao mistério do Homem-Deus, mais compreende e se aprofunda na devoção à Virgem Santa e a São José.

O século seguinte, século XII, assiste à implantação  da corrente intelectualista, cujo expoente maior é Santo Tomás (+ 1274). Este, por exemplo, fala com bastante frequência de São José. Mas é frio, objetivo. Não se arrisca em “devaneios” místicos. Não traz nenhuma palavra que exprima devoção. Contudo, as atividades espirituais não foram absorvidas por esta corrente. A tendência mística e, consequentemente, a devoção ao santo patriarca, tiveram seus representantes, como, por exemplo, São Boaventura (+ 1274), o beato Hermann Joseph de Colônia (+ 1241), e um ofício de São José composto no mosteiro beneditino de Saint Laurent, em Liège. E não podemos esquecer também a grande influência das relíquias trazidas pelos cruzados, no crescimento da devoção a São José.

É no século XIV que se abre um período de pleno desenvolvimento da devoção a São José, sob a influência da mística franciscana. Compreende-se: Francisco de Assis como que dá continuidade e amplia aquela espiritualidade muito terna e humana de São Bernardo, o que vai ajudar a enfatizar ainda mais e tornar cada vez mais comum a veneração a São José. Na verdade, são franciscanos os mais influentes propagadores desta devoção nos séculos XIV e XV. Eis alguns: o autor das “Meditações sobre a vida de Cristo”, e também Ubertino de Casale (cujos traços se perdem depois de 1325), Bartolomeu de Pisa (+ 1401), mas sobretudo São Bernardino de Sena (+ 1444). Foram eles os grandes promotores da celebração e da liturgia do nosso santo, sendo Ubertino de Casale o doutor que, num capítulo do seu “Arbor vitae Crucifixae Jesu” (1305), deu os elementos essenciais para o que depois se chamará de a teologia de São José. (3)

Entramos assim no século XV. A esta altura, devoção e culto praticamente se juntam. São José é cada vez mais amado e buscado como intercessor, tanto em orações privadas como litúrgicas oficiais. Seus devotos são numerosos, seus apóstolos são incansáveis e de um zelo extraordinário: Jean Gerson (+ cerca 1419), Pedra d’Ailly (+ 1420) e o grande São Bernardino de Sena. E, enfim, como que para coroar a obra deste século e fechar esta fase, o papa Sixto IV (1471-1484), que pertencera à família franciscana, introduz oficialmente a festa e o culto a São José em toda a Igreja. A data da festa é 19 de março. (4)

Outros ainda, posteriormente, continuaram a obra de difusão do culto a São José. O dominicano Isidoro de lsolânis, em 1522, na sua “Summa de donis Sancti Joseph”, ressaltará o valor teológico do culto. Santo Inácio de Loyola (+ 1556), São Francisco de Sales (+ 1622) e outros vão implantando sempre mais esta devoção entre o povo cristão, tornando-a cada vez mais familiar a todos.

Em 1621, o papa Gregório XV elevou a festa de 19 de março à categoria de dia santo de guarda; em nível, portanto, de uma grande solenidade. É bom lembrar que nesta época (século XVII) foram fundadas bem umas três ordens e uma congregação religiosa feminina com o nome de São José!

O século XIX foi também particularmente fecundo na expansão da devoção josefina. Santa Teresa do Menino Jesus (+ 1897) foi a grande apóstola desta devoção. Interessante notar que neste mesmo século contamos com a fundação de pelo menos 23 congregações religiosas masculinas e femininas com o nome de São José. E foi neste século, precisamente em 1887, que o papa Pio IX declarou São José Patrono da Igreja universal, introduzindo em sua honra uma nova festa, a do Patrocínio de São José, (5) no 3º domingo depois da Páscoa, que foi depois transladada por Pio X para a quarta-feira anterior. Pio XII suprimiu a festa em 1956, introduzindo em seu lugar, mas no dia 1º de maio, Dia do Trabalho, a festa de São José Operário.(6)

A nova edição do Missal Romano de 1920 traz pela primeira vez um Prefácio próprio de São José, que foi conservado no Missal de 1970, em uso atualmente na Igreja. Convém notar também que em 1962 João XXIII mandou inserir o nome de São José no Cânon da Missa: reflexo do grande carinho da Igreja por São José, numa devoção-patrimônio de todos os cristãos.

E hoje o nome de São José está espalhado em todos os recantos do mundo cristão. Em sua honra e como devoção, José e São José dá nome a pessoas, estabelecimentos comerciais, hospitais, escolas, creches, ruas, cidades, e até pais! (São José da Costa Rica), dioceses, paróquias, igrejas, comunidades religiosas etc. E quantos trazem no peito uma medalha de São José! E quantos o invocam nas horas de aperto, principalmente na hora do aperto maior, a morte; tanto que São José é também chamado de patrono dos agonizantes. Mas ele é, sobretudo, patrono da Igreja peregrina neste mundo …

São José a partir dos textos da missa de sua festa no dia 19 de março

1) Refletindo a partir das leituras bíblicas da solenidade

A «Solenidade de São José, Esposo de Nossa Senhora», como oficialmente vem chamada a festa de 19 de março, como que concentra toda a história da salvação. Realmente, pelas leituras bíblicas do dia (2 Sm 7,4-5a.12-14c. 16;  Rm 4,13.16-18.22; Mt 1,16.18-22.24) temos resumido toda o caminho da salvação, que vai de Abraão, passando por Davi, e chegando ao Salvador prometido. E tudo tem sua íntima ligação com São José, que desempenha um importante papel num dos momentos-auge dessa história.

a) José, filho de Abraão

Abraão é chamado pai da fé e de todos os que creem em Deus. Como tal, representa o início da história da salvação. O rei Davi, por sua vez, prefigura a vinda do Messias. Ambos, Abraão e Davi, compendiam respectivamente, a promessa e a espera do Messias. E Jesus, por sua vez, é a própria concretização pessoal da bênção de Deus a Abraão e da promessa feita a Davi. E José está aí no meio! Como?

José é filho de Abraão por ser descendente mesmo de Abraão (Mt 1,1.16.20). Mas, muito mais, ele é filho de Abraão também e, sobretudo, pela sua fé e pela sua justiça (Mt 1,19.20). Em outras palavras, São José é justo não segundo a lei, mas segundo a justiça que provém da fé em Deus (Rm 4,13). Como Abraão, ele aparece perfeitamente «ajustado» (justo!) à vontade de Deus. Tão «ajustado» que a misteriosa gravidez de Maria lhe causa por um momento perplexidade: Não queria difamá-la. Mas também tão «ajustado» que continua crendo na Palavra e nas promessas de Deus: como Abraão, esperou contra toda esperança humana (Rm 4,17). E, justo como era, percebendo pela voz do anjo que tudo o que acontecia era obra de Deus, aceitou plenamente a realidade misteriosa, disposto a colaborar com ela e agir plenamente por ela: «José fez como lhe propusera o anjo do Senhor» (Mt 1,24).

A esta altura, até se poderia dizer que a fé e a disponibilidade de José são bem maiores que a fé do próprio Abraão. Este, na sua fé e total disponibilidade à vontade de Deus, esteve pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac. José, muito mais, na sua total disponibilidade interior, estava pronto a sacrificar totalmente a si mesmo: seu próprio nome, toda a sua pessoa. Na verdade, aceita a criança de Maria como filho seu, e lhe dá o nome de Jesus.

Dar o nome significa assumir a paternidade’ e todo o peso da filiação. José, portanto, reconhecendo Jesus como seu filho, transmite a ele os direitos da própria paternidade e de parentesco com o rei Davi.

b) José, filho de Davi

José é também descendente de Davi. Filho de Davi, portanto (Mt 1,20). E, como já dissemos, é pelo ato de dar o nome ao menino que José liga Jesus à sua parentela, já que a concepção se deu por obra do Espírito Santo. Em nível de concepção, Jesus, filho de Maria, é e permanece “Filho de Deus. Em nível de «adoção» realizada por José, «Filho de Davi», Jesus entra na descendência de Davi. E o que acontece? A fé e a disponibilidade de José, que assume plenamente esta criança, possibilitaram a realização histórica concreta das promessas de Deus feitas ao rei mediante o profeta Natan: «Quando chegares ao fim de teus dias e repousares com teus pais, suscitarei para te suceder um teu descendente, nascido de tuas estranhas, e confirmarei a sua realeza. Ele levantará uma casa para o meu nome e eu confirmarei para sempre o seu trono real. Eu serei para ele um pai, e ele, será meu filho» (2 Sm 7,12-14). Que maravilha! A justiça de José possibilitou ao Justo o seu indispensável lugar na história da salvação como «Filho de Davi».

c) Fé e obediência de José

Jesus, na sua vida, pouco a pouco se revelará e se mostrará como Filho de Deus, isto é, que Deus é o seu verdadeiro e único Pai. Está se cumprindo o oráculo de Natan: «Eu serei para ele um pai, e ele será meu filho» (2Sm 7,14). E mais: Jesus, o Emanuel (= Deus-conosco), é visto como o lugar da presença do Deus salvador sobre a face da terra, a «casa» de Deus entre os homens, «casa» esta que, depois, pelo mistério pascal, vai se tornar <monumento» (templo) perene e indestrutível ao qual todos têm acesso como pedras vivas (cf. 1Pd 2,4-5).

Tudo por quê? Por causa da obediência de José, que aceitou com fé e humildade colaborar, ser instrumento, na realização do projeto salvífico de Deus. Através da fé e obediência deste homem, que «fez o que lhe propusera o anjo», Deus concretiza de uma vez por todas suas promessas e sua fidelidade. Em José a fidelidade de Deus se encontrou com a fé confiante e obediente do homem. E neste encontro abrem-se as portas para o cumprimento do projeto histórico-salvífico de Deus. Enfim, cumprida a sua missão de colaborador tão admirável, a José depois não resta mais senão sair da cena, desaparecendo no silêncio e na humildade, para escondido continuar a colaborar como protetor da família de Deus peregrina por este’ mundo…

2) Refletindo a partir das orações da missa do dia

«Eis o servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a sua casa» (Lc 12,42), é a antífona de entrada na Missa do dia. Esta antífona, tirada do evangelho de Lucas, visa caracterizar a figura de São José como «servo fiel e prudente», ou, se quisermos, como servo prudente e responsável. A fidelidade e a prudência são duas virtudes de São José contempladas pela liturgia. E mais: à fidelidade e prudência deste homem santo «o Senhor confiou a sua casa». Que casa? Primeiro, como já dissemos, Jesus Cristo, visto pelo evangelho de João como tenda/templo de Deus entre os homens (Jo 1,14; 2,18-22). Depois, também Maria Santíssima, que, aliás, é vista pela espiritualidade franciscana como «palácio», «tabernáculo», «morada» do Senhor. (7) Depois, a casa do Senhor, isto é, o lugar da habitação de Deus, pelo mistério pascal, passou a ser a grande família de Deus, a Igreja (cf. 1Cor 12,12-30; Ef 2,19-22; 1Pe 2,4-6): Corpo de Cristo, edifício santo, edifício espiritual. Todos enxertados em Cristo pelo batismo, formamos o seu Corpo, o novo Templo, a nova Casa do Senhor. Ora, se Jesus de Nazaré foi com Maria confiado à fidelidade e à prudência de São José, consequentemente também a

Igreja-Corpo de Cristo está sob sua proteção por via de continuidade. Sobretudo esta Igreja peregrina, sofredora, oprimida, na América Latina, onde cerca de 70% dos cristãos são empobrecidos e perseguidos pela ganância dos ‘herodes’ dos nossos tempos.

Vimos há pouco como São José, totalmente “ajustado” (justo) à vontade de Deus, desempenhou um importante papel na história da salvação. Marcou presença atuante na vida de Jesus e de Maria. Acontece que agora, por via de continuidade, ele continua marcando tal presença na vida da Igreja, que é o novo modo de Cristo ser hoje; Corpo composto de muitos membros. Por isso confiamos nas preces de São José. Daí que a nossa oração logo no início a missa soa assim:

«Deus todo-poderoso,
pelas preces de São José,
a quem confiastes as primícias da Igreja,
concedei que ela possa levar à plenitude
os mistérios da salvação» (Oração coleta).

Em outras palavras, pedimos que as preces de São José, o servo bom e fiel que entrou na alegria do seu Senhor (cf. Antífona de Comunhão), garantam à Igreja a possibilidade de contribuir eficazmente, até à plenitude, para a libertação dos oprimidos. Se o Vaticano II chama a Igreja de sacramento da salvação (LG 1, 48, 59), isso quer dizer que, na sua atuação, na sua práxis libertadora como comunidade eclesial realmente organizada na luta em favor da

Vida, contra tudo o que é morte e leva à morte, deve aparecer o característico da Igreja: sinal de salvação, sinal e instrumento libertador de Jesus Cristo hoje. Pedimos, portanto, que, sob a proteção de São José, a Igreja seja esse sinal libertador, proteja e salve o Cristo de hoje com feições sofridas tão diversificadas (cf. Puebla 31-39). Que ela, a Igreja, possa levar à plenitude «os mistérios da salvação», isto é, que ela, sob o exemplo, apoio e proteção de São José, possa garantir no mundo a plena presença do que a Eucaristia que celebramos significa como presença do Reino de justiça e de paz. É o que, no fundo, se torna a pedir logo em seguida, ao colocarmos as oferendas sobre o altar:

«Ó Deus de bondade,
assim como São José se consagrou ao serviço
do vosso Filho, nascido da Virgem Maria,
fazei que também nós sirvamos de coração puro
aos mistérios do vosso altar»
(Oração sobre as oferendas).

Em outras palavras, pedimos confiantes na bondade de Deus (“Ó Deus de bondade”!) que, a exemplo de São José que consagrou sua vida (desapego de si!) ao serviço de Jesus, nós Igreja nos entreguemos com toda a renúncia de nós mesmos (“de coração puro”) ao serviço dos mistérios do altar, quer dizer, ao serviço do que a Eucaristia significa como presença da total doação do Amor de Deus pela libertação do homem: obediência, justiça, persistência, luta. É difícil. Não é fácil. Como não foi fácil a missão de São José. Nele se repete o drama de Abraão que teve que crer “contra toda esperança”, mas “apoiado na esperança creu” (Rm 4,13.16-18.22), e assim nos mostrou que é possível viver a vontade de Deus e colaborar para a concretização desta vontade no meio dos homens, a saber, que todos sejam salvos (Jo 6,39-40). Pois bem, movida pela esperança que é suscitada pelo exemplo de São José anunciado pelo evangelho (cf. Mt 1,19), a assembleia eclesial, reunida em liturgia, ouve feliz ressoar este hino de ação de graças e exultação:

«Na verdade” ó Pai,
Deus eterno e todo-poderoso,
é nosso dever dar-vos graças,
é nossa salvação dar-vos glória,
em todo tempo e lugar,
e, na solenidade de São José,
celebrar os vossos louvores.
Sendo ele um homem justo,
vós o destes por esposo à Virgem Mãe,
e, servo fiel e prudente,
o fizestes chefe da Vossa família,
para que guardasse como pai
o vosso Filho único,
concebido do Espírito Santo,
Jesus Cristo, Senhor nosso» (Prefácio).

Enfim, nesta festa, o nosso desejo é que, alimentados pela Eucaristia, Deus nos proteja sem cessar e, guarde em nos os seus dons (Oração depois da comunhão). Quer dizer: Alimentados por esta Eucaristia, partamos para a prática Concreta da justiça celebrada e comungada nesta ceia santa, na obediência total à vontade do Senhor, a exemplo de São José.

Conclusão

Ao final desta exposição, salientaria como conclusão os seguintes pontos:

>> É muito bom sermos profundamente humanos em nossa vida espiritual. Pensar e viver a vida espiritual também com o coração! E quem assim fizer, sem dúvida encontrará em São José a figura de um pai extraordinariamente bom, inspirador de confiança, animador da esperança, e, sobretudo, criador de serenidade decidida. Parece que a história da devoção a São José nos ensina isso.

>> Impressiona-me em São José a figura do homem justo. Como dissemos, ele é o tipo do homem totalmente «ajustado» à vontade de Deus. Por isso mesmo, é o homem do equilíbrio completo: Não o vemos «desajustado» frente às delicadas e embaraçosas situações que o surpreendem.

>> Dá gosto pensar em São José, e saber que, como viveu na sua família de Nazaré, vive também hoje na grande família que Somos nós Igreja, principalmente nossa Igreja latino-americana perseguida pelos ‘herodes’ dos tempos modernos, ricos cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, verdadeira matança de inocentes. A presença de São José nos garante: A mansidão dos humildes triunfará sobre a arrogância dos poderosos.

>> A presença escondida e serena de São José nos encoraja à persistência na luta pelo Reino da Justiça.

>> A fé e obediência de José possibilitaram a concretização histórica da salvação de Deus em Jesus Cristo. Isto significa: pela nossa fé e obediência ao modo-de-ser de Deus (Amor, Doação, Comunhão, Trindade), é possível, hoje mais do que nunca, tornar concretamente presente a Libertação que todos sonham. É possível fazer Liturgia: adorar o Pai em espírito e em verdade (cf. Jo 4,23).

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  1. São José consta em vários martirológios desta época e também em ladainhas. Inclusive existia uma capela a ele dedicada em Bolonha (cf. J. Dusserre, ‘Origines de la dévotion à Saint Joseph”, Cahiers de Joséphologie I (1953). p. 41-42).
  2. Id., vol, II (1954), p. 28.
  3. Não se pense, é claro, em monopólio absoluto dos franciscanos na difusão da devoção nesta época. Lembremo-nos, por exemplo, da beata Margarida de Médola (+1920). Ludolfo o Cartuxo (+1370) e Santa Brígida (+1373).
  4. Quanto ao porquê da data de 19 de março é dificil ter clareza. Sabemos que o Oriente se costumava celebrar a festa de São José no dia 20 de julho, como testemunham alguns calendários coptas do século VIII/IX (cf. A. Adam, “O ano litúrgico, São Paulo 1982, p. 224). O mesmo é testemunhado por Isidoro de Isolânis, no século XVI, ao comentar uma versão latina da História de “José o Carpinteiro” saída em 1340: ‘Os Católicos do Oriente costumam celebrar com grande veneração a festa de São José no dia 20 de julho. Prestam grandes honras a São José e aprontam ruidosas manifestações nesta solenidade” (cit. em J. Dusserre, ibid. I (1953). p. 40). No Ocidente, a partir do século IX/X existem vários martirológios com o nome de São José inscritos para a data de 19 de março. Certamente é consequência de uma confusão “entre o nosso santo e um São José mártir de Antioquia, cuja data de festa caía no dia 20 de março. Esta data teria ‘puxado” o nome do nosso São José para o seu lado: 19 de março, e assim ficou até hoje.
  5. Festa que os carmelitas da Itália e da França celebram desde 1680.
  6. Ao criar esta festa o papa foi levado pelo intento de enriquecer o 1º de maio, Dia do Trabalho, com a celebração de um santo operário em sentido cristão. Ela levou o título completo de “Solenidade de São José Operário. Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Confessor e Patrono dos Operários”.
  7. São Francisco de Assis, “Saudação à Mãe de Deus’ 4, Escritos de São Francisco de Assis, crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano, Petrópolis 1981, p. 165.

BIBLIOGRAFIA

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J. LÓPEZ MARTIN, El Ano litúrgico, Historia y teología de los tiempos festivos cristianos, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid 1984, p. 250-251.
J. DUSSERRE, “Les origines de la dévotion à Saint Joseph”, Cahiers de Joséphologie I (1953), p. 24-54; 169-196; II (1954), p. 5-30.
VV.AA., “Joseph, Nährvater Jesu”, Lexikon für Theologie und Kirche 5, col. 1129-1133.
H. LECLERCO, “Joseph (Saint)”, Dictionnaire d’Archéologie Chrétienne et de Liturgie, t. VII/2, col. 2656-2666.
G. MARCHESI, Il Vangelo della Misericordia. Commento biblico e teologico alle letture delle domeniche e feste, Anno C, Città Nuova Editrice, Roma 1985, p. 403-406.
V. RAFFA, Liturgia Festiva. Per l’omelia e la meditazione. Anno A, B, C, Libreria Editrice Vaticano, Città dei Vaticano 1977, p. 600-610.
J. KONNINGS, Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical. Subsídios para a Liturgia, Pregação e Catequese (Anos A, B e C), Vozes, Petrópolis 1986, p. 444-445.
M. STAROWIEYSKI (Org.), I Padri Vivi. Commenti patristici al Vangelo domenicale, solennità e feste, Città Nuova Editrice, Roma 1982, p. 104-115.

Frei José Ariovaldo da Silva é professor do Instituto Teológico Franciscano. Este texto foi publicado na Revista “Grande Sinal”, uma publicação da Editora Vozes e Província da Imaculada Conceição do Brasil

São José, esposo da Virgem Maria

 Pe. Johan Konings, SJ

A festa de São José toca cordas muito sensíveis do coração humano. Tem um aspecto de mistério, que, à primeira vista, parece ser um estar por fora, porém, no olhar da fé, revela ser um estar por dentro. O evangelho de Mt 1,18-25 ilustra isso muito bem. É construído sobre a estrutura do paradoxo que acabamos de apontar. Diante da constatação da gravidez de Maria, José reage, primeiro, conforme a lógica: sente-se por fora e, prudentemente, tira a conclusão: decide deixar Maria, em segredo, para que ela não fique exposta à perseguição. Porém, exatamente esta “justiça” no seu tratamento da questão mostra que ele está profundamente envolvido. Quando o anjo lhe explica que o fruto no útero de Maria é obra de Deus, sua justiça produz a fé, que o faz assumir este mistério como seu. Está envolvido muito mais do que a mera paternidade física poderia envolver.

Paternidade não é uma questão biológica, é uma questão de fé. Com este slogan se poderiam abordar diversos aspectos da mais candente atualidade. Filho, a gente tem não tanto gerando-o quanto assumindo-o, entregando-se a Deus como instrumento de seu projeto. Ou, em expressão popular: filhos, a gente não os faz; recebe-os. Recebe-os como um dom de Deus, na fé, e, por isso, por não serem um produto exclusivamente nosso, dedicamo-nos a eles mais ainda.

Com isso, chegamos a um segundo tema: a responsabilidade. São José aparece como o homem responsável, fiel e prudente, a quem Deus confiou seu Filho. Nós temos o costume de achar que responsabilidade só diz respeito ao que nós mesmos fazemos. Mas muito maior é a participação quando nos tomamos responsáveis por aquilo que não tem em nós a sua origem. Neste caso, comungamos com uma outra fonte. Neste caso, a responsabilidade é realmente livre e escolhida, não imposta pela natureza. É o caso de José. Por isso, Deus lhe confia sua “casa”, a plenitude da “casa de Davi” da 1ª leitura (2Sm 7,4-5ª.12-14ª.16).

Ora, este tipo de “paternidade responsável” – José comungando de um mistério que é maior do que ele – causa também surpresas. O evangelho de Jesus aos doze anos é um exemplo disso. O que é mistério, não nos pertence. O “Filho de Deus” não pertence a seus pais, mas estes pertencem a Deus. Esta realidade vale também na vida da família cristã (cf. S. Família/C). Ser transmissor de vida biológica é fácil. Ser transmissor de um presente de Deus à humanidade, como foi Jesus e como deveriam ser também nossos filhos, é difícil. Nós não temos a última palavra. Mas quem acredita acha bom isso, pois Deus é maior do que nós.

Na liturgia de hoje entra também o aspecto da fidelidade de Deus, realização de sua Promessa, no dom da vida de Jesus, desde sua concepção no seio virginal de Maria. A fidelidade de Deus encontra, em José, a fé do homem, como a encontrou já em Abraão e Davi. Fé e fidelidade têm a mesma raiz, completam-se. Não posso acreditar em quem não é fiel. Por outro lado, a fidelidade de Deus é a razão de minha fé. Por esta fé, José reconheceu o que aconteceu em Maria como realização da fidelidade de Deus e não como um desastre. A fé é o sentido que nos faz descobrir a obra da fidelidade de Deus.

UMA PESSOA JUSTA

Na festa de São José não convém deixar-nos desviar do essencial por especulações pseudocientíficas sobre sua paternidade, muito menos por conversas desrespeitosas. O que a Igreja quer celebrar é a participação de José na obra de Deus e a pessoa de José como “santo”, isto é, como pessoa que pertence a Deus.

Esse pertencer a Deus é que a Bíblia chama de “justiça”, e justiça, na Bíblia, significa, fundamentalmente, o plano de Deus, aquilo que é justo e certo por excelência. Pode até significar a justiça feita ao oprimido, sua vitória sobre o inimigo. Não é como nos nossos tribunais de justiça, onde um advogado esperto pode alegar um furo na lei ou uma lei contrária para transformar em justiça a pior falcatrua…

O ser humano é fundamentalmente justo quando insere suas ações na linha dessa justiça de Deus. É o que celebramos em São José. Diz o evangelho que “sendo justo”, José não quis despedir publicamente Maria, encontrada grávida sem seu saber, expondo-a assim à suspeição de adultério e à sanção mortal que a Lei previa para isso. Preferiu agir em segredo, sem alardear os juízos da sociedade. A justiça de José consiste em seu silêncio diante daquilo que ele desconhece, silêncio que se transforma no conhecimento do inimaginável mistério de Deus: o fruto no ventre de Maria é obra do poderoso Espírito de Deus. Daí: “Não tenhas receio de receber Maria, tua esposa” – pois ela era de direito esposa de José, ao qual, segundo os costumes de então, ela tinha sido desposada, prometida desde a infância. O cotidiano continua, Deus integra os andamentos familiares do casal de Nazaré em sua obra.

A justiça de José foi bastante diferente daquilo que a maioria dos homens em sua sociedade teriam feito. Prefigura a justiça que Jesus proclamará no Sermão da Montanha: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Não é a justiça do escrupuloso cumpridor da letra da Lei, mas do homem piedoso, observador das pegadas de Deus na vida e no mundo e disposto a trilhá-las.

Que todos os que receberam o nome de José honrem esse nome.

Pe Johan Konings, texto do “Liturgia Dominical”, editado pela Editora Vozes.

José, a quem foi confiado os mistérios da salvação

Solenidade de São José, esposo de Maria

2Sm 7,4-5.12-14.16;  Rm 4,13.16-18.22;  Mt 1,16.18-21.24

Frei Almir Guimarães

Com respeito, carinho e grande veneração nos aproximamos da figura de José, o esposo da Virgem Maria.  A esse descendente da casa de Davi foram confiados os mistérios da salvação.

>> José era da linhagem de Davi. Certamente, ele e sua família carregavam em seu bojo o santo orgulho de pertencerem a uma nação “mimada” pelo amor do Senhor fiel. Estava ele, certamente, todo impregnado das promessas feitas aos seus antepassados e esperava a vinda do desejado das colinas eternas, o Messias.

>> Num determinado momento de sua caminhada a esse José, carpinteiro, é prometida Maria como esposa. Ele vai, ingressa na instituição chamada família, na tradição de Israel, guardava as tradições religiosas do povo. Precisamente neste espaço se guardavam as promessas feitas aos pais da fé.

>> As Escrituras nos dizem que ele foi se acercando de Maria e, no começo, não entendeu o que acontecia. Estava grávida aquela que lhe fora prometida como esposa. O Senhor fez com que José compreendesse que uma missão especial lhe seria confiada e que precisava acolher a esposa que lhe fora prometida: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o povo de seus pecados”.

>> Maria, a toda bela, a transparente, aquela que desde o início de sua vida fora preservada da desordem, aquela que veio para fazer a vontade do Pai, aquela que guardava todas as coisas no fundo do coração fora convidada a acolher a vida de uma criança gerada nela à sombra do Espírito, Maria, esposa do Espirito e belíssima companheira de José. Belo o título desse homem: José, esposo da Virgem Maria.

>> A casa de Nazaré acolhe o mistério do Deus altíssimo que se torna carne. A criança que nasce de Maria, que precisa de leite, de pão, de atenções, de cuidados será objeto das atenções de José que chamamos de Pai nutrício do Filho de Deus feito carne. José será o homem da ação de todos os dias e da ininterrupta contemplação dos adoráveis mistérios de Deus.

>> Ele é o servo fiel e prudente: “Sendo ele um homem justo, vós, ó Deus, o destes por esposo à Virgem Maria, Mãe de Deus, e o fizestes chefe da vossa família para que guardasse, como Pai, o vosso Filho único concebido do Espírito Santo, Jesus Cristo, Senhor nosso” (Prefácio de São José).

Exortação Apostólica Redemptoris Custos

DO SUMO PONTÍFICE  JOÃO PAULO II
SOBRE A FIGURA E A MISSÃO DE SÃO JOSÉ NA VIDA DE CRISTO E DA IGREJA

Aos Bispos,

aos Sacerdotes e Diáconos,
aos Religiosos e Religiosas e
a todos os fiéis da Igreja católica

INTRODUÇÃO

  1. Chamado a proteger o Redentor, «José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24).

Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja, desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, (1) assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo.

No centenário da publicação da Carta Encíclica Quamquam pluries do Papa Leão XIII (2) e na esteira da plurissecular veneração para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados Irmãos e Irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos». (3) É para mim uma alegria cumprir este dever pastoral, no intuito de que cresça em todos a devoção ao Patrono da Igreja universal e o amor ao Redentor, que ele serviu de maneira exemplar.

Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de «participar» na economia da salvação. (4)Tenho para mim, efectivamente, que o facto de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Incarnação.

Foi precisamente neste mistério que José de Nazaré «participou» como nenhuma outra pessoa humana, à excepção de Maria, a Mãe do Verbo Incarnado. Ele participou em tal mistério simultaneamente com Maria, envolvido na realidade do mesmo evento salvífico, e foi depositário do mesmo amor, em virtude do qual o eterno Pai «nos predestinou a sermos adoptados como filhos, por intermédio de Jesus Cristo» (Ef 1, 5).

I

O CONTEXTO EVANGÉLICO

O matrimónio com Maria

  1. «José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21).

Nestas palavras está contido o núcleo central da verdade bíblica sobre São José; é o momento da sua existência ao qual se referem em particular os Padres da Igreja.

O evangelista São Mateus explica o significado deste momento, esboçando também a maneira como José o viveu. Todavia, para se compreender plenamente o seu conteúdo e o seu contexto, é importante ter presente a passagem paralela do Evangelho de São Lucas. Com efeito, a origem da gravidez de Maria, por «obra do Espírito Santo» – posta em relação com o versículo que diz «ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo» (Mt 1, 18) encontra uma descrição mais ampla e mais explícita naquilo que lemos em São Lucas sobre a anunciação do nascimento de Jesus: «O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David. E o nome da virgem era Maria » (Lc1, 26-27). As palavras do anjo: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1, 28) provocaram em Maria uma perturbação íntima e simultaneamente estimularam-na a reflectir. Então, o mensageiro tranquilizou a Virgem e, ao mesmo tempo, revelou-lhe o desígnio especial de Deus a seu respeito: «Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai David» (Lc 1, 30-32).

O Evangelista tinha afirmado, pouco antes, que, no momento da Anunciação, Maria estava desposada com um homem chamado José, da casa de David. A natureza destes esponsais é explicitada, indirectamente, quando Maria, depois de ter ouvido aquilo que o mensageiro dissera do nascimento do filho, pergunta: «Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?» (Lc 1, 34). E então é-lhe dada esta resposta: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a potência do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo, aquele que vai nascer será santo e há-de chamar-se Filho de Deus» (Lc 1, 35). Maria, embora fosse já «desposada» com José, permanecerá virgem, pois o menino, nela concebido desde o momento da Anunciação, era concebido por obra do Espírito Santo.

Neste ponto o texto de São Lucas coincide com o texto de São Mateus (1, 18) e serve-nos para explicar o que lemos neste último. Se, depois do desponsório com José, se verificou que Maria «tinha concebido por obra do Espírito Santo», este facto corresponde a todo o conteúdo da Anunciação e, em particular, às últimas palavras pronunciadas por Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Correspondendo ao desígnio claro de Deus, Maria, com o passar dos dias e das semanas , manifesta-se, diante das pessoas que contactava e diante de José, como estando «grávida», como mulher que deve dar à luz e que traz em si o mistério da maternidade.

  1. Nestas circunstâncias, «José, seu esposo, sendo justo e não a querendo expor à infâmia, resolveu desvincular-se dela secretamente» (Mt 1, 19). Ele não sabia como comportar-se perante a «surpreendente» maternidade de Maria. Buscava, certamente, uma resposta para essa interrogação inquietante; mas procurava, sobretudo, uma maneira airosa de sair daquela situação difícil para ele. Enquanto andava «a pensar nisto, apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”» (Mt 1, 20-21).

Existe uma estreita analogia entre a «Anunciação» do texto de São Mateus e a do texto de São Lucas. O mensageiro divino introduz José no mistério da maternidade de Maria. Aquela que, segundo a lei, é a sua «esposa», permanecendo virgem, tornou-se mãe pela virtude do Espírito Santo. E quando o Filho que Maria traz no seio vier ao mundo há-de receber o nome de Jesus. Este nome era bem conhecido entre os Israelitas; e, por vezes, era por eles posto aos filhos. Neste caso, porém, trata-se de um Filho que – segundo a promessa divina – realizará plenamente o que este nome significa: Jesus – Yehosua, que quer dizer «Deus salva».

mensageiro dirige-se a José como «esposo de Maria»; dirige-se a quem, a seu tempo, deverá pôr tal nome ao Filho que vai nascer da Virgem de Nazaré, desposada com ele. Dirige-se a José, portanto, confiando-lhe os encargos de um pai terreno em relação ao Filho de Maria.

«Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24). Ele recebeu-a com todo o mistério da sua maternidade ; recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo: demonstrou deste modo uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe pedia por meio do seu mensageiro.

II

O DEPOSITÁRIO DO MISTÉRIO DE DEUS

  1. Quando Maria, pouco tempo depois da Anunciação, se dirigiu a casa de Zacarias para visitar Isabel sua parente, ouviu, precisamente quando a saudava, as palavras pronunciadas pela mesma Isabel, «cheia do Espírito Santo» (cf. Lc 1, 41). Para além das palavras que se relacionavam com a saudação do anjo na Anunciação, Isabel disse: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que Ihe foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45). Estas palavras constituíram o pensamento-guia da Encíclica Redemptoris Mater, com a qual tive a intenção de aprofundar o ensinamento do Concílio Vaticano II, quando afirma: «A Bem-aventurada Virgem Maria avançou no caminho da fé e conservou fielmente a união com seu Filho até à Cruz», (5) «indo adiante» (6) de todos aqueles que, pela via da fé, seguem Cristo.

Ora ao iniciar-se esta peregrinação, a fé de Maria encontra-se com a fé de José. Se Isabel disse da Mãe do Redentor: «Feliz daquela que acreditou», esta bem-aventurança pode, em certo sentido, ser referida também a José, porque, de modo análogo, ele respondeu afirmativamente à Palavra de Deus, quando esta lhe foi transmitida naquele momento decisivo. A bem da verdade, José não respondeu ao «anúncio» do anjo como Maria; mas «fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa». Isto que ele fez é puríssima «obediência da fé» (cf. Rom 1, 5; 16, 26; 2 Cor 10, 5-6).

Pode dizer-se que aquilo que José fez o uniu, de uma maneira absolutamente especial, à fé de Maria: ele aceitou como verdade proveniente de Deus o que ela já tinha aceitado na Anunciação. O Concílio ensina: «A Deus que revela é devida a “obediência da fé” (…); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, prestando-lhe “o obséquio pleno da inteligência e da vontade” e dando voluntário assentimento à sua revelação». (7) A frase acabada de citar, que diz respeito à própria essência da fé, aplica-se perfeitamente a José de Nazaré.

  1. Ele tornou-se, portanto, um depositário singular do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» (cf. Ef 3, 9), como se tornara Maria, naquele momento decisivo que é chamado pelo Apóstolo «plenitude dos tempos», quando «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher… para resgatar os que se encontravam sob o jugo da lei e para que recebêssemos a adopção de filhos» (Gál 4, 4-5). «Aprouve a Deus — ensina o Concílio — na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2, 18; 2 Pdr 1, 4)». (8)

Deste mistério divino, juntamente com Maria, José é o primeiro depositário. Simultaneamente com Maria – e também em relação com Maria – ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus e que, procedendo deste modo, ele dá apoio à sua esposa na fé na Anunciação divina. Ele é igualmente quem primeiro foi posto por Deus no caminho daquela «peregrinação da fé», na qual Maria, sobretudo na altura do Calvário e do Pentecostes, irá adiante, de maneira perfeita. (9)

  1. A caminhada própria de José, a sua peregrinação da fé terminaria antes; ou seja, antes que Maria esteja de pé junto à Cruz no Gólgota e antes que Ela – tendo Cristo voltado para o seio do Pai se encontre no Cenáculo do Pentecostes, no dia da manifestação ao mundo da Igreja, nascida pelo poder do Espírito da verdade. E contudo, a caminhada da fé de José seguiu a mesma direcção, permaneceu totalmente determinada pelo mesmo mistério, de que ele, juntamente com Maria, se tinha tornado o primeiro depositário. A Incarnação e a Redenção constituem uma unidade orgânica e indissolúvel, na qual a «economia da Revelação se realiza por meio de acções e palavras, intimamente relacionadas entre si». (10) Precisamente por causa desta unidade, o Papa João XXIII, que tinha uma grande devoção para com São José, estabeleceu que no Cânone romano da Missa, memorial perpétuo da Redenção, fosse inserido o nome dele, ao lado do nome de Maria e antes do dos Apóstolos, dos Sumos Pontífices e dos Mártires. (11)

O serviço da paternidade

  1. Como se deduz dos textos evangélicos, o matrimónio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para garantir a protecção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de Maria. Por conseguinte, a paternidade de José — uma relação que o coloca o mais perto possível de Cristo, termo de toda e qualquer eleição e predestinação (cf. Rom 8, 28-29) — passa através do matrimónio com Maria, ou seja, através da família.

Os Evangelistas, embora afirmem claramente que Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo e que naquele matrimónio a virgindade foi preservada (cf. Mt 1, 18-25; Lc 1, 26-38), chamam a José esposo de Maria e a Maria esposa de José (cf. Mt 1, 16. 18-20; Lc 1, 27; 2, 5).

E também para a Igreja, se por um lado é importante professar a concepção virginal de Jesus, por outro, não é menos importante defender o matrimónio de Maria com José, porque é deste matrimónio que depende, juridicamente, a paternidade de José. Daqui se compreende a razão por que as gerações são enumeradas segundo a genealogia de José: «E porque não o deviam ser – pergunta-se Santo Agostinho – através de José? Não era porventura José o marido de Maria? (…). A Escritura afirma, por meio da autoridade angélica, que ele era o marido. Não temas, diz, receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. E é-lhe mandado que imponha o nome ao menino, se bem que não seja nascido do seu sémen. Aí se diz, ainda: Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. A Escritura sabe que Jesus não nasceu do sémen de José; e porque ele mostra preocupação quanto à origem da gravidez dela (Maria), é dito: provém do Espírito Santo. E todavia não lhe é tirada a autoridade paterna, uma vez que lhe é ordenado que seja ele a dar o nome ao menino. Por fim, também a própria Virgem Maria, bem consciente de não ter concebido Cristo da união conjugal com ele, chama-o apesar disso pai de Cristo». (12)

filho de Maria é também filho de José, em virtude do vínculo matrimonial que os une: «Por motivo daquele matrimónio fiel,ambosmereceram ser chamados pais de Cristo, não apenas a Mãe, mas também aquele que era seu pai, do mesmo modo que era cônjuge da Mãe, uma e outra coisa por meio da mente e não da carne». (13) Neste matrimónio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem: «Naqueles pais de Cristo realizaram-se todos os bens das núpcias: a prole, a fidelidade e o sacramento. Conhecemos a prole, que é o próprio Senhor Jesus; a fidelidade, porque não houve nenhum adultério; e o sacramento, porque não se deu nenhum divórcio». (14)

Analisando a natureza do matrimónio, quer Santo Agostinho, quer Santo Tomás de Aquino situam-na constantemente na «união indivisível dos ânimos», na «união dos corações» e no «consenso»; (15) elementos estes, que, naquele matrimónio, se verificaram de maneira exemplar. No momento culminante da história da salvação, quando Deus manifestou o seu amor pela humanidade, mediante o dom do Verbo, deu-se exactamente o matrimónio de Maria e José, em que se realizou com plena «liberdade» o «dom esponsal de si» acolhendo e exprimindo um tal amor. (16) «Nesta grandiosa empresa da renovação de todas as coisas em Cristo , o matrimónio, também ele renovado e purificado, torna-se uma realidade nova, um sacramento da Nova Aliança. E eis que no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal. Mas, enquanto o casal formado por Adão e Eva tinha sido a fonte do mal que inundou o mundo, o casal formado por José e Maria constitui o vértice, do qual se expande por toda a terra a santidade. O Salvador deu início à obra da salvação com esta união virginal e santa, na qual se manifesta a sua vontade omnipotente de purificar e santificar a família, que é santuário do amor humano e berço da vida». (17)

Quantos ensinamentos promanam disto, ainda hoje, para a família! Uma vez que «a essência e as funções da família se definem, em última análise, pelo amor» e que à família «é confiada a missão de guardar, revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo pela Igreja sua Esposa», (18) é na Sagrada Família, nesta originária «Igreja doméstica», (19) que todas as famílias devem espelhar-se. Nela, efectivamente, «por um misterioso desígnio divino, viveu escondido durante longos anos o Filho de Deus: ela constitui, portanto, o protótipo e o exemplo de todas as famílias cristãs». (20)

  1. São José foi chamado por Deus para servir directamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele «coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos»,(21) e é verdadeiramente «ministro da salvação». A sua paternidade expressou-se concretamente «em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Incarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a sua vocação humana para o amor famíliar na sobre-humana oblação de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias germinado na sua casa». (22)

A Liturgia, ao recordar que foram confiados «à solícita guarda de São José, na aurora dos novos tempos, os mistérios da salvação», (23) esclarece também que ele «foi constituído por Deus chefe da sua Família, para que, servo fiel e prudente, guardasse com paterna solicitude o seu Filho unigénito». (24) O Papa Leão XIII realça a sublimidade desta missão: «Ele entre todos, impõe-se pela sua sublime dignidade, dado que, por disposição divina, foi guardião e, na opinião dos homens, pai do Filho de Deus. Daí se seguia, portanto, que o Verbo de Deus fosse submisso a José, lhe obedecesse e lhe prestasse aquela honra e aquela reverência, que os filhos devem aos próprios pais». (25)

E uma vez que não se pode conceber que a uma tarefa tão sublime não correspondessem as qualidades requeridas para a desempenhar adequadamente, importa reconhecer que José teve em relação a Jesus, «por especial dom do Céu, todo aquele amor natural e toda aquela solicitude afectuosa que o coração de um pai possa experimentar». (26)

Com a autoridade paterna sobre Jesus, Deus terá comunicado também a José o amor correspondente, aquele amor que tem a sua fonte no Pai «do qual toda a paternidade, nos céus e na terra, toma o nome» (Ef 3, 15).

Nos Evangelhos acha-se claramente exposto o múnus paterno de José para com Jesus. Com efeito, a salvação, que passa através da humanidade de Jesus, realiza-se nos gestos que fazem parte do quotidiano da vida familiar, respeitando aquela «condescendência» que é inerente à economia da Incarnação. Os Evangelistas estiveram muito atentos ao facto de que na vida de Jesus nada foi deixado ao acaso; mas nela tudo se desenrolou em conformidade com um plano divinamente preestabelecido. A fórmula muitas vezes repetida: «Aconteceu assim, para que se cumprissem …», acompanhada de uma referência do acontecimento descrito a um texto do Antigo Testamento, tem o intuito de acentuar a unidade e a continuidade do projecto, que tem o seu «cumprimento» em Cristo.

Com a Incarnação, as «promessas» e as «figuras» do Antigo Testamento tornam-se «realidade»: lugares, pessoas, acontecimentos e ritos entrelaçam-se de acordo com ordens divinas bem precisas, transmitidas mediante o ministério dos anjos e recebidas por criaturas particularmente sensíveis à voz de Deus. Maria é a humilde serva do Senhor, preparada desde toda a eternidade para a missão de ser Mãe de Deus; e José é aquele que Deus escolheu para ser o «coordenador do nascimento do Senhor», (27) aquele que tem o encargo de prover ao inserimento «ordenado» do Filho de Deus no mundo, mantendo o respeito pelas disposições divinas e pelas leis humanas. Toda a chamada vida «privada» ou «oculta» de Jesus foi confiada à sua guarda.

O recenseamento

  1. Quando José foi de longada até Belém, para o recenseamento, em observância das disposições da autoridade legítima, ele desempenhou em relação ao menino a tarefa importante e significativa de inserir oficialmente o nome de «Jesus, filho de José de Nazaré» (cf. Jo 1, 45), no registo do império. Essa inscrição manifesta de modo bem claro o facto de Jesus pertencer ao género humano, homem entre os homens, cidadão deste mundo, sujeito às leis e instituições civis, mas também «Salvador do mundo». Orígenes descreveu bem o significado teológico inerente a este facto histórico, que não é nada marginal: «Dado que o primeiro recenseamento de toda a terra se verificou no tempo de César Augusto, e que entre todos os demais também José se foi registrar, juntamente com Maria sua esposa, que se encontava grávida; e dado que Jesus veio ao mundo antes de o censo ter sido feito, para quem considerar a coisa com diligente atenção parecerá que se expressa uma espécie de mistério no facto de que, na declaração de toda a terra, devesse ser recenseado também Cristo. Dessa maneira, registado juntamente com os demais, a todos podia santificar; inscrito com toda a terra no recenseamento, à terra oferecia a comunhão consigo; e, depois desta declaração, recenseava consigo todos os homens da terra no livro dos vivos, para que quantos viessem a acreditar nele, fossem depois inscritos no céu, com os Santos d’Aquele a quem pertencem a glória e o império pelos séculos dos séculos. Amén». (28)

O nascimento de Belém

  1. Como depositário do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» e que começa a realizar-se diante dos seus olhos na «plenitude dos tempos», José encontra-se juntamente com Maria na noite de Belém, qual testemunha privilegiada da vinda do Filho de Deus ao mundo. São Lucas exprime-se assim: «Enquanto eles ali (em Belém) se encontravam, completaram-se para ela os dias da gestação. E deu à luz o seu filho primogénito, que envolveu em faixas e recostou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7).

José foi testemunha ocular deste nascimento, que se verificou em condições humanamente humilhantes, primeiro anúncio daquele «despojamento», no qual Cristo consentiu livremente, para a remissão dos pecados. Na mesma ocasião, José foi testemunha da adoração dos pastores, que acorreram ao lugar onde Jesus nascera, depois de um anjo lhes ter levado esta grande e jubilosa notícia (cf. Lc 2, 15-16); mais tarde, foi testemunha também da homenagem dos Magos, vindos do Oriente (cf. Mt 2, 11).

A circuncisão

  1. Sendo a circuncisão de um filho o primeiro dever religioso do pai, José, com esta cerimónia (cf. Lc 2, 21), exercitou um seu direito e dever em relação a Jesus.

O princípio segundo o qual todos os ritos do Antigo Testamento são como que a sombra da realidade (cf. Hebr 9, 9 s.; 10, 1), explica o motivo por que Jesus os aceita. Como sucedeu com os outros ritos, também o da circuncisão teve em Jesus o seu «cumprimento». A Aliança de Deus com Abraão, de que a circuncisão era sinal (cf. Gén 17, 13), obteve em Jesus o seu pleno efeito e a sua cabal realização, sendo Jesus o «sim» de todas as antigas promessas (cf. 2 Cor 1, 20).

A imposição do nome

  1. José deu ao menino, na ocasião em que o levaram a circuncidar, o nome de Jesus. Este nome é o único em que há salvação (cf. Act 4, 12); e a José tinha sido revelado o seu significado, no momento da sua «anunciação»: E tu «por-lhe-ás o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 21). Quando lhe deu o nome, José declarou a própria paternidade legal em relação a Jesus; e, pronunciando esse nome, proclamou a missão deste menino, de ser o Salvador.

A apresentação de Jesus no templo

  1. Esta cerimónia, referida por São Lucas (2, 22 ss.), incluía o resgate do primogénito e projecta luz sobre o episódio posterior da permanência de Jesus no templo aos doze anos.

resgate do primogénito é um outro dever do pai, que é cumprido por José. No primogénito estava representado o povo da Aliança, resgatado da escravidão para passar a pertencer a Deus. Também a propósito disto, Jesus, que é o verdadeiro «preço» do resgate (cf. 1 Cor 6, 20; 7, 23; 1 Pdr 1, 19), não somente «cumpre» o rito do Antigo Testamento, mas ao mesmo tempo supera-o, não sendo ele um simples homem sujeito a ser resgatado, mas o próprio autor do resgate.

O Evangelista põe em relevo que «o pai e a mãe de Jesus estavam admirados com as coisas que se diziam dele» (Lc 2, 33); e, em particular, com aquilo que Simeão disse, no seu cântico dirigido ao Senhor, indicando Jesus como «a salvação preparada por Deus em favor de todos os povos» e «luz para iluminar as nações e glória de Israel, seu povo»; e, mais adiante, também como «sinal de contradição» (Lc 2, 30-34).

A fuga para o Egipto

  1. A seguir à apresentação no templo, o evangelista São Lucas anotou: «Depois de terem cumprido tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 39-40).

Mas, segundo o texto de São Mateus, ainda antes deste retorno à Galileia, tem de ser colocado um acontecimento muito importante, para o qual a Providência divina de novo recorre a José. Aí lemos: «Depois de eles (os Magos) partirem, eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e disse-lhe: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto e fica lá até eu te avisar, porque Herodes está a procurar o menino para o matar”» (Mt 2, 13). Na ocasião da vinda dos Magos do Oriente, Herodes tinha sabido do nascimento do «rei dos Judeus» (Mt 2, 2). E quando os Magos partiram, ele mandou «matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu território, da idade de dois anos para baixo» (Mt 2, 16). Deste modo, matando todas as crianças, queria matar aquele recém-nascido «rei dos Judeus», de quem chegara ao conhecimento durante a visita dos Magos à sua corte. Então José, tendo recebido o aviso em sonho, «de noite, tomou o menino e sua mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: “Do Egipto chamei o meu Filho”» (Mt 2, 14-15; cf. Os11, 1).

Deste modo, o caminho do regresso de Jesus de Belém a Nazaré passou pelo Egipto. Assim como Israel tinha tomado o caminho do êxodo «da condição de escravidão» para iniciar a Antiga Aliança, assim José, depositário e cooperador do mistério providencial de Deus, também no exílio vela por Aquele que vai tornar realidade a Nova Aliança.

A permanência de Jesus no templo

  1. Desde o momento da Anunciação, José, juntamente com Maria, encontrou-se, em certo sentido, no íntimo do mistérioescondido desde todos os séculos em Deus e que se tinha revestido de carne: «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Sim, Ele habitou entre os homens e o âmbito da sua morada foi a Sagrada Família de Nazaré, uma das tantas famílias desta pequena cidade de Galileia, uma das tantas famílias da terra de Israel. Aí, Jesus crescia e «robustecia-se , cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 40). Os Evangelhos resumem em poucas palavras o longo período da vida «oculta», durante o qual Jesus se preparou para a sua missão messiânica. Há um só momento que é subtraído a este «escondimento» e é descrito pelo Evangelho de São Lucas: a Páscoa de Jerusalém, quando Jesus tinha doze anos de idade.

Jesus participou nesta festa, como um jovem peregrino, juntamente com Maria e José. E eis o que aconteceu: «Passados aqueles dias (da festa), ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais se apercebessem disso» (Lc 2, 43). Depois de um dia de viagem deram pela sua falta; e começaram a procurá-lo «entre os parentes e conhecidos … Depois de três dias,encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos os que o ouviam ficavam admirados da sua inteligência e das suas respostas» (Lc 2, 46-47). Maria pergunta: «Filho, por que procedeste assim connosco?Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura» (Lc 2, 48). A resposta de Jesus foi de tal sorte que os dois «não entenderam as palavras que lhes disse». Tinha-lhes respondido: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo encontrar-me na casa de meu Pai?» (Lc 2, 49-50).

Ouviu estas palavras José, em relação ao qual Maria tinha acabado de dizer «teu pai». Com efeito, era assim que as pessoas diziam e pensavam: Jesus, «como se supunha, era filho de José» (Lc 3, 23). Apesar disso, a resposta do próprio Jesus no templo devia reavivar na consciência do «suposto o pai» aquilo que numa noite, doze anos antes, ele tinha ouvido: «José … não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo». Já desde então ele sabia que era depositário do mistério de Deus; e Jesus, com doze anos de idade, evocou exactamente este mistério: «Devo encontrar-me na casa de meu Pai».

A sustenção e a educação de Jesus em Nazaré

  1. O crescimento de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» (Lc 2, 52), deu-se no âmbito da Sagrada Família, sob o olhar de São José, que tinha a alta função de o «criar»; ou seja, de alimentar, vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres estabelecidos para o pai.

No Sacrifício eucarístico a Igreja venera «a memória da gloriosa sempre Virgem Maria … e também a de São José», (29) porque foi quem «sustentou Aquele que os fiéis deviam comer como Pão de vida eterna». (30)

Por sua parte, Jesus «era-lhes submisso» (Lc 2, 51), correspondendo com o respeito às atenções dos seus «pais». Dessa forma quis santificar os deveres da família e do trabalho, que ele próprio executava ao lado de José.

III

O HOMEM JUSTO – O ESPOSO

  1. No decorrer da sua vida, que foi uma peregrinação na fé, José, como Maria, permaneceu fiel até ao fim ao chamamento de Deus. A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas consequências daquele primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação; ao passo que José – como já foi dito – não proferiu palavra alguma, aquando da sua «anunciação»: «fez como o anjo do Senhor lhe ordenara» (Mt 1, 24). E este primeiro «fez» tornou-se o princípio da «caminhada de José». Ao longo desta caminhada, os Evangelhos não registram palavra alguma que ele tenha dito. Mas esse silêncio de José tem uma especial eloquência: graças a tal atitude, pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o Evangelho: o «justo» (Mt 1, 19).

é necessário saber ler bem esta verdade, porque nela está contido um dos mais importantes testemunhos acerca do homem e da sua vocação. No decurso das gerações a Igreja lê, de maneira cada vez mais atenta e mais cônscia este testemunho, como que tirando do tesouro desta insígne figura «coisas novas e coisas velhas» (Mt 13, 52).

  1. O homem «justo» de Nazaré possui sobretudo as características bem nítidas do esposo. O Evangelista fala de Maria como de «uma virgem desposada com um homem … chamado José» (Lc 1, 27). Antes de começar a realizar-se «o mistério escondido desde todos os séculos em Deus» (Ef 3, 9), os Evangelhos põem diante de nós a imagem do esposo e da esposa. Segundo o costume do povo hebraico, o matrimónio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o matrimónio legal (verdadeiro matrimónio); e depois, só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu «esposo»; Maria, porém, conservava no seu íntimo o desejo de fazer o dom total de si mesma exclusivamente a Deus. Poder-se-ia perguntar de que modo este desejo se conciliava com as «núpcias». A resposta vem-nos somente do desenrolar dos acontecimentos salvíficos, isto é, da acção especial do próprio Deus. Desde o momento da Anunciação, Maria sabe que deve realizar-se o seu desejo virginal, de entregar-se a Deus de modo exclusivo e total, precisamentetornando-se mãe do Filho de Deus. A maternidade por obra do Espírito Santo é a forma de doação que o próprio Deus espera da Virgem, «desposada» com José. E Maria pronuncia o seu fiat (faça-se).

O facto de ela ser «desposada» com José está incluído no mesmo desígnio de Deus. Isso é indicado por ambos os Evangelistas citados, mas de maneira particular por São Mateus. São muito significativas as palavras ditas a José: «Não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). Elas explicam o mistério da esposa de José: Maria é virgem na sua maternidade. Nela «o Filho do Altíssimo» assume um corpo humano e torna-se «o Filho do homem».

Dirigindo-se a José com as palavras do anjo, Deus dirige-se a ele como sendo esposo da Virgem de Nazaré. Aquilo que nela se realizou por obra do Espírito Santo exprime ao mesmo tempo uma confirmação especial do vínculo esponsal, que já existia antes entre José e Maria. O mensageiro diz claramente a José: «Não temas receber contigo, Maria, tua esposa». Por conseguinte, aquilo que tinha acontecido anteriormente — os seus esponsais com Maria — tinha acontecido por vontade de Deus e, portanto, devia ser conservado. Na sua maternidade divina, Maria deve continuar a viver como «uma virgem, esposa de um esposo» (cf. Lc 1, 27).

  1. Nas palavras da «anunciação» nocturna, José escuta não apenas a verdade divina acerca da inefável vocação da sua esposa, mas ouve novamente também a verdade acerca da própria vocação. Este homem «justo», que, segundo o espírito das mais nobres tradições do povo eleito, amava a Virgem de Nazaré e a ela se encontrava ligado por amor esponsal, é novamente chamado por Deus para este amor.

«José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa»; o que se gerou nela «é obra do Espírito Santo». Ora, de tais expressões, não se imporá porventura deduzir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se imporá porventura pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito Santo (cf. Rom5, 5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Ele forma também — e de maneira absolutamente singular — o amor esponsal dos cônjuges, nele dando profundidade a tudo aquilo que seja humanamente digno e belo e tenha as marcas da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica, a exemplo de Mistério trinitário.

«José … recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho» (Mt 1, 24-25). Estas palavras indicam ainda outra proximidade esponsal. A profundeza desta proximidade, a intensidade espiritual da união e do contacto entre pessoas — do homem e da mulher — provêm em última análise do Espírito que dá a vida (cf. Jo 6, 63). José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal de homem; e este amor foi maior do que aquele «homem justo» poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.

  1. Na Liturgia, Maria é celebrada como tendo estado «unida a José, homem justo, por um vínculo de amor esponsal e virginal».(31) Trata-se, de facto , de dois amores que , conjuntamente, representam o mistério da Igreja, virgem e esposa, a qual tem no matrimónio de Maria e José o seu símbolo. «A virgindade e o celibato por amor do Reino de Deus não só não se contrapõem à dignidade do matrimónio, mas pressupõem-na e confirmam-na. O matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único Mistério da Aliança de Deus com o seu povo», (32) que é comunhão de amor entre Deus e os homens.

Mediante o sacrifício total de si próprio, José exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe «dom esponsal de si». Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus.

Por outro lado, foi do matrimónio com Maria que advieram para José a sua dignidade singular e os seus direitos em relação a Jesus. «é certo que a dignidade da Mãe de Deus assenta tão alto, que nada pode haver de mais sublime; mas, por isso mesmo que entre a Santíssima Virgem a José foi estreitado o vínculo conjugal, não há dúvida de que ele se aproximou como ninguémdessa altíssima dignidade, em virtude da qual a Mãe de Deus ocupa lugar eminente, a grande distância de todas as criaturas. Uma vez que o casamento é a comunidade e a amizade máxima a que, por sua natureza, anda ligada a comunhão de bens, segue-se que, se Deus quis dar José como esposo à Virgem, deu-lo não apenas como companheiro na vida, testemunha da sua virgindade e garante da sua honestidade, mas também para que ele participasse, mediante o pacto conjugal, na sua excelsa grandeza. (33)

  1. Um tal vínculo de caridade constituiu a vida da Sagrada Família; primeiro, na pobreza de Belém, depois, durante o exílio no Egipto e, em seguida, quando ela morava em Nazaré. A Igreja rodeia de profunda veneração esta Família, apresentando-a como modelo para todas as famílias. A Família de Nazaré, directamente inserida no mistério da Incarnação, constitui ela própria um mistério particular. E ao mesmo tempo — como na Incarnação — é a este mistério que pertence a verdadeira paternidade: a forma humana da família do Filho de Deus, verdadeira família humana, formada pelo mistério divino. Nela, José é o pai: a sua paternidade, porém, não é só «aparente», ou apenas «substitutiva»; mas está dotada plenamente da autenticidade da paternidade humana, da autenticidade da missão paterna na família. Nisto está contida uma consequência da união hipostática: humanidade assumida na unidade da Pessoa divina do Verbo-Filho, Jesus Cristo. Juntamente com a assunção da humanidade, em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi «assumida» também a paternidade humana de José.

Com base neste princípio, adquirem o seu significado profundo as palavras dirigidas por Maria a Jesus, no templo, quando ele tinha doze anos: «Teu pai e eu … andávamos à tua procura». Não se trata de uma frase convencional: as palavras da Mãe de Jesus indicam toda a realidade da Incarnação, que pertence ao mistério da Família de Nazaré. José, que desde o princípio aceitou, mediante «a obediência da fé», a sua paternidade humana em relação a Jesus, seguindo a luz do Espírito Santo que por meio da fé se doa ao homem, por certo ia descobrindo cada vez mais amplamente o dom inefável desta sua paternidade.

IV

O TRABALHO EXPRESSÃO DO AMOR

  1. A expressão quotidiana deste amor na vida da Família de Nazaré é o trabalho. O texto evangélico especifica o tipo de trabalho, mediante o qual José procurava garantir a sustentação da Família: o trabalho de carpinteiro. Esta simples palavra envolve toda a extensão da vida de José. Para Jesus este período abrange os anos da vida oculta, de que fala o Evangelista, a seguir ao episódio que sucedeu no templo: «Depois, desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso» (Lc 2, 51). Esta «submissão, ou seja, a obediência de Jesus na casa de Nazaré é entendida também como participação no trabalho de José. Aquele que era designado como o «filho do carpinteiro», tinha aprendido o ofício de seu «pai» putativo. Se a Família de Nazaré, na ordem da salvação e da santidade, é exemplo e modelo para as famílias humanas, é-o analogamente também o trabalho de Jesus ao lado de José carpinteiro. Na nossa época, a Igreja pôs em realce isto mesmo, também com a memória litúrgica de São José Operário, fixada no primeiro de maio. O trabalho humano, em particular o trabalho manual, tem no Evangelho uma acentuação especial. Juntamente com a humanidade do Filho de Deus ele foi acolhido no mistério da Incarnação, como também foi redimido de maneira particular. Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção.
  2. No crescimento humano de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» teve uma parte notável a virtude da laboriosidade, dado que «o trabalho é um bem do homem», que «transforma a natureza» e torna o homem, «em certo sentido, mais homem».(34)

A importância do trabalho na vida do homem exige que se conheçam e assimilem todos os seus conteúdos, «para ajudar os demais homens a aproximarem-se através dele de Deus, Criador e Redentor, e a participarem nos seus desígnios salvíficos quanto ao homem e quanto ao mundo; e ainda, a aprofundarem na sua vida e amizade com Cristo, tendo, mediante a fé vivida, uma participação no seu tríplice múnus: de Sacerdote, de Profeta e de Rei». (35)

  1. Trata-se, em última análise, da santificação da vida quotidiana, no que cada pessoa deve empenhar-se, segundo o próprio estado, e que pode ser proposta apontando para um modelo accessível a todos: São José é o modelo dos humildes, que o Cristianismo enaltece para grandes destinos; … é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam «grandes coisas», mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas». (36)

V

O PRIMADO DA VIDA INTERIOR

  1. Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José «fez»; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas «acções», envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava quotidianamente em contacto com o mistério «escondido desde todos os séculos», que «estabeleceu a sua morada» sob o tecto da sua casa. Isto explica, por exemplo, a razão por que Santa Teresa de Jesus, a grande reformadora do Carmelo contemplativo, se tornou promotora da renovação do culto de São José na cristiandade ocidental.
  2. O sacrifício total, que José fez da sua existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa, encontra a motivação adequada na «sua insondável vida interior, da qual lhe provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um incomparável amor virgíneo, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a mesma família». (37)

Esta submissão a Deus, que é prontidão de vontade para se dedicar às coisas que dizem respeito ao seu serviço, não é mais do que o exercício da devoção, que constitui uma das expressões da virtude da religião. (38)

  1. A comunhão de vida entre José e Jesus leva-nos a considerar ainda o mistério da Incarnação precisamente sob o aspecto da humanidade de Cristo, instrumento eficaz da divindade para a santificação dos homens: «Por força da divindade, as acções humanas de Cristo foram salutares para nós, produzindo em nós a graça, quer em razão do mérito, quer por uma certa eficácia».(39)

Entre estas acções os Evangelistas privilegiam aquelas que dizem respeito ao mistério pascal; mas não deixam de frisar bem a importância do contacto físico com Jesus em ordem às curas de enfermidades (cf., por exemplo, Mc 1, 41) e a influência por ele exercida sobre João Baptista, quando ambos estavam ainda no seio materno (cf. Lc 1, 41-44).

O testemunho apostólico não transcurou — como já se viu — a narração do nascimento de Jesus, da circuncisão, da apresentação no templo, da fuga para o Egipto e da vida oculta em Nazaré, por motivo do «mistério» de graça contido em tais «gestos», todos eles salvíficos, porque todos participavam da mesma fonte de amor: a divindade de Cristo. Se este amor se irradiava, através da sua humanidade, sobre todos os homens, certamente eram por ele beneficiados, em primeiro lugar, aqueles que a vontade divina tinha posto na sua maior intimidade: Maria, sua Mãe, e José, seu pai putativo . (40)

Uma vez que o amor «paterno» de José não podia deixar de influir sobre o amor «filial» de Jesus e, vice-versa, o amor «filial» de Jesus não podia deixar de influir sobre o amor «paterno» de José, como chegar a conhecer as profundezas desta singularíssima relação? Justamente, pois, as almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um exemplo luminoso de vida interior.

Mais ainda, a aparente tensão entre a vida activa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade. Atendo-nos à conhecida distinção entre o amor da verdade (caritas veritatis) e as exigências do amor (necessitat caritatis), podemos dizer que José fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do serviço, requerido pela protecção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade. (41)

VI

PATRONO DA IGREJA DO NOSSO TEMPO

  1. Em tempos difíceis para a Igreja, Pio IX, desejando confiá-la à especial protecção do Santo Patriarca José, declarou-o «Patrono da Igreja católica». (42) Esse Sumo Pontífice sabia que não estava a levar a efeito um gesto peregrino, porque, em virtude da excelsa dignidade concedida por Deus a este seu servo fidelíssimo, «a Igreja, depois da Virgem Santíssima, esposa dele, teve sempre em grande honra e cumulou de louvores o Bem-aventurado José e, no meio das angústias, de preferência foi a ele que recorreu». (43)

Quais são os motivos de tão grande confiança? O Papa Leão XIII expõe-nos assim: «As razões pelas quais o Bem-aventurado José deve ser considerado especial Patrono da Igreja, e a Igreja, por sua vez, deve esperar muitíssimo da sua protecção e do seu patrocínio, provêm principalmente do facto de ele ser esposo de Maria e pai putativo de Jesus (…). José foi a seu tempo legítimo e natural guardião, chefe e defensor da divina Família (…). É algo conveniente e sumamente digno para o Bem-aventurado José, portanto, que, de modo análogo àquele com que outrora costumava socorrer santamente, em todo e qualquer acontecimento, a Família de Nazaré, também agora cubra e defenda com o seu celeste patrocínio a Igreja de Cristo». (44)

  1. Este patrocínio deve ser invocado e continua sempre a ser necessário à Igreja, não apenas para a defender dos perigos, que continuamente se levantam, mas também e sobretudo para a confortar no seu renovado empenho de evangelização do mundo e de levar por diante a nova evangelização dos países e nações «onde — como eu escrevia na Exortação Apostólica Christifideles laici — a religião e a vida cristã foram em tempos tão prósperas», mas «se encontram hoje submetidas a dura provação». (45)Para levar o primeiro anúncio de Cristo ou para voltar a apresentá-lo onde ele foi transcurado ou esquecido, a Igreja precisa de uma particular «força do Alto» (cf. Lc 24, 49), que é dom do Espírito do Senhor, certamente, mas não anda disjunta da intercessão e do exemplo dos seus Santos.
  2. Além da confiança na protecção segura de José, a Igreja tem confiança no seu exemplo insigne, um exemplo que transcende cada um dos estados de vida e se propõe a toda a comunidade cristã, sejam quais forem a condição e as tarefas de cada um dos fiéis.

Como se diz na constituição do Concílio Vaticano II sobre a Divina Revelação, a atitude fundamental de toda a Igreja deve ser de «religiosa escuta da palavra de Deus»; (46) ou seja, de absoluta disponibilidade para se pôr fielmente ao serviço da vontade salvífica de Deus, revelada em Jesus. Logo no princípio da Redenção humana, nós encontramos o modelo da obediência encarnado, depois de Maria, precisamente em José, aquele que, se distingue pela execução fiel das ordens de Deus.

O Papa Paulo VI exortava a invocar o seu patrocínio, «como a Igreja, nestes últimos tempos, tem o costume de fazer, para si mesma, antes de mais nada, para uma espontânea reflexão teológica sobre o conúbio da acção divina com a acção humana na grande economia da Redenção, no qual, a primeira, a acção divina, é só por si totalmente suficiente, mas a segunda, a acção humana, a nossa, embora não seja capaz de fazer coisa alguma sozinha (cf. Jo 15, 5), nunca está dispensada de uma humilde, mas condicional e nobilitante colaboração. Além disso, a Igreja invoca-o como protector, por um desejo profundo e actualíssimo de rejuvenescer a sua existência secular, com autênticas virtudes evangélicas, como as que refulgem em São José». (47)

  1. A Igreja transforma estas exigências em oração. Recordando que Deus confiou os inícios da nossa Redenção à guarda desvelada de São José, suplica-lhe: que lhe conceda colaborar fielmente na obra da salvação; e que lhe dê a mesma fidelidade e pureza de coração que animaram José no serviço do Verbo Incarnado; e, ainda, a graça de caminhar diante do mesmo Deus pelas vias da santidade e da justiça, amparados pelo exemplo e pela intercessão de São José. (48)

Há cem anos, exactamente, o Papa Leão XIII exortava o mundo católico a rezar para obter a protecção de São José, Patrono de toda a Igreja. A Carta Encíclica Quamquam pluries fazia apelo para aquele «amor paterno» que José «dedicava ao Menino Jesus» e recomendava-lhe, a ele «próvido guarda da divina Família, a preciosa herança que Jesus Cristo adquiriu com o próprio sangue». Desde então, a Igreja — como foi recordado mais acima — implora a protecção de São José, «em virtude daquele vínculo de caridade que o uniu à imaculada Virgem Mãe de Deus», e recomenda-lhe todas as suas solicitudes, também pelo que se refere às ameaças que incumbem sobre a família humana.

Nos dias de hoje, temos ainda numerosos motivos para rezar da mesma maneira: «Afastai de nós, ó pai amantíssimo, esta peste de erros e de vícios…, assisti-nos propício, do céu, nesta luta contra o poder das trevas …; e assim como outrora livrastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim hoje defendei a santa Igreja de Deus das ciladas do inimigo e de todas as adversidades». (49) Hoje ainda temos motivos que perduram para recomendar todos e cada um dos homens a São José.

  1. Desejo vivamente que esta evocação da figura de São José renove também em nós o ritmo da oração que, há um século atrás, o meu Predecessor estabeleceu que lhe fosse elevada. É fora de dúvida, efectivamente, que esta oração e a própria figura de São José se revestem de actualidade renovada para a Igreja do nosso tempo, em relação com o novo Milénio cristão.

Concílio Vaticano II procurou sensibilizar-nos novamente a todos para «as grandes coisas de Deus» e para aquela «economia da salvação» de que São José foi particularmente ministro. Recomendando-nos, pois, à protecção daquele a quem o próprio Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos e maiores», (50) aprendamos com ele, ao mesmo tempo, a servir a «economia da salvação». Que São José se torne para todos um mestre singular no serviço da missão salvífica de Cristo, que, na Igreja, compete a cada um e a todos: aos esposos e aos pais, àqueles que vivem do trabalho das próprias mãos e de todo e qualquer outro trabalho, às pessoas chamadas para a vida contemplativa e às que são chamadas ao apostolado.

homem justo, que trazia em si o património da Antiga Aliança, foi também introduzido no «princípio» da nova e eterna Aliança em Jesus Cristo. Que ele nos indique os caminhos desta Aliança salvífica no limiar do próximo Milénio, durante o qual deve perdurar e desenvolver-se ulteriormente a «plenitude dos tempos» própria do mistério inefável da Incarnação do Verbo.

Que São José obtenha para a Igreja e para o mundo, assim como para um de nós, a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de Agosto – solenidade da Assunção de Nossa Senhora – no ano de 1989, undécimo ano de Pontificado.

 

JOÃO PAULO II

 

Notas

(1) Cf. S. Ireneu, Adversus Haereses, IV, 23, 1: S. Ch. 100/72, pp. 692-694.

(2) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): Leonis XIII P. M. Acta, IX (1890), pp. 175-182.

(3) Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): Pii IX P. M. Acta, pars I, Vol. V, p. 282; Pio IX, Carta Apost. Inclytum Partiarcham (7 de Julho de 1871), l.c., pp. 331-335.

(4) Cf. S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58. Os Doutores da Igreja e os Sumos Pontífices, também baseando-se na identidade do nome, indicaram em José do Egipto o protótipo de José de Nazaré, na medida em que se teriam esboçado no primeiro as funções e a grandeza do segundo, de ser guardião dos mais preciosos tesouros de Deus Pai, o Verbo Incarnado e a sua Santíssima Mãe: cf., por exemplo, S. Bernardo, Super missus estHom. II, 16: S. Bernardi Opera, Ed. Cist., IV, 33-34; Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 179.

(5) Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 58.

(6) Cf. ibid., n. 63.

(7) Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 5.

(8Ibid., n. 2.

(9) Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 63.

(10) Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 2.

(11) S. Congr. dos Ritos, Decr. Novis hisce temporibus (13 de Novembro de 1962): AAS 54 (1962), p. 873.

(12) S. Agostinho, Sermo 51, 10, 16: PL 38, 342.

(13) S. Agostinho, De nuptiis et concupiscentia, I, 11, 12: PL 44, 421; cf. De consensu evangelistarum, II, 1, 2: PL 34, 1071; Contra Faustum, III, 2: PL 42, 214.

(14) S. Agostinho, De nuptiis et concupiscentia, I, 11, 13: PL 44, 421; cf. Contra Julianum, V, 12, 46: PL 44, 810.

(15) Cf. S. Agostinho, Contra Faustum, XXIII, 8: PL 42, 470-471; De consensu evangelistarum, II, 1, 3: PL 34, 1072; Sermo 51, 13, 21: PL 38, 344-345; S. Tomás de Aquino, Summa Theol., III, q. 29, a. 2 in conclus.

(16) Cf. as Alocuções de 9 16 de Janeiro e de 20 de Fevereiro de 1980Insegnamenti, III/1 (1980), pp. 88-92; 148-152; e 428-431.

(17) Paulo VI, Alocução ao Movimento « Equipes Notre-Dame » (4 de Maio de 1970), n. 7: AAS 62 (1970), p. 431; uma exaltação análoga da Família de Nazaré, como exemplar absoluto da comunidade doméstica, encontra-se, por exemplo, em Leão XIII, Carta Apost. Neminem fugit (14 de Junho de 1892): Leonis XIII Acta, XII (1892), pp. 149-150; Bento XV, Motu Proprio Bonum sane (25 de Julho de 1920): AAS 12 (1920), pp. 313-317.

(18) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 17: AAS 74 (1982), p. 100.

(19Ibid., n. 49: l.c., p. 140; cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 11; Decr. sobre o Apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, n. 11.

(20) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 85: AAS 74 (1982), pp. 189-190.

(21) Cf. S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58.

(22) Paulo VI, Alocução (19 de Março de 1966): Insegnamenti, IV (1966), p. 110.

(23) Cf. Missale RomanumCollecta in « Sollemnitate S. Joseph Sponsi B.M.V.».

(24) Cf. Ibid., Praefatio in o Sollemnitate S. Joseph Sponsi B. M. V. ».

(25) Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 178.

(26) Pio XII, Radiomensagem aos estudantes das escolas católicas dos Estados Unidos da América (19 de Fevereiro de 1958):AAS50 (1958), p. 174.

(27) Origenes, Hom. XIII in Lucam, 7: S. Ch. 87, pp. 214-215.

(28) Origenes, Hom. XIII in Lucam, 6: S. Ch. 87, pp. 195-197.

(29) Cf. Missale Romanum, Prex Eucaristica, 1.

(30) Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 282.

(31Collectio Missarum de Beata Maria Virgine, I, « Sancta Maria de Nazareth », Praefatio.

(32) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 16: AAS 74 (1982), p. 98.

(33) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., pp. 177-178.

(34) Cf. Carta Enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), n. 9: AAS 73 (1981), pp. 599-600.

(35Ibid., n. 24: l.c., p. 638. Os Sumos Pontífices, nos tempos mais recentes, têm apresentado constantemente S. José como « modelo » dos operários e dos trabalhadores em geral, cf., por exemplo, Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 180; Bento XV, Motu proprio Bonum sane (25 de Julho de 1920): l.c., pp. 314-316; Pio XII, Alocução (11 de Março de 1945), n. 4: AAS 37 (1945), p. 72; Alocução (1 de Maio de 1955): AAS 47 (1955), p. 406; João XXIII, Radiomensagem(1 de Maio de 1960): AAS 52 (1960), p. 398.

(36) Paulo VI, Alocução (19 de Março de 1969): Insegnamenti, VII (1969), p. 1268.

(37Ibid., 1.c., p. 1267.

(38) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theol., II-II ae, q. 82, a. 3, ad 2.

(39Ibid., III, q. 8, a. 1, ad 1.

(40) Pio XII, Carta Enc. Haurietis aquas (15 de Maio de 1956), III: AAS 48 (1956), pp. 329-330.

(41) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theol., II-II

ae, q. 182, a. 1, ad 3.

(42) Cf. Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 283.

(43Ibid., l.c., pp. 282-283.

(44) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., pp. 177-179.

(45) Cf. Exort. Apost. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), n. 34: AAS 81 (1989), p. 456.

(46) Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 1.

(47) Paulo, Alocução (19 de Março de 1969): Insegnamenti, VII (1969), p. 1269.

(48) Cf. Missale Romanum, CollectaSuper oblata in « Sollemnitate S. Joseph Sponsi B.M.V. »; e Post commun. in «Missa Votiva S. Joseph ».

(49) Cf. Leão XIII, « Oratio ad Sanctum Josephum », contida imediatamente a seguir ao texto da Carta Enc. Quamquam pluries(15 de Agosto de 1889): Leonis XIII P.M. Acta, IX (1890), p. 183.

(50) Sacror. Rituum. Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 282.

 

© Copyright 1989 – Libreria Editrice Vaticana

Oração a São José

Oração a São José

Anuncia, ó José,

ao teu antepassado Davi

as maravilhas:

tu que viste a Virgem dar à luz,

tu que adoraste com os reis magos,

tu que glorificaste com os pastores,

tu que foste instruído pelo anjo

suplica a Cristo-Deus,

para que salve as nossas almas!

da Liturgia Bizantina

Música "Meu bom José"