Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

5º Domingo do Tempo Comum

5º Domingo do Tempo Comum

As vitórias escondidas sob aparentes derrotas 

 

Frei Gustavo Medella

Na pescaria orientada por Jesus, as redes arrebentaram e os barcos quase afundaram. Com base apenas nestas duas informações, a conclusão a que se chega é que estamos diante de uma fracassada tentativa de pesca. No entanto, ao olharmos o contexto mais amplo, estes dois acontecimentos se deram justamente por conta do sucesso da iniciativa. A pesca havia sido superabundante, milagrosa, surpreendendo inclusive pescadores experimentados, como Pedro, Tiago e João.

O episódio, marcado pela insistência de Jesus para que as redes fossem jogadas e pela obediência dos pescadores, vem mostrar que os desígnios de Deus nem sempre cabem nos esquemas humanos. Na lógica divina, às vezes o que humanamente dá errado está servindo para produzir bons frutos em prol do Reino. As redes arrebentadas e os barcos quase afundando não foram sinal de fracasso, mas de abundância e superação de toda e qualquer expectativa.

Na vida cristã, portanto, nem sempre os indicadores humanos servem para mensurar o sucesso de uma ação. Basta recordamos a desfavorável equação que São Paulo apresenta, bastante improdutiva se submetida ao crivo da categoria custo-benefício: “Fiz-me tudo com todos para salvar alguns” (1Cor 9,22b). Assim é a lógica da cruz, da vitória da morte sobre a vida num aparente fracasso total. Desta forma, fica para nós o exemplo e a lição de que o caminho do discipulado é marcado, em grande parte, por encontrar pela fé as maravilhas de Deus que se escondem sob aparentes derrotas.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura (Is 6,1-2a.3-8)

1No ano da morte do rei Ozias, vi o Senhor sentado num trono de grande altura; o seu manto estendia-se pelo templo. 2aHavia serafins de pé a seu lado; cada um tinha seis asas. 3Eles exclamavam uns para os outros: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está repleta de sua glória”.

4Ao clamor dessas vozes, começaram a tremer as portas em seus gonzos e o templo encheu-se de fumaça. 5Disse eu então: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos”.

6Nisto, um dos serafins voou para mim, tendo na mão uma brasa, que retirara do altar com uma tenaz, 7e tocou minha boca, dizendo: “Assim que isto tocou teus lábios, desapareceu tua culpa, e teu pecado está perdoado”.

8Ouvi a voz do Senhor que dizia: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Eu respondi: “Aqui estou! Envia-me”.

Responsório (Sl 137)

— Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor, e ante o vosso templo vou prostrar-me.

— Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor, e ante o vosso templo vou prostrar-me.

— Ó Senhor, de coração eu vos dou graças,/ porque ouvistes as palavras dos meus lábios!/ Perante os vossos anjos vou cantar-vos/ e ante o vosso templo vou prostrar-me.

— Eu agradeço vosso amor, vossa verdade,/ porque fizestes muito mais que prometestes;/ naquele dia em que gritei, vós me escutastes/ e aumentastes o vigor da minha alma.

— Os reis de toda a terra hão de louvar-vos,/ quando ouvirem, ó Senhor, vossa promessa./ Hão de cantar vossos caminhos e dirão:/ “Como a glória do Senhor é grandiosa!”

— Estendereis o vosso braço em meu auxílio/ e havereis de me salvar com vossa destra./ Completai em mim a obra começada;/ ó Senhor, vossa bondade é para sempre!/ Eu vos peço: não deixeis inacabada/ esta obra que fizeram vossas mãos!

Segunda Leitura (1Cor 15,3-8.11)

Irmãos: 3O que vos transmiti, em primeiro lugar, foi aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; 4que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; 5e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze.

6Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram. 7Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos. 8Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo. 11É isso, em resumo, o que eu e eles temos pregado e é isso o que crestes.

Seguimento de Jesus 

Evangelho: Lc 5,1-11

* 1 Certo dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. 2 Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado, e lavavam as redes. 3 Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. 4 Quando acabou de falar, disse a Simão: «Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca.» 5 Simão respondeu: «Mestre, tentamos a noite inteira, e não pescamos nada. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes.» 6 Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes, que as redes se arrebentavam. 7 Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que fossem ajudá-los. Eles foram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. 8 Ao ver isso, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: «Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!» 9 É que o espanto tinha tomado conta de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. 10 Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Mas Jesus disse a Simão: «Não tenha medo! De hoje em diante você será pescador de homens.» 11 Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo, e seguiram a Jesus.


* 5,1-11: A cena é simbólica. Jesus chama seus primeiros discípulos, mostrando-lhes qual a missão reservada a eles: fazer que os homens participem da libertação trazida por Jesus e que só pode realizar-se no seguimento dele, mediante a união com ele e sua missão. O convite ao seguimento é exigente: é preciso «deixar tudo», para que nada impeça o discípulo de anunciar a Boa Notícia do Reino.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentário de Frei Ludovico Garmus

5º Domingo do Tempo Comum, ano C 

Oração: “Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção”.

  1. Primeira leitura: Is 6,12a.3-8

Aqui estou, envia-me.

Na primeira leitura ouvimos a narrativa da vocação do profeta Isaías. Isaías morava em Jerusalém, bem próximo das elites, e conhecia os abusos praticados contra o povo. Sua vocação acontece no Templo, durante a celebração do culto. Ele mesmo conta a visão divina que teve, as palavras que Deus lhe falava, estabelecendo um diálogo com ele. Enquanto a corte estava ainda abalada pela morte do rei Ozias e sua sucessão, o profeta sente-se transportado para a corte divina. Ele vê o Senhor sentado num trono sublime, vestido de um enorme manto que enchia o Templo, pronto para ouvir a corte celeste e tomar uma decisão. A corte era formada por serafins. Estes aclamavam o Senhor como três vezes “Santo”, porque sua glória enchia toda a terra. O profeta percebe que está sendo chamado para ser mensageiro de Deus. Diante do Senhor “Santo”, sente-se pecador; percebe-se como indigno e despreparado para missão de porta-voz de Deus. Então um dos serafins vem em seu socorro; com uma brasa tirada do altar do incenso purifica os lábios do profeta e comunica-lhe que seu pecado já está perdoado. Isaías ouve, então, a voz do Senhor, dizendo: “Quem enviarei? Quem irá por nós”? E Isaías responde prontamente: “Aqui estou! Envia-me”. A resposta de Isaías revela sua prontidão. Sabia, porém, que haveria de enfrentar dificuldades na missão; por isso, pergunta: “Até quando, Senhor? (Is 6,8-13; cf. 1,2-9). 

Salmo responsorial: Sl 137

Vou cantar-vos, ante os anjos, ó Senhor.

  1. Segunda Leitura: 1Cor 15, 1-11

É isso o que temos pregado, e é isso o que crestes.

Em todas as Cartas que Paulo escreve (menos Romanos), dirige-se a comunidades por ele fundadas. Por isso suas Cartas têm um caráter mais pastoral que doutrinário. O texto que hoje ouvimos é, ao mesmo tempo, doutrinário e pastoral. Havia entre os cristãos de Corinto perguntas a serem respondidas e dúvidas de fé a serem esclarecidas. Havia quem negasse a ressurreição dos mortos (15,12). Outros se perguntavam como os mortos ressuscitam e com que corpo (15,35). Para reforçar a fé na Ressurreição, Paulo não dá uma resposta científica, mas parte da fé, do evangelho por ele transmitido. O que Paulo recebeu da tradição constitui o núcleo mais antigo do Credo da Igreja: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, segundo as Escrituras. Depois cita uma lista de testemunhas da fé no Cristo Ressuscitado. A lista é encabeçada por Cefas (Pedro ou Simão Pedro) e pelos Doze, seguida de centenas de testemunhas, algumas ainda vivas. Menciona, também, a aparição a Tiago e aos apóstolos, por fim, inclui-se a ele mesmo na lista das testemunhas. Considera-se apóstolo de Cristo, embora o menor e mais indigno de todos, porque perseguiu os cristãos. O encontro com o Cristo Ressuscitado marca a conversão e vocação de Paulo. 

Aclamação ao Evangelho

“Vinde após mim”! O Senhor lhes falou,

“e vos farei pescadores de homens”.

  1. Evangelho: Lc 5,1-11

Deixaram tudo e o seguiram.

Marcos e Mateus falam da visita de Jesus a Nazaré, após narrar parte de sua atividade no entorno do lago da Galileia (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58). Jesus já havia escolhido seus discípulos quando entra na sinagoga de sua terra natal. Lucas, depois de falar do batismo de Jesus por João e de seu jejum e tentação no deserto, menciona de passagem a atividade em torno do Lago. Em seguida Jesus vai a Nazaré, sozinho, sem os discípulos, que ainda não tinham sido escolhidos. Somente em Lc 5,1-11 o evangelista narra a escolha dos primeiros discípulos. Eles serão a nova família de Jesus. A visita à sinagoga de Nazaré marca, assim, a ruptura de Jesus com seus familiares e patrícios, prenúncio da ruptura entre o cristianismo e o judaísmo, que acontecia quando Lucas escreve seu evangelho.

O Evangelho de hoje fala da vocação dos primeiros discípulos. Depois de ter pregado nas sinagogas da região, Jesus chega a Cafarnaum já famoso. Na margem do lago, o povo se apinhava ao redor de Jesus, “para ouvir a palavra de Deus”. Jesus viu duas barcas na margem e pescadores que lavavam as redes. Entrou numa das barcas, que era de Simão, e, sentado, continuou ensinando. Ao terminar o discurso, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. Simão deve ter pensado “De pesca Jesus não entende nada”, pois passaram a noite inteira sem nada pescar. Mesmo assim acolhe a sugestão e o resultado foi maravilhoso. As redes se rompiam de tanto peixe, de modo que tiveram de chamar a outra barca. Diante do mistério da pessoa de Jesus, Simão reage, como o profeta Isaías (1ª leitura). Movido pela inesperada experiência da presença de Deus, Simão sente-se pecador, prostra-se aos pés de Jesus e diz: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador”. Os irmãos Tiago e João, sócios de Simão, reagiram da mesma forma. Jesus apenas lhe diz: “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”. Imediatamente, Simão, Tiago e João largaram tudo e seguiram a Jesus. Os cristãos, e Lucas com eles, entenderam que as palavras de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lançai vossas redes para pesca”, indicava, sobretudo, a missão entre os pagãos (cf. Atos). E as palavras “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”, soava como um convite a abraçar o programa de Jesus na vivência e anúncio do Evangelho.

Como reagimos às palavras de Jesus e ao convite do Papa Francisco a sermos uma “Igreja em saída”, sem medo de levar a boa-nova aos pobres de nossos dias?

Quanta gente às margens do lago!

Frei Almir Guimarães

Depois Jesus sentou-se, da barca, ensinava as multidões (Lc 5, 4)

>> A primeira leitura, tirada de Isaías, poderia nos levar a fazer uma necessária, urgente e indispensável reflexão sobre a santidade de Deus. Serafins, anjos puríssimos, circundam a Beleza, o Altíssimo, Aquele que é três vezes santo.  Até que ponto somos buscadores do verdadeiro Deus, aquele que pode abrasar de amor nosso coração? Quem é Deus para nós? Esta pergunta não pode deixar de ser feita? Nada de arrastar caricaturas de Deus até o fim da vida.

>> Vamos agora nos deter na página do Evangelho de Lucas ora proclamada. Não estamos no templo, mas na cidade, no meio da vida, às margens do lago de Tiberíades, no burburinho. Carrinhos com figos e laranjas. Mães puxando seus filhos pela mão. Arrastando-os. Ancião com bengala. Cachorros bebendo água das poças. Um casal de namorados. Uma mulher preparando bolinhos de arroz. A multidão apertava Jesus. Gente perto de gente, grudados uns nos outros. Uns se tocando nos outros. Vieram para ouvir a palavra. Tudo indicava que esse Jesus tinha coisas importantes a lhes dizer. Jesus consegue se desvencilhar da multidão ao ver duas barcas paradas. Ele sobe na barca que era a de Simão. Pede que a afastem um pouco da margem… e começa a falar.

>> Fala, palavra, comunicação. O que temos dentro de nós e queremos dizer aos outros, fazemo-lo de muitos modos como pelo olhar, por um abraço, por um fremir do semblante, as mais das vezes por palavras. Somos seres que nascemos por dentro, que alimentamos a nossa vida com a palavra que sai do coração dos outros (pais, amigos, companheiros, mestres) e morre dentro de nós. A palavra dita passa a viver e morrer dentro de nós. Até que ponto falamos e escutamos? O evangelho diz que as pessoas vieram para ouvir a palavra. Temos vontade de ouvir.

>> José A. Pagola faz uma reflexão sobre os pregadores que poderia ser inserida aqui: “As pessoas não querem ouvir dos pregadores uma palavra qualquer; esperam uma palavra diferente, nascida de Deus, como a de Jesus. É o que se deve esperar de um pregador cristão. Uma palavra dita com fé. Um ensinamento arraigado no ensinamento de Jesus. Uma mensagem na qual se possa ver sem dificuldade a verdade de Deus e na qual se possa ouvir seu perdão, sua misericórdia insondável e  também seu apelo à conversão. Provavelmente muitos esperam hoje dos pregadores cristãos essa palavra humilde, sentida, realista, tirada do Evangelho, meditada pessoalmente no coração e pronunciada com o Espírito de Jesus”  (Pagola, Lucas,  p. 94).

>> E a fala de Jesus: “Estou no meio de vocês.. pelo meu modo de ser, minhas atitudes e minha fala digo o que tenho dentro de mim, no meu coração de Filho amado do Pai. Ele colocou em mim todas as suas complacências. O Pai quer bem a todos. Vocês foram inventados por ele. Procurem o Pai. Entrem em seus quartos. Não fiquem na agitação. O Pai que cuida das vestes belas dos lírios e dos pássaro se ocupa prioritariamente de vocês. Procurem mergulhar no amor do Pai.  Estou aqui como presença dele. Que bom que vieram me ouvir. Sejam bons, profundamente bons. Que ninguém seja privado de suas carinhosas atenções”. Somos ouvintes atentos da Palavra?

>> A vida nem sempre nos sorri. Nem sempre a pesca é abundante. Jesus tem uma palavra de ânimo. Vamos em frente. Avançar em águas mais profundas. Por vezes trabalhamos, lutamos mas nada de resultado… A vida parece sem gosto. Há os que desistem. Simão: “Mestre, em atenção à tua palavra vou lançar as redes”. Coragem… e a pesca foi tão numerosa que foi preciso chamar os pescadores de outras barcas. Sair de uma religião que busca ‘resultadinhos’… Profundidade pessoal, entrar num esquema de santidade.

>> Pedro faz a experiência da falha, do pecado de não ter confiado em Jesus. Tantas provas de amor e o pescador não havia confiado no Mestre. Experiência do pecado diante do esplendor do Mestre. Pedro é um homem de coração sincero. Surpreendido pela copiosa pesca lança-se aos pés de Jesus: “Afasta-te de mim porque sou um homem pecador”. Na primeira leitura Isaías também reconhece a grandeza de Deus e um serafim toma uma brasa ardente e vem queimar-lhe os lábios e seu pecado. Belíssima postura de reconhecimento do pecado e da falta. Até que ponto nutrimos no coração sentimento de dor por termos amado tão pouco e tão mal?

>> A frágeis pescadores Jesus confia uma missão sem igual: pescadores de peixes serão pescadores de homens. Apenas os apóstolos e seus sucessores? Ou também a nós viajantes da barca de Pedro que é a Igreja não deveríamos também avançar em águas profundas e anunciar a esperança. Palavra testemunho anunciada aos colegas de um comercio, aos vizinhos, aos amigos de nossos filhos. Como é que podemos hoje ser pescadores de homens?

>> Os que ouviram a Jesus com todo o coração foram tocados. Lucas, assim, conclui seu texto: “Eles levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus”.

>> Havia muita gente à beira do lago…

Texto seleto

Dá-nos, Senhor, a capacidade de um gesto gratuito, pois o gratuito nos salva.

Há a luta pela vida, o tráfego apressado e sempre comprometido dos nossos passos, a necessidade do dinheiro, dos bens, disto e daquilo, em nome de que hipotecamos tempo, esforço, criatividade…

Mas dentro de nós permanecemos sedentos.

Falta-nos, por vezes, uma ato puro de liberdade.

Um ato que manifeste, no segredo, o que somos.

Por isso, te pedimos hoje a ousadia de um gesto gratuito: nem que seja abrir uma janela e olhar o céu; nem que seja  reparara ternura no rosto dos que nos rodeiam;  nem que seja um frágil minuto de silêncio diante da tua imensidão.

José Tolentino Mendonça, “Um Deus que dança”, Paulinas, p. 107

Não temas

José Antonio Pagola

A culpa como tal não é algo inventado pelas religiões. Constitui uma das experiências humanas mais antigas e universais. Antes de aflorar o sentimento religioso pode-se verificar no ser humano essa sensação de “ter falhado” em alguma coisa. O problema não consiste na experiência da culpa, mas na maneira de enfrentá-la.

Existe uma maneira sadia de viver a culpa. A pessoa assume a responsabilidade por seus atos, lamenta o dano que pode ter causado e esforça-se para melhorar no futuro sua conduta. Vivida assim, a experiência da culpa faz parte do crescimento da pessoa para a sua maturidade.

Mas existem também maneiras pouco sadias de viver esta culpa. A pessoa se fecha em sua indignidade, fomenta sentimentos infantis de mancha e sujeira, destrói sua autoestima e se anula. O indivíduo se atormenta, se humilha, luta consigo mesmo, mas no final de todos os seus esforços não se liberta nem cresce como pessoa.

O próprio do cristão é viver sua experiência de culpa perante um Deus que é amor e somente amor. O crente reconhece que foi infiel a esse amor. Isto dá à sua culpa um peso e uma seriedade absoluta. Mas ao mesmo tempo o liberta do naufrágio, pois sabe que, mesmo sendo pecador, é aceito por Deus: nele pode encontrar sempre a misericórdia que salva de toda indignidade e fracasso.

De acordo com o relato, Pedro, acabrunhado por sua indignidade, se lança aos pés de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador”. A resposta de Jesus não podia ser outra: “Não temas”, não tenhas medo de ser pecador e de estar perto de mim. Esta é a sorte do crente: sabe-se pecador, mas sabe-se ao mesmo tempo aceito, compreendido e amado incondicionalmente por esse Deus revelado em Jesus.

Pescar com Jesus: Igreja em missão

Pe. Johan Konings

O evangelho narra a vocação de Pedro, que ainda se chama Simão, para colaborar com Jesus. Passou a noite no lago sem apanhar nada. Na manhã seguinte, Jesus passa por aí. É o pior momento para pescar. Ainda assim, Jesus manda que lance novamente as redes. E, por incrível que pareça, Simão apanha tanto peixe que as redes começam a ceder e a barca aguenta o peso! Sente que algo extraordinário está acontecendo em sua vida. Como o profeta Isaías na presença do Senhor (1ª  leitura), também Simão se sente pequeno e pecador. Joga aos pés de Jesus, que lhe faz compreender a lição do acontecimento: em vez de se esforçar inutilmente e por conta própria, Simão vai ter de pescar com Jesus! E em vez de peixes, vai apanhar gente para o Reino de Deus. Será pescador de homens, apóstolo.

Que é ser apóstolo? Essa palavra de origem grega significa missionário. O espírito do apóstolo-missionário é a disposição para pescar com Jesus. “Eis-me aqui”, disse o profeta Isaías (1ª leitura). O evangelho mostra que essa disponibilidade se prepara na vida real. Até pescar pode ser uma boa preparação.

E qual é o conteúdo dessa missão, mostra-o a 2ª  leitura: o anúncio de Cristo morto e ressuscitado. Olhem só como Paulo, apóstolo de “segunda safra”, assume essa missão com a força! Para pescar na empresa de Jesus precisamos transmitir o que recebemos a seu respeito, a mensagem de sua vida, morte e ressurreição. Esta é o núcleo central do apostolado missão, da pastoral. Mas, para sermos escutados, talvez devamos abordar o assunto por outro lado, mais próprio da situação das pessoas. Pescaria, por exemplo. Ou futebol. Ou os problemas que afligem as pessoas. (Por isso, importa sermos sensíveis a esses problemas.)

De toda maneira, devemos chegar a comunicar que Jesus por sua vida e morte nos mostrou quem é Deus e qual é o sentido de nossa vida e de nossa história: amor até o fim, dom da vida. Transmitir isso é o que se chama a “tradição” cristã, a memória de Cristo que devemos manter viva (o sentido verdadeiro da palavra “tradição” é “transmissão”, não imobilidade; “vida”, não esclerose).

Essa história de Jesus valerá a pena reunir pessoas para escutá-la? Não a considerarão uma fábula? Pois bem, exatamente porque muitos estão sendo levados pelo materialismo e pelo pragmatismo, é preciso dizer-lhes que vale a pena viver para os outros e morrer por amor e fidelidade. Jesus é a prova disso: ele é a ressurreição, a vida através da morte por amor, a vitória sobre o pecado e a injustiça.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella