Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Agosto 2018

I. PRA COMEÇO DE CONVERSA

Deus veio ver o que se passava

 

“Simples sim, mas não simplório”, reflexão de Frei Almir

 

Que bom saber que Deus anda nos procurando. Será que abrimos-lhe caminhos e sendas?

 

Um dos escritores mais profícuos e profundos de nossos tempos e que reflete inteligente e criticamente sobre o ser gente e ser cristão é  Christian Bobin. Dele é o seguinte pensamento:  “Eliminei muitas coisas inúteis de minha vida e Deus se aproximou para ver o que se passava”.  Os que eliminam coisas supérfluas são aqueles que abrem as portas para a chegada do Senhor. Coisas inúteis em geral são coisas complicadas.  Vamos tentar fazer um breve elogio da simplicidade.

Simples é aquilo que se opõe a complexo, sofisticado, complicado, aquilo que é  formado de um só elemento, o que nosso espírito não tem dificuldade de captar e apreender, tanto no campo prático como no nível das ideias.

André Comte-Sponville, filósofo, assim escreve sobre o tema:  “Ser simples é ser natural, sem duplicidade, sem cálculo, sem composição (…). Quase se poderia dizer que simplicidade é esquecimento de si. Nesse sentido a simplicidade é uma virtude, não o contrário de egoísmo como a generosidade, mas o oposto de narcisismo, de presunção, da autossuficiência (…) Por isso é fácil compreender os simples, amá-los, viver com eles”.

Atentemos para o binômio simplicidade e espiritualidade. Jesus gostava de dizer que seu Pai costumava revelar seus mistérios aos simples e humildes. Estamos diante de uma visão da simplicidade como despojamento. Voltemos a Comte-Sponville referindo-se à contemplação ligada à simplicidade: “É a atitude da consciência quando ela se limita a considerar a coisa como ela é, sem querer possuí-la, utilizá-la, julgá-la”. Thomas Merton diz que “a contemplação não é visão, porque ela vê sem ver e conhece sem compreender”. No campo da espiritualidade,  simplicidade é o movimento de ir para além das palavras, dos conceitos e dos raciocínios.  E agora Simone Weil a nos ajudar:  “Quando se ouve  Bach ou uma melodia gregoriana, todas as faculdades da alma se orientam para ou se calam para apreender esta coisa perfeitamente bela, cada uma à sua maneira. A inteligência entre outras: nada tem a ver com afirmar ou negar, mas de tudo se alimenta. A fé não deveria ser um adesão desse tipo?  Os mistérios da fé são degradados na medida em que são objeto de afirmação ou de negação, quando na verdade precisam ser objeto de contemplação”.

Cuidado para não simplificar demais as coisas! Pode haver sério risco nesse campo. Simples sim, mas não simplório. Defender a simplicidade sem mais pode significar a recusa de refletir, de ver a realidade como ela é, deixando de fazer as necessárias distinções.  Pode ser que elogiemos a  simplicidade para acobertar nossa  preguiça de pesquisar, de buscar, de discernir. Uma inadequada busca de simplicidade leva a um certo empobrecimento do mundo. Virtus in medio, sempre.

O evangelho é anunciado por aqueles que vivem com simplicidade.  “Esta sociedade precisa descobrir que precisamos voltar a uma vida simples e sóbria. Não basta aumentar a produção e alcançar um nível superior de vida. Não é suficiente ganhar sempre mais, comprar cada vez mais coisas, desfrutar de maior bem-estar. Esta sociedade  precisa como nunca do impacto de homens e mulheres que saibam viver com poucas coisas. Crentes capazes de mostrar que a felicidade não está em acumular bens. Seguidores de Jesus que nos lembram  que não somos ricos quando possuímos muitas coisas, mas quando sabemos desfrutá-las com simplicidade e compartilhá-las com generosidade. Os que vivem uma vida simples e uma solidariedade generosa  são os que melhor pregam hoje a conversão de que mais necessita a nossa sociedade”  (Pagola, O caminho aberto por Jesus, Marcos, p.  133-134).

Christian  Bobin deve ter ficado feliz quando Deus veio saber o que se passava com ele quando simplificava  sua vida… Quem sabe preparava o caminho para a comunhão com o Senhor…

II. PÁGINA DE ESPIRITUALIDADE

Peregrinos e Viandantes

 

A Congregação  para os Institutos de Vida consagrada e as Sociedades e Vida apostólica  em 2015-2016  publicou uma série de pequenas e densas meditações.  Diante de meus olhos o fascículo consagrado ao tema contemplação.  As linhas que ora transcrevemos podem ajudar tanto a  religiosos como a leigos a  rever e nutrir sua vida espiritual. A inquietude é a força motriz do caminho.  Somos viandantes e peregrinos.

 

Peregrinos em profundidade: “Se o homem é essencialmente um viandante, isto significa que ele está a caminho na direção de uma meta da qual podemos dizer ao mesmo tempo e contraditoriamente que a vê e que não a vê. Mas a inquietude é exatamente como a mola interna deste progredir” (Gabriel Marcel), mesmo no poder técnico e dos seus ideais “o homem não pode perder este estímulo sem se tornar imóvel e sem morrer” (idem).

 

É somente Deus aquele que desperta a inquietude e a força dos questionamentos, a insônia que está na origem do acordar-se e do partir. É a força motriz do caminho, a inquietude diante das questões levantadas pela vida que impulsiona o homem na peregrinação da busca.

Na raiz da vida do cristão existe o movimento fundamental da fé: encaminhar-se em direção a Jesus Cristo para centrar a vida nele. Um êxodo que leva a conhecer a Deus e seu amor. Uma peregrinação que conhece a meta. Uma mudança radical que de nômades faz peregrinos. O ser peregrinos relembra o movimento, a atividade, o compromisso. O caminho percorrido implica risco, insegurança, abertura à novidade, aos encontros inesperados.

O peregrino não é simplesmente quem se transfere de um lugar para outro, ele não delega a busca da meta, sabe aonde quer chegar, tem um objetivo que atrai o coração e impulsiona tenazmente o passo.  Não nutre apenas uma vaga busca de felicidade, mas olha para um ponto preciso, que conhece ou pelo menos  vislumbra, de que tem notícia e para o qual resolveu partir.  A meta do cristão é Deus.

Congregação para os Institutos de Vida Consagrada
e as Sociedades de  Vida Apostólica
Contemplai, n. 11

III. TRATADO SOBRE OS MISTÉRIOS

Riquezas do Batismo

 

A água não purifica sem o Espírito Santo

 

Santo Ambrósio de Milão  (sec. IV) no seu Tratado sobre os Mistérios nos fala do Batismo com tal encantamento que até temos vontade de ser batizados de novo. Quem sabe, uma hora dessas, podemos ler este texto em casa, com a família,  ou em nossas fraternidades e saborear sua riqueza e seu encantamento. Fomos batizados.  Que graça. Acompanhemos a descrição de Ambrósio.

 

Anteriormente fora-te recomendado não creres apenas no que vias, para que não viesses a dizer: É só isto o grande mistério que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, nem suspeitou o coração do homem?  Vejo águas, eu as via diariamente. Águas assim, onde tantas vezes entrei e nunca fui purificado, é que irão purificar-me? Por aí ficas sabendo que a água sozinha, sem o Espírito Santo, não purifica.

 

Leste igualmente que os três testemunhos no batismo são um só:  a água, o sangue e o Espírito, porque se retiras um deles já não há sacramento do batismo.  Pois, o que é a água sem a cruz de Cristo?  Um elemento comum sem qualquer força de sacramento. Também sem água não há mistério de novo nascimento:  Se alguém não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.  O catecúmeno já antes tinha fé na cruz do Senhor Jesus e por ela fora assinalado. Mas se não for batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não  poderá receber a remissão dos pecados, nem acolher o dom da graça espiritual.

Naaman, o sírio, no Antigo Testamento, mergulhou sete vezes; tu, porém, foste batizado uma vez em nome da  Trindade. Confessaste o Pai  – lembra-te do que fizeste – confessaste o Filho, confessaste o  Espírito. Observa a ordem. Nesta fé morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus. Como que sepultado no elemento primordial do mundo, morto ao pecado, ressuscitaste para a vida eterna. Crê, portanto, não se tratar de simples águas.

Com efeito, mesmo o paralítico da piscina Probática esperava um homem. Que homem a não ser o Senhor Jesus, o nascido da Virgem, cuja mera sombra da vinda curava um ou outro, mas cuja realidade agora já cura a todos? É Jesus a quem o paralítico esperava para descer, aquele mesmo que de quem disse o Pai a João Batista: Sobre quem vires o Espirito Santo descer do céu e repousar sobre ele, é este o que batiza no Espírito Santo.  João também deu-lhe este testemunho,  dizendo: Eu vi o Espírito descendo do céu em forma de pomba e repousando sobre ele. Aqui, igualmente, nós perguntamos por que o  Espírito desceu qual uma pomba? Para que visses e compreendesses como também aquela pomba, solta da arca pelo justo Noé, era figura desta que desceu sobre o Cristo, e assim reconheceres o tipo do sacramento.

Há ainda algo que te faça duvidar?  E, no entanto, o Pai te clama, com toda evidência, no Evangelho: Este é o meu Filho em quem pus minha complacência. Clama igualmente o Filho, sobre quem o Espírito Santo se mostrou em forma de pomba. Clama do mesmo modo o Espírito Santo que, qual pomba desceu.  Clama, por sua vez,  Davi:  Voz do Senhor sobre as águas; o Deus de majestade trovejou; o Senhor sobre as muitas águas. A Escritura te atesta que, diante das preces de Jerobaal, desceu o fogo do céu e, outa vez,  pelas súplicas de Elias, veio um  fogo consagrar o sacrifício.

Não atentes para o mérito das pessoas, mas para o serviço dos sacerdotes. Ora, como respeitas a Elias, considera também os méritos de Pedro e de Paulo que nos entregaram este mistério recebido do  Senhor Jesus. Para os do Antigo Testamento era enviado o fogo visível a fim de que cressem. Em nós, que cremos, o fogo opera invisível.  Para aqueles desceu o Espírito em figura, e, para nós, ele se torna realidade.  Crê, portanto que, invocado pelas preces dos sacerdotes, aí está presente o Senhor Jesus que disse: Onde quer que estejam dois ou três, aí estou eu. Quanto mais onde está a Igreja, na qual existem os mistérios, ele se dignará a conceder a graça de sua presença.

Desceste, pois, às águas do Batismo. Recorda-te do que respondeste que crês no Pai, crês no Filho, crês no Espírito Santo. Não disseste: creio no maior, no menor e no último, mas com a mesma palavra te comprometeste a crer no Filho exatamente como crês no Pai e a crer no Espírito exatamente como crês no Filho, com esta única exceção: que confesses a fé na Cruz, que é só do Senhor Jesus.

Liturgia das Horas III, p.  447-449

IV. CRÔNICA

O menino que puxava a camisa do pai

 

Agosto, mês da festa do pais!  Quantas lembranças, algumas alegres e outra… e outras.  Um pequeno relato um tanto quanto pungente…

 

É sempre enternecedor ver um pai com seu filho, sua filha  em casa,  no ônibus, no metrô, no parque, na igreja.  Há esses homens admiráveis, pais de verdade, que sabem manter e nutrir uma amizade carinhosa com os filhos.  Fazem-se presentes na vida dos filhos. Esperam com ansiedade sua chegada. “Curtem-nos” ao longo das estações da vida. Ficam prosas quando sentem que a menina está  se tornando uma mocinha e que o rapazinho  já começou a fazer a barba.  Que palavra forte e doce essa de pai.

Os filhos sabem muito bem o que se passa no coração de seus pais, quer dizer, do pai e da mãe. Aquele menininho sardento e espevitado  com seus nove anos vivia seus dias com um aperto no coração. Ele e o pai eram muito amigos: saiam juntos, iam ao cinema, faziam as compras no  supermercado, tomavam um sorvete na lanchonete da esquina antes de entrarem em casa.  Há algumas semanas ele já havia percebido que seu pai e sua mãe viviam juntos, mas faltava alguma coisa entre os dois. À noite, já na cama, não conseguia dormir antes que o pai chegasse… Algumas vezes, o pai demorava a chegar. Por onde andaria? Por vezes… parece que não vinha.  O menininho pressentia alguma coisa.  Sufocava as lágrimas no travesseiro de penas de ganso. Houve um momento em que as coisas foram se deteriorando. A mãe tinha os olhos vermelhos. O pai não passeava com ele.  Algumas vezes, o pai começou uma conversa com o filho…certamente sobre o mal-estar vivido pelo casal… mas não conseguia.  Virava o rosto e sufocava um soluço. O menino foi se dando conta do desconforto do pai.

 

Um dia aconteceu o que o menino temia. Tinha havido uma refeição em total silêncio. No final aquela discussão… aqueles gritos… aquelas palavras fortes e duras. O pai levantou-se, abriu a porta da rua e saiu.  Parece que havia perdido a cabeça.  O garotinho levantou-se, correu atrás do pai e ainda o alcançou  na calçada da rua o puxou pela camisa.  O pai, transtornado, tentou desvencilhar-se, mas não conseguiu. O menino chorava convulsivamente. Ela precisava do pai. Não podia largá-lo.  Não sabia o que falar.  Não largava sua camisa.

Compreendemos que certos casamentos sejam fadados a morrer. Não podemos, no entanto, ignorar o que isso significa para meninos e meninas que aprenderam a gostar demais do pai.  Eles sofrem demais…

Há muitos meninos que precisam puxar a camisa de seus pais… para sobreviverem por dentro…

V. REFLEXÃO

Testamento de um padre

 

Encontrei este texto, testamento de um sacerdote, num número da Revista Prier que não existe há anos. Hesitei em traduzi-lo. Tomei a decisão de fazê-lo porque senti em suas linhas tristeza e alegria.  Senti verdade e singeleza.

 

 

Sempre me senti um ser cheio de falhas e
mesmo assim fui me dando  conta
havia em mim tesouros insuspeitados.
Amei a vida,
os momentos calorosos passados com meus amigos.
Amei a natureza,
contemplando em cada planta
o mistério e a beleza da vida.

E, no entanto, sempre vivi insatisfeito,
na busca daquilo que pudesse me satisfazer
em profundidade,
que pudesse revelar-me a mim mesmo.
Esperei…
Bem lentamente  fui percebendo nas pessoas, nas coisas,
em mim mesmo
sinais de um além
compreendendo pouco a pouco
que aquilo que é humano e grande neste mundo
já é eterno e comunhão com Deus.

Deixo este mundo
lançando um olhar de amizade sobre todos os homens
com a reconfortante lembrança de todos
os que me encorajaram com sua amizade.

Deixo o mundo, mas nada perco:
aquilo que comecei a perceber aqui,
haverei de ver e viver.
Chegou meu dia.
Em mim e para mim a obra da criação se completa
Verei a Deus e a ele serei semelhante:
imagem de Deus.

Gostaria que todos aqueles que me conheceram
e que me devotaram  amizade  se alegrassem comigo
Sobretudo porque esta amizade que nasceu entre nós
tornar-se-á amor na dimensão de Deus.

Gostaria que meu funeral, em sua simplicidade,
fosse uma festa  expressando o que de fato ele é:
encontro com Deus.

Padre Oreste Bracco
Pároco de uma paróquia em Cannes (França)
Revista Prier  n. 11, p. 3-4