Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O significado universal do judeu Jesus

29/01/2019

Mauro Pesce (*)

Todos os anos, os cristãos celebram a recordação do nascimento de Jesus e a adoração dos magos. O relato de Mateus, na realidade, queria evidenciar que Jesus era “o rei dos judeus” e que a estrela indicava o surgimento do novo reino de Deus sobre todos os povos da terra (Mt 2, 2). Os Evangelhos queriam afirmar que Jesus era o messias libertador do povo de Israel (At 1, 6).

O cristianismo posterior, porém, deu um sentido profundamente diferente para esses textos, destacando-os do seu contexto judaico e transformando o judeu Jesus em uma espécie de Deus antigo que desce sobre a terra para salvar a humanidade. Inseriu-se nisso uma mitologia cristã imensamente distante daquilo que Jesus dizia e fazia.

Mas os poucos anos (ou poucos meses) em que Jesus realizou a sua atividade ainda hoje são um ponto de referência essencial. O que importa de Jesus é acima de tudo a sua prática de vida.

A sua primeira mensagem, ainda hoje, como nos tempos de Francisco de Assis, é o seu modo de vida radical: sem casa, trabalho, bens, itinerante de vilarejo em vilarejo, diante das cidades helenizadas e romanizadas, abrindo as casas das pessoas convidando-as à hospitalidade, à convivialidade com os mais pobres e doentes.

Jesus não queria morrer. Seu propósito era preparar a entrada dos homens e das mulheres no reino divino: ele desejava que o mundo mudasse e que se concretizasse o mais rápido possível o grande advento de Deus.

A pregação de Jesus provocava a hostilidade dos detentores do poder. Jesus estava do lado dos pobres, denunciava a riqueza como inimiga de Deus, previa o perdão de dívidas, rejeitava o repúdio das mulheres pelos maridos e dava pouca importância às regras rituais: tudo isso levava a imaginar uma possível inversão da ordem social e provocava a hostilidade das elites.

Jesus esperou até o fim no advento imediato do poder divino e fez todo o possível para evitar a própria morte, que não lhe parecia necessária para esse advento. Jesus não foi morto porque assim havia sido estabelecido por Deus, mas porque ele representava um elemento de desestabilização: as suas palavras sobre a injustiça haviam sido afiadas. Ele tinha ousado denunciar os atos ofensivos dos poderosos, frequentava os pecadores e falava de perdão.

Na pregação eclesiástica atual, em vez disso, a sua morte não é o resultado da vontade dos adversários de tirá-lo do meio do caminho, mas é apresentada como se fosse o seu próprio anúncio. A pena capital infligida pelo poder político torna-se, assim, uma ação programada por Deus. Isso é crucial, porque desativa a carga explosiva do escândalo e transforma a morte em um modelo de ascese pessoal. Eliminar as motivações históricas e exaltar uma causa divina transforma o sentido não só da morte de Jesus, mas também da sua vida.

Se quisermos resumir tudo em poucas palavras, devemos dizer: o significado universal de Jesus está na sua prática de vida baseada no anúncio da chegada do reino de Deus. O significado de Jesus não está na sua morte, mas na sua ação positiva pelos mais fracos e no seu convite à conversão e ao amor recíproco.

Imitar Jesus é seguir o seu estilo de vida e a sua ação, e não um sacrificar-se interior místico e inútil.

Então, como ler os Evangelhos criticamente? Eu aconselho, desta vez, algumas obras de Claudio Gianotto: I Vangeli apocrifi [Os Evangelhos apócrifos] (Ed. Il Mulino, 2009) e Ebrei che credevano in Gesù [Judeus que acreditavam em Jesus] (Edizioni Paoline, 2012). Sobre Jesus: A. Destro-M. Pesce, L’uomo Gesù [O homem Jesus] (Ed. Mondadori, 2008) e La morte di Gesù [A morte de Jesus] (Ed. Rizzoli, 2014).

A pesquisa sobre o Jesus histórico não é a negação da fé, mas, ao contrário, é a busca de uma fé mais verdadeira, mais humana, mais radical, mais fiel ao judeu Jesus. É uma busca que nos afasta da mitologia consoladora que deixa o mundo como está e, muitas vezes, acaba justificando-o, derramando um meloso “perdonismo” sobre opressores e oprimidos, limitando-se a pedir apenas às vítimas que perdoem os seus predadores.


(*) A reflexão é do biblista e historiador italiano Mauro Pesce, ex-professor da Universidade de Bolonha, onde fundou o Centro Interdepartamental de Estudos sobre o Judaísmo e sobre o Cristianismo (CISEC).

O artigo foi publicado em Adista Documenti, n. 45, 29-12-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto (http://www.ihu.unisinos.br)

Download Best WordPress Themes Free Download
Premium WordPress Themes Download
Download Nulled WordPress Themes
Download WordPress Themes
free online course
download micromax firmware
Premium WordPress Themes Download
free online course

Conteúdo Relacionado