Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Janeiro 2019

JANEIRO 2019

TIRANDO DO BAÚ COISAS NOVAS E VELHAS

Reinventando a vida a cada dia

Edição de janeiro de 2019 

Nas mãos dos leitores do site da Província Franciscana da Imaculada mais uma edição da revista eletrônica Tirando do Baú…  É o primeiro número do ano de 2019. Reflexões, ponderações, indagações que podem nos ajudar a viver,  pensar, assumir o desafio de viver e de viver bela, humana e cristãmente.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

freialmir@gmail.com

“Feminicídios”

Não encontrei o termo “feminicídio” no Dicionário Houaiss.  Dizem que existe. Palavra nova? Na verdade, realidade não tão nova.  Mulheres espancadas, desvalorizadas ao longo dos séculos, em nossos tempos assassinadas com todo requinte e crueza. Cenas projetadas nas mídias sociais e nas telas da televisão. Os “feminicidios”  acontecem às dezenas.  Sempre revoltantes. 

Aos poucos, não tão rapidamente, os direitos das mulheres foram sendo respeitados. Sim, não tão rapidamente. Longe de nós concepções  discriminatórias e desrespeitosas. Napoleão, no Memorial de Santa Helena, escrevia: “A mulher é dada ao homem para que lhe faça filhos. É propriedade sua, como a árvore frutífera é propriedade do hortelão”.  Progressos sociais e culturais foram fazendo com que o ser humano feminino fosse erguendo a cabeça, pudesse mostrar sua dignidade e estampasse os valores que lhes são próprios e que nos ajudam a criar um mundo com menos barbárie. As mulheres contribuem para fazer surgir um universo marcado pela ternura e pelo devotamento. Figuras femininas povoam nosso imaginário: a esposa, a mãe, a enfermeira, a professora das primeiras letras, a catequista,  a figura de Maria, a mãe do Senhor.

Legislações modernas cuidam de dar-lhes segurança jurídica frente a um passado que as colocava em situação de inferioridade e de inconcebível submissão ao homem. No mundo inteiro, em nossos tempos, vemos mulheres fazendo estudos universitários, participando da vida pública, médicas, engenheiras, pesquisadoras, chefes de estado, ministras, dentistas, motoristas de coletivos, policiais, presidentes de instituições bancárias internacionais. Por vezes chegam até mesmo a colocar os homens à sombra. Saudamos com alegria leis que as promovem e protegem em todo o mundo. Nossas delegacias de proteção à mulher estão aí. Mas…

Não podemos, no entanto, deixar de lamentar que muito ainda precisa ser feito. Há, sobretudo, resquícios de um machismo terrível que se concretiza em espancamentos, em cenas hediondas assistidas pelos filhos, em desrespeito a uma pessoa humana no santuário da casa, violências registradas por câmaras de segurança, mulheres com hematomas em todo o corpo. Em vista de tudo isso, penso eu, é que a mídia andou cunhando esse “neologismo” do feminicídio, já que o fato anda se multiplicando assustadoramente.

Há espancamentos e mortes físicas. Há tudo isso que precisa ser denunciado, apurado, julgado.  Há também situações que colocam ainda a mulher em situações menos dignas e que não chegam a serem traduzidas em cenas de crimes loucos e passionais e espancamentos físicos. Há  violências  sutis e nem sempre denunciadas.

Há ainda essa sensação de que quem manda é o marido. Que a mulher não ouse fazer queixa de violências porque se o fizer conhecerá o pior. Que satisfaça seus caprichos mesmo na intimidade do relacionamento sexual. E algumas mulheres tímidas e cheias de medo aguentam uma tal situação a vida toda, pobres e indefesas mulheres. Mulheres que vivem um clima de pavor. Que desaprenderam a arte de sorrir, de fazer festa e casa, de cantar a canção que sai do coração da  esposa.

Penso aqui em muitos casamentos mal começados e pessimamente continuados em que a mulher foi e continua sendo “um objeto”: sexo, trabalho barato.  Vemos homens educando os filhos com suas perspectivas machistas, proibindo esposas de manterem relacionamentos com suas famílias de origem, tidas por eles como indesejáveis. Mulheres (e também homens) que nunca chegaram a viver uma vida amorosa conjugal e sexual delicada, mas sempre marcada pela aridez de tudo feito por fazer. Vemos mulheres (e homens) que perderam o gosto pelo casamento. Algumas mulheres passam a experimentar repulsa pelo companheiro e buscam realizar-se nos filhos.

Urge uma nova e séria educação do ser humano, numa compreensão adequada do feminino e do masculino. Nesse contexto chega-nos à mente a cena da criação de Eva descrita no livro do Gênesis. Adão experimenta solidão no meio dos animais que acabam de desfilar diante de seus olhos. Solidão. Falta de alguém igual. Um sono, uma costela tirada e eis a mulher. Carne de sua carne, osso de seus ossos.  Companheira. Igual. Os dois de mãos dadas olhando para o amanhã na busca de um vida de companheirismo e de delicada convivência.

Está na hora de acabar com os feminicídios e também, se houver, com os masculinicídios.  Afinal de contas não estamos mais no tempo de  Napoleão, mas no século XXI.

Quando redigia estas linhas  estava eu a reler  um livro encantador   de  Bartolomeu Campos de Queirós  (Vermelho Amargo,  Ed. Cosac Naify).  Há referências do protagonista da história à mãe da qual experimenta forte sentimento de saudade. Duas passagens encantadoras em que o feminino-materno  aparece:

  • “A mãe nos contava sobre nossos bens: uma casa com quintal, uma horta sob mangueira, um pé de jabuticabas – que nos espiava com muitos olhos pretos. No mais, um regador para dar de beber às plantas. Nas tardes,  quando o tempo se faz humano por parecer duvidar, minha mãe sustentando o regador pela asa, benzia as flores. Exalava um perfume de terra molhada e  a alma se fazia definitivamente telúrica. Viver tinha sabor de chão encharcado.  Mas isso não leva importância”(p. 31-32).
  • Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor de mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite. A couve, ela cortava mais fina que a ponta de uma agulha que borda mares em ponto cheio.  Depois mexia o angu para casar com carne moída, salpicada de salsinha, conversando com o caldo de feijão.  Tudo denunciava o seu amor.  Nós, meninos, comíamos devagar, tomando sentido para cada gosto. Ela desconfiava que matar nossa fome era como que nos pedir para viver. A comida descia leve como o andar do gato de minha irmã  (p.35)

Dois modos de encontrar ou de buscar Jesus

Nicodemos e a mulher que tinha fluxo de sangue

João  3, 1ss e Marcos 5,25ss 

Duas vidas, duas trajetórias, dois buscadores de Deus.  Também  Zaqueu, curioso. Com o qual mais nos identificamos? 

 

     Nicodemos e a hemorroíssa. Ele veio de noite e ela se aproximou de Jesus por trás.

Nicodemos, erudito, homem de estudos, prudente e sábio busca Jesus na obscuridade? Indeciso? Curioso? Teria medo dos judeus?  Temia por sua reputação? Procurava uma verdade na discrição da noite,  protegendo-se dos olhares, à escuta de seu desejo,  distante do aparato e dos holofotes. Na realidade, não sabia o que procurava. Ficara impressionado com alguns sinais que havia visto nesse Rabi.  Encontra palavras, certamente ainda provisórias, para exprimir o que estava percebendo:  “Sabemos que vens da parte de Deus…”.

Uma mulher sofria de hemorragia,  já por doze anos.  Gastou tudo o que tinha com os médicos.  Ouvindo o que se dizia a respeito de Jesus aproxima-se dele, por trás, no meio da multidão e toca suas roupas. Acredita que assim será salva. O mal de que padece a tornara impura. Não podia tocar a Jesus. Ela transgride as regras. O que faz é ousar manifestar sua fé secreta: “Se ao menos tocar suas roupas serei salva”.

Um vem face a face, mas à noite. Cara a cara. A outra chega no meio da multidão, mas por trás. Um e outro são possuídos de uma espera que são sabem bem definir: conhecer a verdade, curar, ser salvo?  Que  palavra de Jesus teria atingido a um e a outra  para correr o risco? Risco de ser expulso do sinédrio, risco de perder sua vida social.  Gestos ousados, mas colocados.

Ele veio à noite e ela em pleno meio-dia.

Por que a mulher veio buscar água no poço quando o sol queima para valer? Esta mulher de Samaria fazia assim para não se encontrar com as outras mulheres? (Jo 4). Afinal de contas, ela já tinha tido cinco maridos. Parece que a vergonha está colada à sua pele e assim se podia explicar o fato de não querer ser vista. De repente, um homem e estrangeiro pede-lhe água. Jesus acolhe Nicodemos que o procurou escondidamente. Encontra a samaritana no espaço de sua vergonha.  Jesus coloca Nicodemos numa situação delicada, com uma repreensão: “Quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus… afinal de contas tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas?”  E para a mulher do poço: “Se conhecesses o dom de Deus e aquele que te diz: dá-me de beber, tu é que pedirias e ele te daria a água viva!” Como conhecer esse dom? Onde está a fonte da qual as pessoas renascem mesmo sendo velhas?”

Jesus desvenda os seres a si mesmos. Não quer que permaneçam  em seus desejos numa postura de esconder-se da vida.

Para ver Jesus um veio à noite, o outro subiu  a uma árvore.

Zaqueu com sua baixa estatura não tinha condições de se misturar à multidão. As pessoas não o deixariam passar. Seria meio esmagado. Talvez tivesse complexo de inferioridade devido à sua baixa estatura. Além do mais era mal visto, tinha péssima reputação de roubar e “colaborar” com o poder que ocupava a terra, um colaborador. Ele corre antes que o grupo chegue e sobe a um sicômoro para ver Jesus que passaria por ali.  Nicodemos, homem bem nascido, se esconde, enquanto Zaqueu se expõe aos olhares de todos, sabendo que a multidão é para ele um obstáculo. Quando está em baixo volta-se por aquele que foi visto do alto.

Texto fortemente inspirado em: Gestes d’approche
Alain Thomasset
Etudes, jan.2003,  p.95-96

O rosto da eterna juventude

Estamos ainda respirando e assimilando reflexões  e diretrizes sobre o tema da juventude (e das juventudes) que nos foram propostas, de modo particular, pelo  Sínodo sobre a juventude  convocado e realizado sob o olhar do Papa Francisco.  Juventude no singular  e juventudes  no plural. Belo texto que agora transcrevemos e que tiramos do “baú” do tempo. Seu autor é Maurice Zundel, sacerdote  suíço de grande profundidade.  Ele fala  a eterna juventude. 

            Na medida do possível, fundamental conservar a juventude do corpo, mas também de nossa memória e inteligência.  Sobretudo guardar a juventude do coração. Para tanto bastará simplesmente que as pessoas  voltem o rosto para o Oriente lá onde brilha o  Rosto da eterna juventude. Urge que estejamos sempre disponíveis a todas as ideias, todas descobertas, a todos encontros, a todas as renovações, e que aos  cinquenta ou sessenta anos mudemos de registros no teclado da vida. Que estejamos inteiramente disponíveis e abertos às novas opiniões perseverando na direção rumo à Luz viva, a Luz sempre jovem e sempre bela que chega até nós com um Rosto de candura…

A única juventude imperecível é a do Sim. Cada manhã será fundamental entrar no mundo dando espaço para a vida.  Dizer um sim à vida tal como se apresenta, dizer sim aos outros como eles se nos apresentam,  à toda a criação. Trata-se de entrar cada manhã no mundo, comungar ao sim criador. Isto é ser jovem com a juventude eterna de Deus.

 

Frei Pedro Palácios

Um franciscano evangelizador dos Aimorés

 Um dos lugares mais bonitos, de indescritível beleza e que mais exala  devoção marial em nosso país está situado numa montanha à beira-mar no Município de Vila Velha, no Espírito Santo. Estamos nos referindo ao Santuário de Nossa Senhora da Penha. Trata-se de um espaço de grande afluência de fiéis das cidades capixabas e de peregrinos de todo o país.  Os devotos e peregrinos buscam Maria em suas necessidades e manifestam-lhe carinho e devoção. Naquele espaço de terra exerceu belíssima atividade missionária o  franciscano Frei Pedro Palácios.  Encontramos uma notícia sobre o missionário em publicação da Conferência dos Frades Menores do Brasil.  De um antigo “baú”  tiramos estas informações. 

Digno de nota é o trabalho desenvolvido por Frei Pedro Palácios, um irmão leigo. Este franciscano deve ter nascido pelos anos de 1500, em Medina, perto de Salamanca, na Espanha.  Afora isto, nada mais se sabe de sua origem familiar.  Ingressou na Província Franciscana de  São José, passando depois para a Custódia portuguesa da Arrábida, que aderiu à reforma de São Pedro de Alcântara. Frei Pedro dedicou-se por vários anos à assistência aos doentes no Hospital Real de Lisboa. Mais tarde,  pediu e obteve permissão do  Custódio, Frei  Damião da Torre, para viajar para o Brasil como missionário. Pretendia viver como eremita e, ao mesmo tempo, trabalhar como missionário. Trouxe consigo um painel artístico de Nossa Senhora dos Prazeres. O ano exato de sua vinda nos é desconhecido. Sabe-se, porém, que ele desembarcou em Salvador da Bahia onde iniciou sua atividade missionária. Daí foi para Vila Velha, no Espírito Santo.

Dedicou-se prioritariamente à vida contemplativa. Interrompendo-a periodicamente para anunciar a fé cristã  entre os índios Aimorés e mantê-la viva entre os descendentes dos europeus. Iniciou imediatamente a catequese dos indígenas, tornando-se assim o primeiro missionário do Espírito Santo, pois os jesuítas estabelecidos em Vitória, desde 1551,  ainda não tinham iniciado as missões.

Frei Pedro Palácios começou a visitar regularmente os índios  Aimorés e a instruí-los na doutrina  cristã.  Fazia-se acompanhar por um jovem, André Gomes, em suas longas viagens às mais afastadas malocas dos Aimorés. Permanecia entre eles o tempo necessário para instruí-los e  prestar assistência aos doentes.

Em seu zelo apostólico, Frei Pedro, sem ter ordens sacras, começou a batizar pessoas que não tinham assistência religiosa. Por isso foi admoestado pelos jesuítas. Ele, então, lhes pediu o ritual escrito do batismo na língua da terra e licença para poder batizar em caso de emergência, os que os padres não pudessem acudir. Deste modo ele socorria muitas crianças e alguns adultos. Os de boa saúde, porém, ele instruía solidamente e encaminhava para serem batizados pelos padres jesuítas em  Vitória.

Frei Pedro, em sua atividade missionária não descuidou dos habitantes de Vila Velha e de Vitória.  Tendo se instalado numa  pequena gruta  ao pé do morro, construiu ao lado  um nicho para o painel de Nossa Senhora. Todos os dias, ele reunia o povo diante do painel para rezar o rosário e ensinar-lhes as verdades da fé.

Ia à igreja paroquial de Vitória todos os domingos para cumprir o preceito dominical.  Ao entrar na igreja, fazia genuflexão, depois beijava o chão, como era costume dos franciscanos naquela época. Comungava sempre e confessava-se com frequência. Todas as vezes que ia à igreja matriz, pedia ao pároco que lhe renovasse a licença de instruir o povo.

Debilitado pelas penosas e longas viagens e já avançado em idade, cansado pela construção de capelas, Frei Pedro pressentia a morte. Antes da festa de Nossa Senhora dos Prazeres  dirigiu-se ainda à  Vila Velha para despedir-se dos amigos. Interrogado sobre sua viagem, respondeu que estava viajando para a eternidade. Pouco depois da festa, foi encontrado morto em sua ermida, de joelhos, encostado no altar diante da imagem de São Francisco, com as mãos elevadas ao céu.  Era o ano de 1570 ou 1571.

Doze anos de vida de oração e penitência e de indubitável  influência religiosa  sobre os índios e os imigrantes de Vila Velha foram suficientes para perpetuar,  pelos séculos afora, a sua figura de apóstolo.

Fonte:

A graça da origens, o dom do presente

Texto comemorativo dos 800 anos da Ordem Franciscana

Conferência dos Frades Menores do Brasil

Quando ando pensando apenas nas minhas coisas...

Vivemos o tempo da vida buscando o rosto do Senhor.   Ou, deveríamos tentar.  O tempo da oração é feito para esse exercício de colocação de nossa fragilidade diante do esplendor do Senhor.  Bela esta oração  do grupo denominado  Cooperadores japoneses de Madre Teresa de Calcutá.  Poderia ser nossa oração cotidiana.

Senhor, quando eu tiver com fome,

dá-me alguém que tenha necessidade de comida.

Quando eu tiver sede,

envia-me alguém que  tenha necessidade de água.

Quando eu tiver frio,

dá-me alguém para aquecer.

Quando for de alguma forma ferido,

que me envies alguém para consolar.

Quando minha cruz pesar,

dá-me a cruz de um outro para partilhar.

Quando eu experimentar  pobreza,

conduze-me a alguém que tiver em necessidade.

Quando eu não tiver tempo,

que me envies alguém que eu possa ajudar

precisamente naquele instante.

Quando eu for humilhado

que eu tenha diante de mim alguém que eu possa elogiar.

Quando o desânimo se abater sobre mim

que tu coloques perto de mim alguém que precisa ser  encorajado.

Quando eu tiver  necessidade de compreensão por parte de outros

dá-me alguém que precise ser por mim compreendido.

Quando eu sentir necessidade de alguém  que cuide de mim,

envia-me alguém para que  dele eu cuide.

 

Quando eu  estiver pensando somente  em mim,

volta  meus pensamentos para os outros.