Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

6º Domingo do Tempo Comum

6º Domingo do Tempo Comum

Do “confiar” ao “confiar-se”: caminho de uma vida toda

 

Frei Gustavo Medella

“É feliz quem a Deus se confia”, reza o estribilho do Salmo 1 na Liturgia deste 6º Domingo do Tempo Comum. O caminho da fé é marcado por um percurso gradativo que o ser humano faz e, à medida que amadurece, adquire estágios que vão se robustecendo em qualidade e intensidade. Na sua relação com Deus, a pessoa é chamada a dar passos, muitos deles marcados pela ousadia. O convite é que, a partir do “reconhecer” a existência de Deus, o ser humano passe a “confiar em Deus” para, finalmente, “confiar-se” a Deus.

Reconhecer a existência

É um exercício muito mais do intelecto do que do coração. Pertence ao âmbito informacional de quem “já ouviu falar” ou “sabe quem é”. Pode ou não tender ao cultivo de uma proximidade maior. Apesar de externar um vínculo frágil, mais ou menos distante, é um primeiro passo fundamental para que haja um amadurecimento no processo da fé. Mais do que “provar” a existência de Deus, o exercício próprio para atrair as pessoas nesta etapa do caminho é o de apresentá-Lo através de Jesus Cristo, com a Palavra e, principalmente, com o testemunho que se espera quem se diz discípulo do Senhor.

Confiar

É um passo a mais no caminho. Trata-se de um aprofundamento na vida de fé onde, para além de reconhecer a existência, aquele que crê percebe em Deus uma presença efetiva em sua vida. No entanto, neste estágio, a pessoa ainda se coloca como centro do processo e da caminhada e passa a enxergar em Deus alguém que pode realizar seus planos pessoais, ajudá-la a vencer os obstáculos, proporcionar a satisfação de seus desejos.

Confiar-se

Aí está o grande salto do caminho. O crente, nesta fase, percebe que Deus é o verdadeiro centro de sua vida e existência e que o sentido da verdadeira felicidade está em colocar-se no caminho das Bem-Aventuranças, sem tanta preocupação do que pode ou não acontecer à sua vida. Ainda que seja injustiçado, que sofra violências e privações, o mais importante é saber que no centro deste projeto está o Reino de Deus instaurado por Jesus, onde a paz, a justiça, o equilíbrio e o respeito se fazem regra geral. É um passo de muita ousadia, uma meta que, com frequência, leva uma vida toda para se tentar alcançar. No entanto, é nesta direção que a comunidade cristã deve caminhar, no desejo de que, junto ao Ressuscitado, todos façam parte do número daqueles que “foram felizes por que a Deus se confiaram”.

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Jr 17,5-8

5Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada.

7Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; 8é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade; por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos”.

Responsório (Sl 1)

— É feliz quem a Deus se confia!

— É feliz quem a Deus se confia!

— Feliz é todo aquele que não anda/ conforme os conselhos dos perversos;/ que não entra no caminho dos malvados,/ nem junto aos zombadores vai sentar-se;/ mas encontra seu prazer na lei de Deus/ e a medita, dia e noite, sem cessar.

— Eis que ele é semelhante a uma árvore,/ que à beira da torrente está plantada;/ ela sempre dá seus frutos a seu tempo,/ e jamais as suas folhas vão murchar./ Eis que tudo o que ele faz vai prosperar.

— Mas bem outra é a sorte dos perversos./ Ao contrário, são iguais à palha seca/ espalhada e dispersada pelo vento./ Pois Deus vigia o caminho dos eleitos,/ mas a estrada dos malvados leva à morte.

Segunda Leitura: 1Cor 15,12.16-20

Irmãos: 12Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer entre vós que não há ressurreição dos mortos? 16Pois, se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou. 17E se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem nenhum valor e ainda estais nos vossos pecados. 18Então, também os que morreram em Cristo pereceram.

19Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, nós somos — de todos os homens — os mais dignos de compaixão. 20Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram.

Evangelho: Lc 6,17.20-26

Naquele tempo, 17Jesus desceu da montanha com os discípulos e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia.

20E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!

21Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados!

Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!

22Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem! 23Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas.

24Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! 25Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas! 26Ai de vós quando todos vos elogiam! Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas”.

Comentários de Frei Ludovico Garmus

6º Domingo do Tempo Comum

 Oração: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

  1. Primeira leitura: Jr 17,5-8

Maldito o homem que confia no homem;

feliz o homem que confia no Senhor.

O texto da primeira leitura é uma crítica a Sedecias, o último rei de Judá (597-587 a.C.). Jerusalém já tinha sido conquistada por Nabucodonosor, rei de Babilônia. Conquistada a cidade, Nabucodonosor depôs o rei Joaquin (Jeconias) e o exilou com a classe dirigente para Babilônia. Em seu lugar colocou Sedecias como rei. Passados alguns anos, Sedecias, seguindo a voz de seus conselheiros, tramava uma revolta contra Babilônia, contando com a promessa de apoio do Egito. O profeta Jeremias, em nome de Deus, dizia que trair o rei da Babilônia era assinar a sentença de morte contra Judá e Jerusalém. Mas, submeter-se aos babilônios era a única saída para salvar da ruína a nação e seu povo (Jr 27,1-8). Neste contexto situam-se as palavras de Jeremias. O profeta critica o rei, ameaçando-o com as maldições do livro do Deuteronômio. Sedecias deixou de confiar em Deus, para confiar nos conselhos dos homens; com isso atraiu sobre a nação as maldições previstas na Lei. Colocar a confiança nos homens era apostar no deserto, sem água e sem vida: “Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas rachadas, que não podem conter água. A bênção, porém, está com quem confia no Senhor. Este é comparado a uma árvore plantada junto às águas: ela sempre terá as folhas verdes e produzirá frutos (Salmo responsorial).

Em quem depositamos nossa confiança? Qual é a minha fonte de água viva?

Salmo responsorial: Sl 1

É feliz quem a Deus se confia!

  1. Segunda leitura: 1Cor 15,12.16-20

Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã.

No cap. 15, Paulo procura responder à pergunta da comunidade de Corinto: Que relação tem a ressurreição de Cristo com a nossa ressurreição? No judaísmo do tempo de Jesus, os fariseus acreditavam na ressurreição, mas os saduceus não. Quando, em Atenas, Paulo tentava anunciar como grande novidade que Jesus de Nazaré morreu crucificado, mas ao terceiro dia ressuscitou e que nós também vamos ressuscitar, alguns começaram a zombar dele e disseram: “A este respeito te ouviremos noutra ocasião” (At 17,32-34). Para os ouvintes pagãos era, portanto, mais difícil acreditar na ressurreição após a morte. Que o fundador de uma nova religião tivesse ressuscitado era até aceitável; seria parte de um mito… Decepcionado com Atenas que recebeu mal o Evangelho, Paulo chega a Corinto e muda o tom de sua pregação e insiste mais na humanidade de Cristo: “Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos…” (1Cor 1,22-23). A âncora da fé na ressurreição se fixa na humanidade do Filho de Deus encarnado e no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Assumindo a nossa carne, Deus se fez solidário conosco. Partindo da dúvida dos coríntios, assim argumenta o Apóstolo:

  • Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou.
  • Se Cristo não ressuscitou, nossa fé não vale nada e ainda não recebemos o perdão dos pecados.
  • Se Cristo não ressuscitou, os que morreram em Cristo não foram salvos.
  • Por que cremos na ressurreição? – Se colocamos nossa esperança em Cristo só para esta vida, entre todos os homens, somos os mais dignos de compaixão.
  • Realidade da fé: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”.

Aclamação ao Evangelho

Ficai muito alegre, saltai de alegria,

pois, tendes um prêmio bem grande nos céus.

Ficai muito alegres, saltai de alegria. Amém, aleluia, aleluia.

  1. Evangelho: Lc 6,17.20-26

Bem-aventurados os obres. Ai de vós, ricos.

Na cena anterior (v.12-16), Jesus tinha subido com os discípulos a uma montanha, onde passou a noite em oração. De manhã Jesus chamou-os e escolheu doze dentre eles e os chamou de apóstolos. Para Lucas, a montanha é o lugar do encontro com Deus e das decisões mais importantes. O evangelho de hoje quer mostrar que, dentre os muitos discípulos que o seguiam, Jesus escolhe doze para acompanhá-lo sempre na missão. Jesus desce com os companheiros até a planície, porque é lá que a missão acontece. Eles serão enviados em missão (Lc 9,1-6), junto com outros 72 discípulos (Lc 10,1-20). A esses apóstolos e discípulos/discípulas Jesus se dirige no seu sermão, bem como a uma multidão de pessoas, vindas da Judeia, de Tiro e Sidônia. É o “sermão da planície”, correspondente ao “sermão da montanha” de Mateus. Mateus dedica três capítulos ao “sermão da montanha” (cap. 5 a 7) enquanto Lucas se um (cap. 6). Isso porque, em Lucas, Jesus ensina na viagem da Galileia para Jerusalém (Lc 9,51–19,28) e no caminho para Emaús (24,13-35; cf. At 8,26-40).

As bem-aventuranças constituem o núcleo central da mensagem do Evangelho. Jesus levanta os olhos e se dirige a cada pessoa da multidão de ouvintes, usando o plural “vós”. Na multidão Jesus vê gente pobre e faminta, gente que chora. Olha para o futuro e vê cristãos odiados e sendo expulsos das sinagogas, insultados e amaldiçoados “por causa do Filho do Homem”. Os pobres são chamados felizes, os famintos serão saciados, os que choram haverão de rir, os que são odiados e perseguidos por causa do nome de Jesus são convidados a alegrar-se porque deram testemunho de sua fé e serão recompensados no céu. Em Lucas são quatro bem-aventuranças – em Mateus são oito. Em Lucas, às quatro bem-aventuranças correspondem quatro maldições: pobres X ricos; os famintos x e os que tem fartura; os que choram X e os que estão sempre em festa; os que são difamados X e os que são elogiados. O Evangelho nos coloca diante de dois caminhos: o do seguimento de Jesus Cristo ou o da sua rejeição. Não se pode permanecer indiferente diante de Jesus Cristo (Lc 2,34; 10,10-16; 12,49-53). Ou se é a favor ou se é contra: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16,13).

Frei Ludovico Garmus, OFM

Uma felicidade aparentemente às avessas

Frei Almir Guimarães 

Abraçar diariamente o caminho do Evangelho, mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade.

Papa  Francisco, Gaudete et  Exsultate, n. 94

>> Jeremias, na primeira leitura deste domingo, nos lembra que o homem que confia no Senhor é como uma planta viçosa, localizada perto de um curso de água. Nada teme. Caminha impassível pela vida. De outro lado, os que confiam apenas em seus próprios recursos e possibilidades não veem chegar a floração. Plantas que murcham.

>> No evangelho proclamado, mais uma vez a página da felicidade, dos bem-aventurados, desta vez na versão de Lucas. Não se trata aqui do Sermão da Montanha. Lucas afirma que Jesus desceu da montanha e parou num lugar plano. Uma fala sobre a felicidade em quatro registros: os pobres, os famintos e sedentos, os que choram, os que são odiados, perseguidos ou não levados em consideração. O Sermão da Planície de Lucas.

>> “A escuta singela das bem-aventuranças provoca sempre em nós um eco especial. Por um lado seu tom fortemente paradoxal nos desconcerta. Por outro, a promessa que encerram nos atrai, porque oferecem a resposta a essa sede que existe no mais profundo de nosso ser. Nós, cristãos, esquecemos que Evangelho é um chamado a ser felizes. Não de qualquer maneira, mas pelos caminhos que Jesus sugere e que são completamente diferentes dos caminhos que a sociedade atual propõe. Este e seu maior desafio” (Pagola,  Lucas, p.105).

>> Bem-aventuados os que têm um espírito de pobreza – Pobre é a  pessoa livre para  Deus e para os outros. É aquele que foi se libertando de complacências, vaidades, das exigências do homem velho, sempre chorão, reclamão. Serão bem-aventurados no mundo novo do Reino as pessoas que forem despojadas, que não se  importam de não terem sido chamadas a sentar à mesa da presidência. Pobres, desapegados. O Evangelho pede que sejamos pessoas avessas à ostentação,  vacinadas a comprometimentos que nos apequenam. Desapegados de ideias feitas, mesmo de hábitos, principalmente de suas manias. Os pobres, os que não estão preocupados demais com vantagens mostram uma excelente qualidade de atenção aos outros. São pessoas adoráveis. Já estão na ante sala do mundo novo que se chama Reino. São seus herdeiros.

>> O  futuro pertence aos pobres. O futuro que Deus promete não pertence aos que já chegaram, mas aos que ainda nem partiram. Pertence aos pobres. Apenas eles são os que esperam alguma coisa ou alguém. Os ricos nada têm a esperar do amanhã. Têm tudo. Nada mais lhes resta senão o medo: medo de perder, medo de que falte alguma coisa, medo de serem esquecidos, medo de ficarem sozinhos. Não têm outro destino senão a sepultura. Os pobres já estão no processo de ressurreição para a Vida. Usam vestes de esperança.

>> Bem-aventurados os que têm fome e sede – Podemos pensar nos que têm o estomago vazio e a garganta seca. Este, no entanto, não pode ser o verdadeiro sentido da bem-aventurança. Há pessoas satisfeitas com tudo. Com as coisas que fazem e os bens que possuem. Seus armários e suas contas bancárias são garantia. Felizes os que experimentam na garganta  uma sede de Deus. Não de um Deus feito na medida de seus interesses e necessidades individuais, mas sede  do Mistério de Amor que vem  encher-nos de plenitude. Na vida da fé e no processo de humanização são felizes aqueles que sentem necessidade do alimento da amizade, do nutrimento da Palavra. Aqueles que não estão satisfeitos com os passos dados e por vezes mal dados. Têm saudade de plenitude e um desejo de serem santos.

>> Fome de justiça…  O Papa  Francisco:  “Fome e sede” são experiências muito intensas, porque correspondem às necessidades primárias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. Há pessoas que, com esta mesma intensidade, aspiram pela justiça e buscam-na com um desejo assim forte. Jesus diz que elas serão saciadas, porque a justiça, mais cedo ou mais tarde, chega e nós podemos torná-lo possível, embora nem sempre vejamos os resultados deste compromisso (“Gaudete et Exsultate”, n. 77).

>> Bem-aventurados os que choram… –  Eles haverão de rir. Deus se torna próximo daqueles que sofrem, quaisquer que sejam eles. A todos traz consolo, sem discriminação, pobres ou ricos. Jesus se compadeceu da dor da viúva de Naim, sofreu com as irmãs com morte de Lázaro. As lágrimas dão a entender que alma não se tornou insensível nem de estratificou. Somos convidados a chorar com os que choram, a nos compadecer, quer dizer sofrer com os que sofrem. Há lágrimas dolorosas.  Há outras lágrimas que são de gratidão e de alegria.

>> Jesus fala de uma alegria prometida aos que choram. O Papa Francisco assim se exprime: “A pessoa que, vendo as coisas, como realmente estão, se deixa trespassar pela aflição e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz. Esta pessoa é consolada, mas com a consolação de Jesus e não com a do mundo. Assim pode ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio, e deixa de fugir de situações dolorosas. Desta forma,  descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro em sua aflição, compreendendo a angústia alheia, aliviando o outros. Esta pessoa sente que o outro é carne de sua carne, não teme aproximar-se até  tocar a sua ferida, compadece-se até sentir que as distâncias são superadas. Assim, é possível acolher aquela exortação de São Paulo: “Chorai com os que choram (Rm 12,15 (Gaudete et Exsultate, n. 76).

>> Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem – Há pessoas que são odiadas porque seu testemunho incomoda. Elas são um grito que penetra os corações dos que foram se acomodando com a mediocridade. Há aquelas que não são levadas em consideração, que podem morrer ou desaparecer que não serão notadas, às quais nunca nada se pede nem mesmo seu parecer. Felizes os que defendem a verdade, salvam os inocentes. Os perseguidos têm em seu rosto fortes traços de Jesus.

>> De acordo com Jesus é melhor dar do que receber, é melhor servir do que dominar, compartilhar do que ajuntar, perdoar do que vingar-se. Quando procuramos ouvir sinceramente o que de melhor há em nós intuímos que Jesus tem toda razão.  As bem-aventuranças constituem a chave da  felicidade.

Oração

Ensina-nos, Senhor, a viver o espírito das bem-aventuranças,
chaves de ouro, chaves da verdade
Ensina-nos a distinguir, graças a elas,
o Essencial do acessório,
o Importante do irrisório,
o Eterno do efêmero,
o Primordial do secundário.
Livra-nos de todos os medos;
medo de perder um privilégio,
medo de falhar, medo de  sofrer.
Assim poderemos nos entregar  totalmente
às bem-aventuranças e entrar em teu Reino de Amor.
Amém.

Levar a sério os pobres

José Antonio Pagola

Acostumados a ouvir as “bem-aventuranças” tal como aparecem no evangelho de Mateus, torna-se duro aos cristãos dos países ricos ler o texto que Lucas nos apresenta. Ao que parece, este evangelista – e não poucos de seus leitores – pertencia a uma classe abastada. No entanto, longe de suavizar a mensagem de Jesus, Lucas a apresenta de maneira mais provocativa.

Junto com as “bem-aventuranças” aos pobres, o evangelista recorda as “mal-aventuranças” aos ricos: “Felizes os pobres [ … ] os que agora tendes fome [ … ] os que agora chorais” Mas, “ai de vós, os ricos [ … ] os que agora estais saciados [ … ] os que agora rides”. O Evangelho não pode ser ouvido de maneira igual por todos. Enquanto para os pobres é uma Boa Notícia que os convida à esperança, para os ricos é uma ameaça que os chama à conversão. Como ouvir esta mensagem em nossas comunidades cristãs?

Antes de mais nada, Jesus nos põe a todos diante da realidade mais sangrenta que existe no mundo, a que mais o faz sofrer, a que mais toca o coração de Deus, a que está mais presente diante de seus olhos. Uma realidade que, a partir dos países ricos, nós procuramos ignorar, encobrindo de mil maneiras a injustiça mais cruel, da qual em boa parte nós somos cúmplices.

Queremos continuar alimentando o auto-engano ou abrir os olhos para a realidade dos pobres? Temos realmente vontade? Levamos alguma vez a sério essa imensa maioria dos que vivem desnutridos e sem dignidade, dos que não têm voz nem poder, dos que não contam para nossa trajetória rumo ao bem-estar?

Nós, cristãos, ainda não descobrimos a importância que os pobres podem ter na história do cristianismo. Eles nos trazem mais luz do que ninguém para ver-nos em nossa própria verdade; eles sacodem nossa consciência e nos convidam à conversão. Eles podem ajudar-nos a configurar a Igreja do futuro de maneira mais evangélica. Podem tornar-nos mais humanos: mais capazes de austeridade, solidariedade e generosidade.

o abismo que separa ricos e pobres continua crescendo de maneira incontrolável. Futuramente será cada vez mais difícil apresentar-nos diante do mundo como Igreja de Jesus, ignorando os mais fracos e indefesos da Terra. Ou levamos a sério os pobres ou esquecemos o Evangelho. Nos países ricos ser-nos-á cada vez mais difícil ouvir a advertência de Jesus: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Isto se nos tornará insuportável.

Felizes os pobres!

Pe Johan Konings

O Sermão da Planície do evangelho de Lucas (Lc 6) traz, de forma abreviada, a mesma mensagem que o Sermão da Montanha de Mateus (Mt 5-7). O evangelho nos apresenta Jesus anunciando com alegria a boa-nova aos pobres: “Felizes vós, os pobres, porque o Reino de Deus é vosso”. Nada demais. Até o presidente do FMI fica comovido quando os pobres são felizes. O problema é que Jesus fala o contrário para os ricos: “Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação”. Os ricos já receberam seu prêmio e agora perdem sua vez … (cf. a 1ª leitura: “Infeliz de quem coloca sua confiança em outro homem e se apoia no ser mortal, enquanto seu coração se desvia de Deus”).

O contraste entre ricos e pobres na boca de Jesus nos ajuda a entender melhor o que é esse Reino de Deus que ele vem anunciar. É o contrário do reino dos homens, o contrário daquilo que os ricos já têm. Eles possuem o que se apropriaram por caminhos humanos (nem sempre muito retos): riqueza, poder, prazer. Coisas passageiras, que, contudo, chegaram a ocupar todo o tempo e imaginação dos que pensam possuí-las, enquanto são por elas possuídos. Basta qualquer revés, um processo por sonegação, uma comparsa que fale demais … basta algo tão tremendamente comum como a morte, para que percam tudo o que tinha valor para eles. Infelizes …

O que Jesus agora anuncia aos pobres é o contrário: vem de Deus, não dos homens. Porque os pobres ainda não se encheram com as suas próprias conquistas, tem valor para eles o “Reino de Deus”, o dom de Deus, o “sistema de Deus”. Que sistema? Aquilo que Jesus anuncia e pratica: fraternidade, comunhão da vida, dos bens materiais e espirituais, partilha de tudo. É aquilo que Jesus, no evangelho, ensina aos seus discípulos: superar o ódio pelo amor, aperfeiçoar a “Lei” pela solidariedade, repartir os bens, e até sofrer por causa de tudo isso. Pois também para os que sofrem e são perseguidos há uma bem-aventurança.

Mas a nossa sociedade vai pelo caminho contrário. A propaganda e o consumismo incutem nas pessoas a mania do rico, do eterno insatisfeito. Os pobres se tornam solidários com os ricos, aderem às suas novelas, modas e compras inúteis. Não é esta a boa notícia do evangelho, e sim, o “ai” proclamado por Jesus.

A diferença entre os pobres e os ricos não é que uns sejam melhores que os outros, mas que a esperança dos pobres, quando não corrompidos, vai para as coisas que vêm de Deus, enquanto os ricos facilmente acham que vão se realizar com aquilo que eles têm em seu poder. Que experimentem … Ou então, que participem da esperança dos pobres e se tornem solidários com eles.

A esperança do reino supera a vida material. É a esperança que se baseia no Cristo ressuscitado (2ª  leitura): “Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais lamentáveis de todos!” Aquele que se tornou pobre para nós é que nos enriquece com a dádiva do amor infinito do Pai, que ele revela no dom da própria vida. O reino que Jesus anuncia aos pobres, decerto, começa com a justiça e a fraternidade, mas tem um horizonte que nosso olhar terreno nunca alcança!

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella