Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

8º Domingo do tempo comum

8º Domingo do Tempo Comum

“Tava” na peneira…

 

Frei Gustavo Medella

“Tava na peneira, eu tava peneirando. Tava no namoro, eu tava namorando”. Na peneira e no namoro, o ir e vir do movimento permite a purificação, da farinha e das intenções, do essencial e do acessório, do duradouro e do passageiro. Peneirar é discernir, diz o Eclesiástico: “Quando a gente sacode a peneira, ficam nela só os refugos; assim os defeitos de um homem, aparecem no seu falar” (Eclo 27,5).

Nas palavras ditas e reditas, o ser humano revela muito sobre si e sobre seu mundo interior. Balançado pelas peneiras da vida, o cristão também se sente provocado a fazer escolhas, a reafirmar posições e a purificar motivações. Para não sucumbir ou desanimar diante da intensidade das chacoalhadas, a valiosa orientação de São Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, empenhando-vos cada vez mais na obra do Senhor, certos de que vossas fadigas não são em vão, no Senhor” (1Cor 15,58).

No Evangelho, Jesus garante que todos têm um verdadeiro tesouro no coração. A tarefa do cristão, portanto, é promover dentro de si um garimpo arqueológico à luz do Espírito, uma “autopeneirada” atenta e comprometida para tirar “coisas boas do próprio coração” (Cf, Lc 6,45). Na vida comunitária, no ir e vir dos relacionamentos, até mesmo os “esbarrões” podem servir como oportunidades valiosas para purificar a qualidade do discipulado a que cada um se propõe. Evangelizar é também despertar em si e nos outros a disposição para tirar cada vez mais de dentro do coração aquilo que cada um traz de melhor.

 

Textos bíblicos para a liturgia deste domingo

1ª Leitura: Eclo 27,5-8

5Quando a gente sacode a peneira, ficam nela só os refugos; assim os defeitos de um homem, aparecem no seu falar.
6Como o forno prova os vasos do oleiro, assim o homem é provado em sua conversa. 7O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem. 8Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar; pois é no falar que o homem se revela.

Responsório: Sl 91

— Como é bom agradecermos ao Senhor!

— Como é bom agradecermos ao Senhor!

— Como é bom agradecermos ao Senhor e cantar salmos de louvor ao Deus Altíssimo! Anunciar pela manhã vossa bondade, e o vosso amor fiel, a noite inteira.

— O justo crescerá como a palmeira, florirá igual ao cedro que há no Líbano; na casa do Senhor estão plantados, nos átrios de meu Deus florescerão.

— Mesmo no tempo da velhice darão frutos, cheios de seiva e de folhas verdejantes; e dirão: “É justo mesmo o Senhor Deus: meu Rochedo, não existe nele o mal!”

2ª Leitura: 1Cor 15,54-58

Irmãos: 54Quando este ser corruptível estiver vestido de incorruptibilidade e este ser mortal estiver vestido de imortalidade, então estará cumprida a palavra da Escritura: “A morte foi tragada pela vitória; 55 Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?”56 O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado e a força do pecado é a Lei.57 Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória pelo Senhor nosso, Jesus Cristo.58 Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, empenhando-vos cada vez mais na obra do Senhor, certos de que vossas fadigas não são em vão, no Senhor.

Evangelho: Lc 6,39-45

Naquele tempo, 39Jesus contou uma parábola aos discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? 40Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. 41Por que vês o cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? 42Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando não percebes a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. 43Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons.44Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas. 45O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”.

 

Comentários exegéticos de Frei Ludovico Garmus

8º Domingo do Tempo Comum, ano C

Oração: “Fazei, ó Deus, que os acontecimentos deste mundo decorram na paz que desejais, e vossa Igreja vos possa servir, alegre e tranquila”.

  1. Primeira leitura: Eclo 27,5-8 (gr. 4-7)

Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar.

A primeira leitura do 8º Domingo do Tempo Comum traz uma reflexão típica dos livros chamados sapienciais. O livro foi escrito pelo ano 200 a.C., antes da revolta dos Macabeus (167 a.C.). Os livros sapienciais preocupam-se em apontar caminhos para uma vida feliz, através de um bom relacionamento com Deus, fonte da sabedoria, com o próximo e com os bens deste mundo. Esses livros recolhem sentenças dos sábios de seu tempo e de coleções de provérbios do passado, tanto de Israel como de outros povos. Na Bíblia a coleção mais famosa de provérbios é atribuída a Salomão e se encontra no livro dos Provérbios. Sabemos por experiência que o bom relacionamento com as pessoas depende muito de como usamos da palavra. Palavras sábias constroem pontes, fortalecem amizades, edificam o amor. Uma simples palavra inoportuna é capaz de minar a confiança entre as pessoas e arruinar amizades. Quanto mal fazem as calúnias e “fofocas” – denuncia o Papa Francisco – nas famílias, nas comunidades de fé, na vida política e até mesmo no seio da Igreja.

O texto de hoje concentra-se na figura do homem sábio e no seu oposto, o homem estulto, que são reconhecidos pelo conteúdo da conversa e o modo de falar. Os exemplos dados são frutos da observação do homem sábio. O primeiro exemplo vem do trabalho do agricultor que sacode a peneira para separar os grãos de trigo da palha. A ação de sacudir a peneira é comparada com o falar da pessoa; os defeitos da pessoa faladora se comparam à palha que é refugada. O segundo caso compara o trabalho do oleiro que molda vasos e os submete ao fogo: os vasos bons saem do forno sem defeito e os ruins aparecem trincados pelo calor do fogo  e são rejeitados (cf. Jr 18,1-4); assim a pessoa se revela pelo calor da fala: “Toda árvore é conhecida pelos seus frutos” (Evangelho). – “A palavra revela o coração do homem” (v. 7) e “a boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12,34).

O conteúdo de minhas conversas constrói laços de amizade e de amor na família e na comunidade ou os destrói?

Salmo responsorial: Sl 91

Como é bom agradecermos ao Senhor.

  1. Segunda leitura: 1Cor 15,54-58

A vitória foi-nos dada por Jesus Cristo.

No 7º domingo Paulo fez uma comparação entre o primeiro Adão, que recebeu a vida de Deus (ser vivo) e o “novo Adão”, Jesus Cristo, Aquele que nos dá a vida nova. Do primeiro Adão herdamos a vida mortal e o pecado. Do novo Adão, “espírito vivificante”, recebemos o perdão dos pecados e nos tornamos uma nova criatura, participantes de sua ressurreição. A fé na ressurreição de Jesus e na ressurreição dos que nele creem é que enche o coração de alegria e esperança. Hoje, movido pela esperança, Paulo nos projeta para o futuro, quando “o ser mortal será revestido de imortalidade”; quando a morte, causada pelo pecado, será vencida pela vida. Agradece a Deus porque Ele nos dá a vitória sobre a morte e o pecado, graças à morte e ressurreição de seu Filho Jesus Cristo. Por fim, o Apóstolo conclui convidando a todos nós a empenhar-nos na obra do Senhor, movidos pela mesma fé. O cristão jamais vive como um derrotado, mas como alguém vitorioso, pela fé e alegre esperança no Senhor Jesus.

Aclamação ao Evangelho: Fl 2,15d-16a

Como astros no mundo vós resplandeceis,

mensagem de vida ao mundo anunciando;

da vida, a palavra, com fé proclamais,

quais astros luzentes no mundo brilhais!

  1. Evangelho: Lc 6,39-45

A boca fala do que o coração está cheio.

O evangelho de hoje faz parte do “sermão da planície” de Lucas, que corresponde ao “sermão da montanha” de Mateus. Entre os ouvintes estão os apóstolos e discípulos de Jesus, além de uma multidão de povo proveniente de Jerusalém, de Tiro e de Sidônia (Lc 6,47). Quando Lucas escreve as palavras de Jesus, pelo ano 80 d.C., os conselhos de Jesus se dirigem aos judeus convertidos e, sobretudo, aos pagãos que acolheram a fé em Cristo Jesus. São orientações tanto para os dirigentes da comunidade como para os irmãos de fé. O texto contém quatro pequenas comparações ou parábolas: parábola dos dois cegos (v. 39-40), parábola do cisco e da trave (v. 41-42), parábola da árvore (v. 43-44) e parábola do tesouro (v.45). A parábola dos dois cegos ensina que a pessoa iluminada por Cristo é que está preparada para ser luz no caminho de outros, ainda não iluminados pela fé (cegos). O cristão, antes de se tornar mestre, deve ser discípulo. Isso, porém, não pode servir de desculpa para dizer: “eu não estou preparada para ser catequista”! Por outro lado, da parte de quem procura uma orientação na vida cristã se exige discernimento para não escolher um guia tão “cego” quanto ele.

A parábola do cisco e trave no olho, por um lado, está ligada à afirmação que precede o evangelho de hoje: “Não julgueis e não sereis julgados” (v. 37); por outro lado está ligada também à parábola dos dois cegos (olho!). Lucas refere-se aos que, na comunidade cristã, vivem criticando os outros; veem defeitos no próximo, mas não enxergam os seus defeitos, muito maiores.

A terceira parábola traz o exemplo da árvore e de seus frutos. A gente conhece uma árvore boa ou má pelos frutos que produzem, bons ou ruins. Qualquer árvore frutífera precisa ser bem cuidada para produzir frutos bons. Deus é paciente com todas as pessoas. Dá sempre um tempo a mais, como Lucas explica na parábola da figueira estéril (Lc 13,6-9). Precisamos desta paciência divina na vida de nossas comunidades; cuidando com carinho e amor uns aos outros, os bons frutos virão a seu tempo. Sejamos misericordiosos como Deus é misericordioso e paciente como Deus é paciente.

Por fim, o evangelho se conclui com a parábola do tesouro escondido no coração (1ª leitura) de cada pessoa. Se nosso tesouro no coração estiver cheio do amor de Deus, de nossa boca fluirão palavras de bondade. Se o tesouro estiver vazio de Deus repleto de maldades, da boca sairão apenas maldades. – Abramos as portas de nosso coração para que Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, ali possa fazer a sua morada (Jo 14,23).

 

Olhar com os olhos do Mestre

Frei Clarêncio Neotti

O primeiro ‘olho’ está ligado ao que vem dito antes e ao que vem dito depois. Antes, Jesus ensinara: não julgueis, não condeneis, absolvei, dai (Lc 6,37-38). Dois verbos em forma negativa e dois em forma positiva. Ao ‘julgar’ corresponde o ‘absolver’. Ao ‘condenar’ corresponde o ‘dar’. O que vem depois (v. 40) diz respeito ao discípulo que deve ser como o mestre.

A lição de Jesus: olhar Jesus, reconhecê-lo como Mestre e modelo, contemplar a sua misericórdia, que é encarnação da Misericórdia do Pai celeste. Olhando Jesus, nosso olho se ilumina.

Como não lembrar, nesse contexto de perdão misericordioso, a todos, incluindo os inimigos, a passagem de João: “Quem ama o irmão está na luz e não é pedra de tropeço. Quem não ama o irmão está nas trevas e anda nas trevas sem saber para onde ir, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2,10-11)?

Se olharmos com os olhos do Mestre, aprenderemos com ele a não julgar ninguém nem mesmo aqueles que com toda evidência são culpados, como foi o caso dos carrascos no Calvário (Lc 23,34). Aprenderemos a não condenar ninguém, nem mesmo a adúltera pega em flagrante (Jo 8,3-11). O dever do discípulo é ser perfeito como o mestre, é ver pessoas e fatos com os olhos de Jesus-misericórdia.

Do que brota do fundo do coração

Preciosas pérolas de sabedoria

Frei Almir Guimarães

Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvores ruim que dê frutos bons. Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos (Lc 6, 44)

>> Buscar a verdade é meta de nossa existência. Não apenas uma verdade intelectual e cerebral, mas verdade existencial. Ela estaria no mais íntimo de nós mesmos. As aparências enganam. Ritos e rezas, práticas e prescrições religiosas e morais têm seu valor quando partem do mistério interior da vida da pessoa. As aparências podem enganar e enganam de fato. Os bons frutos são produzidos por árvores boas, pessoas transparentes, verazes. Tudo a partir do coração.

>> A primeira leitura da liturgia deste domingo tem um tom sapiencial. Nas poucas linhas hoje proclamadas o autor sagrado afirma que é pelo falar que se conhece o homem. O forno prova os vasos do oleiro. O homem é provado por sua conversa, por sua fala. O fruto revela como foi cultivada a árvore. Desta maneira, a palavra mostra o coração do homem. Isso pode acontecer e acontece. Nem sempre, é verdade, a fala mostra a verdade do interior. O homem pode usar um jeito tal de falar que esconda quem de fato ele é. Em princípio pode-se dizer que pela conduta, pelos gestos, pelo exemplo alguém pode revelar quem ele é de fato. Há alguma coisa da luz interior do homem que vem à tona. Há uma recomendação do Sábio: “Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar, pois é no falar que o homem se revela”. O homem, no entanto, não se exprime somente pela fala da voz. Fala com todo o seu corpo, seu olhar, a perseverança de seus propósitos. Nada de elogios desmedidos antes da hora.

>> O trecho do evangelho de Lucas nos remete para nossa verdade mais íntima, para o coração, para nosso ser mais profundo que chamamos precisamente de coração. “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro de seu coração. Mas o homem mau tira coisas más de seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”. É de dentro, do interior de nossas entranhas que partem o bem e o mal. O importante será cultivar as dimensões interiores de nossa vida. Ter a sabedoria de um coração reto e generoso.

>> Sair da superficialidade, não basear a vida em coisas acidentais e em resultados aparentemente brilhantes. Seremos pessoas profundas na medida em que procuramos o “lugar do coração”. Um pequeno e antigo fascículo da Ordem do Frades Menores (2003) falava do caminho que leva ao lugar do coração. Seus autores se dirigiam aos frades menores exortando-os a viver a partir do interior. Estas linhas, no entanto, podem ajudar a quem quer que seja a penetrar nos espaços do interior: “Esse caminho progressivo é possível à medida em que voltamos ao “lugar do coração” tomando contato com as raízes de nossa vida e de nossa fé. Nesse ponto é possível aprofundar o dinamismo que existe entre interioridade e silêncio e missão evangelizadora, como parte essencial do carisma. A interioridade, finalmente, espaço habitado é o clima, o ambiente, o húmus do encontro com Deus e com as criaturas humanas”.

>> O ser humano se constrói de dentro. É a consciência ou o coração que devem orientar e dirigir a vida da pessoa. O coração é esse lugar secreto e íntimo de nós mesmos onde não podemos nos enganar a nós mesmos. É a partir desse interior que se decide o melhor e o pior da existência.

>> Reflexão, interioridade, silêncio. Voltar à nossa verdade. “A sociedade oferece hoje um clima pouco propício para quem quer buscar silêncio e paz para encontrar-se consigo mesmo, com os outros e com Deus. É difícil libertar-se do ruído e do assédio constante de todo tipo de apelos e mensagens. Por outro lado as preocupações, problemas e pressas de cada dia nos levam de um lugar para o outro, quase sem permitir que sejamos donos de nos mesmos’ (Pagola, Lucas, p. 118).

>> Como refazer nosso interior? Silêncio, silêncio de ruídos, silêncio de nós mesmos para que tenhamos riquezas no baú da vida. Momentos de santa ociosidade. Leituras que nos façam mergulhar no mistério da vida. Terapia das coisas feitas com mais lentidão. Busca de um limpidez interior. Revisões constantes da vida. Auscultação sempre mais apurada daquilo que o Senhor nos pede neste momento de nossa vida pessoal e do mundo.

>> A página evangélica aponta posturas sábias que podem nascer da verdade do coração:

= Não se pode condenar o irmão sem mais nem menos. Por que querer tirar o cisco do olho do irmão, quando temos a trave diante dos olhos. Que postura falsa de querer condenar o irmão por um cisquinho quando somos inteiramente cegos, frutos da superficialidade e da incapacidade de olhar para além das aparências.

= O Cuidado com a postura de superioridade frente aos outros. Um discípulo não é maior do que o Mestre. Quando o coração da pessoa é habitado o discípulo se reveste de sábia humildade. Nada de superioridade. Nosso Mestre foi aquele que lavava os pés dos seus.

= Como querer exercer influência sobre os outros, quando não enxerga com clareza. Um cego não pode guiar outro cego. Os dois vão cair no buraco.

>> É pelos frutos que se reconhece a árvore boa. Uma comunidade, um grupo e religiosos, os membros da Igreja atentos à voz do Senhor, feito de pessoas que se estimam para além de simpatias e antipatias, gente que faz vibrar seu coração com o coração dos mais infelizes, pessoas que não exageram a importância de um cisco no rosto do irmãos, gente que tira do tesouro da memória da fé preciosidades. A boca, os gestos do rosto, a transparência do olhar falam da beleza do coração.


Oração

A sabedoria da paz

Dá, Senhor, à nossa vida a sabedoria da paz.
Que o nosso coração não naufrague na lógica
de tanta violência disseminada ao nosso redor.
Que sentimentos de dor e de despeito
não sufoquem a necessidade de gestos de reconciliação,
a urgência de uma palavra amável
que rompa as paredes do silêncio,
o reencontro dos olhares que se desviam.
Dá-nos a força de insinuar no inverno gelado em que,
por vezes vivemos, o ramo verde, a inesperada flor,
a claridade que é esta irreprimível e pascal vontade de recomeçar.

José Tolentino Mendonça, Um Deus que dança, Paulinas, p. 95.

A cegueira da ciência

José Antonio Pagola

Muitos de nós fomos educados num clima de otimismo e de fé cega na eficácia da ciência. Ao longo dos anos foi penetrando em nós a convicção de que a ciência nos irá resgatando pouco a pouco da ignorância e a tecnologia nos irá libertando das misérias que nos impedem de alcançar a felicidade.

A ciência seria a grande esperança para o ser humano. A religião, pelo contrário, não é senão um estorvo para o progresso humano, um obstáculo para o desenvolvimento da humanidade.

Sem dúvida, a religião desempenhou um papel importante e útil na época pré-científica, quando o homem primitivo e ignorante precisava sentir-se protegido pelos deuses diante das forças desconhecidas do cosmos. Mas, à medida que a ciência nos vai libertando da ignorância e da miséria, a religião irá desaparecendo por ficar privada de verdadeira utilidade. Assim pensam muitas pessoas.

Sem dúvida, nos ambientes científicos já não se respira hoje o otimismo de começos do século. O progresso científico não se identifica sem mais com o crescimento do ser humano. A ciência pode oferecer-nos soluções técnicas para os diversos problemas, mas não podemos esperar dela a solução do ser humano como problema.

A ciência é cega. Carece de direção. Não tem consciência. O progresso científico depende da orientação que lhe imprime o próprio ser humano que a guia. De fato, o progresso desenvolveu o producionismo, o consumismo artificial, a desigualdade cada vez maior entre os privilegiados e os marginalizados.

Não necessita este progresso científico de uma direção a partir da fé num Deus salvador do ser humano? Não está pedindo todo este desenvolvimento uma orientação moral que o canalize para a construção de uma humanidade mais justa, mais fraterna e mais libertada?

De acordo com o exemplo expressivo de Jesus, quando um cego guia outro cego, correm ambos o risco de cair no buraco. Nós já caímos na espiral do crescimento pelo crescimento, do desenvolvimento pelo desenvolvimento, sem saber exatamente para onde vamos. Quiçá a fé, longe de desaparecer, se torne mais necessária do que nunca para guiar uma humanidade necessitada de luz e sentido.

Em que e em quem confiar?

Pe. Johan Konings, S.J.

Fala-se hoje em crise de autoridade e liderança. Os jovens não têm limites, e a decadência dos adultos tampouco … Não há mais em quem colocar sua confiança.

A 1ª leitura de hoje dá muita importância à palavra como espelho do ser humano: de alguma maneira revela, cedo ou tarde, o mais profundo da pessoa. No evangelho, Jesus denuncia os “cegos guias de cegos” e nos ensina a avaliar as pessoas conforme os seus frutos (Lucas 6,39-45, no “Sermão da Planície). Não os belos discursos, mas aquilo que produzem, seus atos e atitudes, isso mostra o que as pessoas valem e a confiança que se pode ter nelas.

Jesus, ao falar, visa em primeiro lugar a sociedade de Israel. Havendo política ou religião no meio, nunca faltam as belas palavras vazias. É contra isso que Jesus adverte. No tempo de Jesus, como nos dia de hoje, os graúdos na política e na religião falavam, mas não faziam; prometiam, mas não cumpriam; e ainda viravam o casaco … Jesus expõe esse comportamento inconfiável ao juizo de Deus, definitivamente. Ele mesmo, em sua palavra e prática, é o juízo de Deus face a esses comportamentos marcados pela hipocrisia. Os frutos que Deus espera de nós são amor e justiça – amor com justiça. Não palavras e orações vazias. A verdadeira religião é ajudar os pobres, as viúvas, os órfãos … (Tg 1,27).

Então, ponhamos nossa confiança em quem produz “os frutos do Espírito” de que fala Paulo em Gl 5,22: amor, alegria, paz … “Com ações e de verdade” (1Jo 3,17) … Deus, é preciso crer para vê-lo. Os seres humanos, é preciso ver para acreditar. .. A lei supõe a inocência até que se prove o contrário, mas a experiência nos ensina a confiar apenas em quem prova sua integridade. Cristo nos ensinou o sistema de Deus. Devemos reservar nossa confiança para investi-la naqueles que, por seus atos, mostram-se participantes do projeto de Deus, produzindo atos de justiça, solidariedade e amor.

Quem anda com a Bíblia debaixo do braço ou faz longas orações não merece necessariamente nossa confiança. Primeiro vamos ver o que faz e por que o faz. O mesmo se diga de politiqueiros, pretensos pregadores e conselheiros, e de todo bom conselho que nada custa … No fim das contas, só merece “confiança evangélica” quem, de alguma maneira, vivendo ou morrendo, realmente dá sua vida pelos outros. Eis o bom senso do Reino.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella