Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Junho 2018

JUNHO 2018

Aos religiosos é familiar a palavra Capítulo.  Há encontros maiores  de religiosos ou de religiosas nos quais se faz  uma avaliação da caminhada  que  são denominados de capítulos. Uns são avaliativos. Outros são eletivos. Estes buscam escolher os irmãos que lavarão os pés dos irmãos e traçar as diretrizes de uma Ordem ou  Congregação.  O Capítulo sempre  constitui um acontecimento espiritual, ou seja,  realizado sob a presidência do Espírito. Os frades da Província da Imaculada  Conceição do  Brasil celebrarão Capitulo eletivo no mês de novembro do corrente ano de 2018.  Foi escolhido como tema do encontro: “Minoridade franciscana, lugar de encontro e comunhão”. Nossa revista eletrônica de  junho tira coisas novas e velhas  do baú do carisma franciscano e  reflete sobre o sentido do capítulo.

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Recados de São Francisco

 

O que agora segue não é um louvor a São Francisco, mas são lembretes, recados que o “Poverello” poderia estar nos dando nos dias de hoje.

 

Com a palavra Francisco:

Sei muito bem, meu irmão,
que você está coberto de razões para reclamar.
A vida é um duro combate e as decepções se sucedem.
Gostaria, no entanto, de lhe dizer com toda franqueza
que há muitos motivos de esperança.
Não permita que seu coração fique marcado
demais pelas más notícias e se revista de pessimismo.
Para mudar o mundo, mude seu olhar.

 

Eu, Frei Francisco, seu pequeno servo,
peço e suplico:
contemple o mundo com os olhos de Cristo Jesus.
Ele, nosso Senhor e nosso irmão,
sempre prestou atenção  nos mínimos gestos,
tais como o óbolo da viúva.
Sentiu-se profundamente tocado
por tanta verdade e tanta simplicidade.
Meu irmão, procure “ver” como o Reino do amor
emerge lentamente através da repetição de mil pequenos gestos,
gestos de ternura, coragem e desafio,
que  sem estardalhaço dizem “não”
à lógica do dinheiro, do ódio e da indiferença.

Preste atenção, você vai se surpreender
descobrindo homens e mulheres
que dia após dia inventam novas maneiras
de viver, partilhar, esperar,
manifestando assim que o  Reino de Deus
está ao alcance das mãos.

Preste atenção uma vez nesses homens e nessas mulheres que,
em vez de ficarem gritando que Deus é cego,
emprestam-lhe seus olhos;
em vez de continuarem a dizer  que Deus é desajeitado com suas mãos, emprestam-lhe as suas;
em vez de ficarem bradando que Deus é mudo,
emprestam-lhe  sua voz.

Ouça o apelo deste que chora
porque o Amor não é amado.
Coragem, nada de desânimo.
De pé, na força que há em você
e que aí foi delicadamente colocada
pelo Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor.
O mundo presente precisa  encontrar o  “olhar do coração”,
colher as flores da esperança,
para respirar e viver melhor.

Da revista francesa Prier
out.  1986, p. 15.

II. LEITURA ESPIRITUAL

O lava-pés, gesto simbólico e fundador

 

Comentário em torno de  João  13,1-20

René Aucourt, sacerdote e escritor francês, publicou uma meditação original e profunda sobre o lava-pés. O texto apareceu  na revista dos franciscanos de Paris, “Évangile Aujourd’hui”, n. 233, 2012,  p. 16-21.  Apresentamos aqui uma tradução do trabalho com ligeiras adaptações. “E ninguém se denomine prior, mas todos, sem exceção sejam chamados de irmãos menores. E um lave os pés do outro” (Regra não bulada de São Francisco, cap VI).

Uma declaração solene

A passagem do Evangelho de João que descreve o lava-pés  começa com uma longa frase, sem corte. É preciso respirar  fundo para não perder o fôlego, sobretudo quando a lemos a perícope em voz alta. A hora é grave e a declaração é solene.  Solene com jeito de qualquer coisa oficial.  As palavras escolhidas têm seu peso. Nada está sobrando. Nenhuma palavra pode ser suprimida. Convém fazer algumas observações prévias para que a trama inteira seja bem compreendida.

Jesus participa de uma refeição com seus discípulos. Deixa a mesa para realizar um gesto simbólico. Depois, mais tarde, no versículo 12, vai retomar seu lugar e desenrola-se, então, a refeição. Nesse entretempo  um gesto colocará um grande leque de significados. A refeição vem depois.  Parecia bom tomar uma certa distância. Uma interrupção e um intervalo poderão ajudar a compreender o que vai se passar. Convém deixar o ordinário das coisas, a rotina das coisas da vida para depois voltar a sentar-se à mesa. Prestar atenção para entrar no sentido profundo.  Assim poderá se revelar o segredo de Jesus. Não estaria sendo feito um  anúncio da morte vivida como um dom e a ressurreição como retomada do manto da vida?  O lava-pés poderá revelar o segredo de Jesus.

Um homem livre

Jesus sabe, compreendeu perfeitamente que um de seus companheiros haveria de traí-lo. Trata-se da hora em que o Divisor, o diabolos entrará mais uma vez em cena. O Mestre sabe bem que veio do Pai e para o Pai haveria de voltar. Com soberana liberdade é que vai se entregar ao combate. Tudo indica que ele é senhor da situação. Já é vitorioso.  Ele o sabe.  Tem consciência devido ao relacionamento único,  aquela que ele vive com Deus que ele chama de Pai. Vive esse relacionamento particular que é inventado a cada dia.  Vindo do Pai que está presente inteiramente nele,  vivendo um clima de total confiança, ele,   o Filho amado do Pai. Agora começa a traçar seu itinerário de ascensão até Deus.  A Paixão que estava para viver proximamente era o caminho de volta.  Vai percorrê-lo livremente.  Ele o sabe.

Um gesto que vai se desdobrando

O cenário fora solenemente montado. Assim o gesto simbólico  pode eclodir. Jesus vai levantar-se, vai deixar sua vida ordinária, depor as vestes e  assumir a atitude de servo.

Tira o manto. Coloca uma toalha em torno da cintura. Há os detalhes do gesto: derrama água, lava os pés, enxuga-os. Assume interiormente o que realiza. Não está fazendo uma encenação espetacular e externa.  Não executa gestos mecânicos ou inventados para surpreender  os espectadores. É toda sua pessoa que se revela nesse gesto. É ele com todo seu segredo que reconhecemos e aí encontramos.

Palavras literais de René Aucourt: “Gosto muito do capitel românico da catedral de Autun. Vê-se nele Jesus que, com uma mão  toma e acaricia  a sola do pé de Pedro e, com a outra, firmemente, envolve sua perna.  Pedro dá impressão de estar surpreso. De alguma forma, ele não tem escolha. Não adianta querer impedir que Jesus lhe lave os pés. Tem apenas o direito de protestar, e depois aceitar e pronto.  Jesus tem pleno domínio sobre o curso dos acontecimentos.  Com suavidade  ele o acalma.  Mas com força e firmeza mergulhará o pé do apóstolo na bacia. Mostra determinação. Não dá a entender que está fazendo de conta. Impõe seu gesto solene”.

Um gesto rico de significação

Tal gesto, hoje, pode nos parecer ultrapassado. Ele conserva, no entanto, toda sua força e seu sentido.  Trata-se de uma ação terra a terra. É o que por primeiro deve-se dizer. Poeira grudenta, suja.  Coisa real.  Não são ideias que dirigem o todo, mas a realidade que está à base que se impõe. Não podemos esquecer que humildade e humus têm a mesma  raiz.  O gesto simplesmente nos diz que nossos pés tocam a terra.

Naquela época, esse gesto concreto era, antes de mais nada, um sinal de hospitalidade. Os caminhos cansavam e eram poeirentos.  Chegando de uma marcha ou de uma corrida é bom mergulhar os pés na água fresca de um córrego ou riacho. O cansaço se ameniza.  Como sinal de hospitalidade, na época, apresentava-se ao hóspede uma bacia com água para que ele mesmo pudesse lavar os pés. Nas famílias mais abastadas a tarefa era confiada a um empregado ou escravo; um gesto humilhante. Diga-se de passagem que ninguém podia obrigar um escravo judeu a realizar tal tarefa.  Era também um gesto de respeito e de piedade para uma  pessoa que se quisesse honrar como um pai ou um mestre.  O gesto ganha seu significado no entrecruzamento da hospitalidade, humildade e respeito.

Jesus se mostra como aquele que recebe bem seus discípulos. Ele os tem na conta de  hóspedes a serem acolhidos. Oferece-lhes um pouco de frescor e de descanso depois de uma caminhada exaustiva. O momento é difícil. Há tensões no ar, ameaças, rejeição e traições. Jesus procura suavizar  aquele estado de coisas.

Isso não é tudo.  Jesus  vai  mais adiante. Torna-se servo.  Realiza as mais humildes tarefas. Quebra a ordem normal. Não é escravo, mas assume esta condição. Aquele que é reconhecido como Messias, como o Mestre faz-se escravo.

Mais ainda, desta forma mostra seu respeito pelo homem. Coloca-se de joelhos diante dele, como um escravo. Honra-o e respeita-o como se honra um mestre. Insistimos: Jesus respeita o homem. Através desse Jesus que vem do Pai e volta para o Pai se pode ver o semblante de Deus que acolhe, que se põe a serviço e se coloca de joelho diante do homem para honrá-lo.

Paulo aos Filipenses assim traduz esse pensamento: “Ele, subsistindo na condição divina não se apegou à sua igualdade com Deus. Mas esvaziou a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos… apresentando-se como simples homem, humilhou-se feito obediente até a morte e morte de cruz…” (Fl 2, 6-8).

Um gesto revelador

Colocado o gesto, há reações. Pedro primeiramente protesta, depois aceita.  Mostra-se convencido. Desiste de protestar.

Jesus, então, retoma seu lugar. Volta para junto dos seus. Alguma coisa, no entanto, havia acontecido. Ele simbolicamente dera sua vida,  passara pelo serviço e retomava o manto da vida.   O texto insere algumas palavras para que todos compreendam o que ele acaba de fazer e, por sua vez, o façam também. Podemos hoje ler este texto à luz da ressurreição.  De alguma forma é o Ressuscitado que fala.  Foi até o fim o servo que dá a vida pelo homem. É o vencedor do grande combate. É, de fato, Mestre e Senhor. Jesus não o nega. Ao contrário, insiste: “Tendes razão”. Aí está uma palavra de extraordinária liberdade. Não manda que calem. Não incide numa falsa humildade. Ele afirma: Eu sou. Ele é o vencedor, o verdadeiro onipotente. Seu senhorio, no entanto, não se manifesta no poder exterior de onipotência absoluta, nem mesmo acolhendo felicitações merecidas. Revela-se quando está de joelho diante do homem.  Ele é verdadeiramente Mestre quando mostra o total respeito pelo homem.

Um determinado grupo de jovens procurava compreender o que bem poderia significar a expressão “Deus todo poderoso”. Encontraram  muitas palavras que bem podiam descrever a onipotência divina. Quando  entraram em contato com  o evangelho do lava-pés  um jovem declarou: “Um tal Deus? Nunca poderíamos inventar”.

Cremos, de fato, num Deus todo poderoso, mas que se dispõe a lavar os pés do homem. Para o Senhor, tal não seria ato excepcional,  arroubo do tempo da juventude, mas é precisamente aí que o “Senhor se diz”.  Não se trata de alguém meio dilacerado entre a força e o serviço. Ele será Senhor precisamente na medida em que cura e multiplica os pães e Servidor quando entabula  conversa com a samaritana ou lava os pés  dos discípulos.  É o mesmo.  É em seu serviço que manifesta sua grandeza.

Jesus lança mão dos elementos essenciais que são a poeira, a terra e a água. Inaugura uma nova criação.  O homem se torna criatura nova.  Pelo dom da vida do Servo pode ingressar nesse mundo novo.  A água viva vem purificá-lo e lhe confere nova dignidade.  O Mestre e Senhor de tal forma honra o homem que o faz ingressar  num  mundo completamente novo.

Um gesto fundador

O evangelho de João não descreve de maneira explícita a última refeição, a instituição da Eucaristia. O lava-pés lhe é semelhante.  Trata-se de uma ilustração viva desse Jesus, morto e ressuscitado que dá a vida por amor ao homem. A vida é dada em abundância.  O Reino está a caminho. Eucaristia e Batismo estão sempre ligados.  Não é de estranhar que  Jesus   convide os seus a que façam o mesmo, ou seja, que lavem os pés uns dos outros. É um exemplo que nos dá. Sempre estaremos por descobrir as plenas riquezas do batismo. Trata-se de uma visão de Cristo a ser captada, esse Jesus que está sempre em obra. No dia a dia, à nossa volta, são  incontáveis os gestos. Podemos reconhecê-los na qualidade humana do gesto dos enfermeiros e do pessoal hospitalar, no serviço discreto do voluntariado. Numerosos são os gestos de coragem, luta, respeito, atenção. O cuidar é da ordem das mais comezinhas realidades de todos os dias. Nem sempre tais gestos primam por visibilidade.  Não são facilmente detectados. Preciso será que alguém lhes tire o véu. Então, através de nosso olhar de fé, poderá se revelar a ação do Cristo Servo, sempre em ação  hoje no coração  de todo homem.

O mandamento de Jesus é igualmente para nós como uma porta  arreganhada, um convite premente. Vivemos hoje o tempo da busca do novo, tempo das invenções.  Jesus, o primogênito dentre os mortos, nos precedeu: hoje temos que inventar outros exemplos de lava-pés. Os gestos de serviço serão sempre novos.  Esses gestos de serviço sempre nos permitem entrar em contato com o homem e com o Cristo que reconhecemos como Senhor. As situações são novas e diferentes, por vezes mesmo desconcertantes.

A Igreja está sempre ligada ao serviço.  Não pode deixar de lado o avental porque perderia sua razão de ser. Essa trilha foi traçada para ela pelo seu Senhor. O gesto do serviço, em nome de Cristo, será sempre o distintivo dos que se sabem acolhidos, respeitados, honrados, lavados e salvos da poeira do caminho.

III. REFLEXÃO

“Menores”: na teoria e na prática

 

 

Esta palavra “menores” é singular. Ela tem força evangélica.  Ela nos coloca diante da medula do evangelho. Francisco teve iluminação especial para dar aos seus o nome de irmãos menores.

1. A palavra “minorismo”, sem dúvida alguma, faz parte da mais lídima herança franciscana. Sinal evidente disso é a própria sigla: OFM (Ordem dos Frades Menores). Não se deve confundir minorismo com minoridade (que se opõe a maioridade). A ouvidos menos afeitos ao nosso modo de falar, menor, pode evocar infantilidade, falta de maturidade humana, pessoa sem coragem de agir, incapaz, ingênua. O minorismo evangélico-franciscano também não se refere apenas às conhecidas minorias étnicas, sociais e outras, embora tenha muito a ver com elas. São Francisco dá um nome muito preciso àqueles que optaram pelo seguimento de Cristo em sua companhia: “Quero que esta fraternidade se chame Ordem dos Frades Menores” (1Cel 38). Esse nome nos define. Não somos irmãos pobres, irmãos humildes, irmãos pequenos, mas irmãos menores.

2. Vejamos como Eloi Leclerc situa o tema: “Mobilidade apostólica, pobreza, fraternidade, inserção nas cidades, todas estas notas distintivas da nova forma de vida evangélica ainda não são suficientes para definir a comunidade franciscana primitiva. Todas elas estão presentes, com algumas diferenças, nos movimentos evangélicos da época. Se quisermos caracterizar a experiência franciscana primitiva em sua singularidade é necessário acrescentar outro traço essencial. Tomás de Celano relata o seguinte: “Quando Francisco estava escrevendo a Regra: ‘e sejam menores’, ao pronunciar estas palavras disse: Eu quero que esta fraternidade seja chamada de Ordem dos Frades Menores. “Frades menores”, essa designação vem iluminar e precisar a ideia que Francisco faz da vida dos irmãos e de sua vocação evangélica na sociedade e na Igreja” (Eloi Leclerc, Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, VOZES/CEFEPAL, p.61).

3. Leclerc lembra, no mesmo texto, que a expressão “minores”, embora inspirada no Evangelho, na época, tinha conotação de distinção ou diferença de classes. Em oposição aos “maiores”, aos ricos burgueses que detinham o poder econômico e político na nova sociedade das comunas, designava-se de “minores” o povo simples das oficinas e dos porões. “Minores” englobava todos os que, na nova sociedade, não ocupavam os primeiros lugares e, que algumas vezes, não tinham lugar nenhum.

4. Precisamos sempre nos voltar para o texto da Regra não Bulada: “Nenhum irmão exerça qualquer poder ou domínio, mormente entre si. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam, e os que são maiores exercem poder sobre elas (Mt 20,25); não será assim entre os irmãos (cf. Mt 20, 26); e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro ( cf. Mt 20,26) e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se como o menor (cf.Lc 22,16)” (Regra não Bulada 5, 9-12). Francisco enraíza seu desejo de “minorismo” na própria pessoa do Senhor e no ensinamento do Cristo-servo. Sua intuição é cristológica. Na Regra, Francisco refere-se às palavras dos evangelhos (Mt 20,25-26 e Lc 22, 24-27). Cristo orienta os discípulos a respeito do modo como devem ser tecidos os relacionamentos e a maneira como exercerão as responsabilidades no seio da comunidade nova que ele acaba de instaurar. Será uma atitude oposta à dos príncipes e dos grandes deste mundo. Trata-se de uma revolução no seio daquela sociedade. A fraternidade evangélica não se apoia no poder e na dominação. Francisco insiste em palavras como ministro e servo e que o maior se faça o menor. Desnecessário dizer que ministro nos lábios de Francisco quer dizer empregado, servo, servidor.

5. Quando no capítulo 7 a Regra não Bulada fala do trabalho dos frades feito em espírito de serviço, transparece novamente o minorismo: que trabalhem sem serem tesoureiros ou despenseiros, que não aceitem trabalho que provoque escândalo, sejam menores e submissos a todos os que estão na mesma casa. O mesmo espírito aparece em texto da Carta aos Fiéis quando fala dos que são ministros: “Aquele a quem foi confiada a obediência e que é tido como o maior seja o menor e servo dos outros irmãos. E faça e tenha misericórdia para cada um dos irmãos, como gostaria que se lhe fizesse, se estivesse em caso semelhante. Não se ire contra o irmão por causa do pecado dele, mas, com toda paciência e humildade, admoeste-o benignamente e o apoie”.

6. O frade menor enraíza seu minorismo/serviço no coração desse Deus “que não veio para ser servido, mas para servir”. Compreendemos assim porque nesta lógica de amor Francisco fará do minorismo/serviço um dos termos-chaves de sua espiritualidade. “Servo” é o único título que ele atribui a si mesmo em seus escritos. No seu modo de ver as coisas, a conversão evangélica nos faz passar do instinto de dominação à vontade de servir.

7. Insistimos nos termos menores e servos. “O nome de “Frades Menores” que usamos exprime uma exigência de fraternidade e, ao mesmo tempo, de um serviço humilde (minorismo). A começar pelo interior de nosso grupo, nós somos convidados a deixar de lado qualquer domínio ou vontade de poder e prestar os mais humildes serviços. Em relação a todos, submissos a qualquer criatura devemos apresentar-nos, em comunidade e individualmente como pequeninos, como servos que ninguém teme, porque os servos esforçam-se por servir e não por dominar ou se impor, sobretudo no campo espiritual. Uma semelhante atitude exige o espírito de infância, pequenez a simplicidade, um otimismo decidido perante os homens e os acontecimentos. Há que aceitar a insegurança no plano das instituições e das ideias, a incerteza com relação ao futuro. Há que reconhecer que somos fracos e vulneráveis, “servos inúteis” e que ninguém é forte, senão Deus. Contribuiremos assim, por nossa parte, em fazer resplandecer o rosto da comunidade cristã, que é também o rosto do seu Senhor, o qual veio para servir e não para ser servido (cf. A vocação da Ordem hoje, Documento OFM. 2005, p. 21).

8. Sois chamados à liberdade. A formação permanente na Ordem dos Frades Menores (Roma, 2008) aborda a evangelização com a conotação do minorismo: “Deus nosso Pai nos criou livres; Jesus Cristo, nosso irmão, nos redimiu e enviou-nos ao mundo para anunciar o Reino de Deus, fermento de libertação para todos os que são oprimidos. A Fraternidade franciscana proclama o advento desse Reino com sua presença silenciosa e quando, movida pelo Espírito, anuncia a boa nova, reconhecendo o rosto de Cristo sobretudo nos pobres que são nossos mestres. Vivendo entre eles e como eles, descobre-se novamente o sabor do Evangelho. Cristo é o paradigma da minoridade, ele que esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos, e apresentando-se como simples homem. Animados deste mesmo espírito de fé, os Frades aprendem a compartilhar as alegrias e as esperanças , as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo escolhendo viver, por amor de Cristo que doou-se a si mesmo inteiramente, entre aqueles que superlotam os “lugares de ruptura” (p. 39).

9. A Ordem fez publicar em 2009 um subsídio para a formação permanente a respeito do Cap IV das CCGG da OFM intitulado Peregrinos e estrangeiros neste mundo. Dele colhemos os seguintes tópicos:

⇒ A minoridade é para nós, “irmãos menores”, uma forma de seguir a Jesus pobre e humilde, isto significa que afeta a nossa relação com Deus Pai, os relacionamentos interpessoais e nosso modo de estar entre os homens e mulheres.

⇒ Minorismo e vida com Deus: minorismo tem tudo a ver com o Natal , Paixão e Eucaristia, um Deus que nasce, vive e morre pobre e simples se faz presente na singeleza do pão e do vinho. Diante da beleza e grandeza do Senhor, o homem se sente “menor”, humilde. Francisco dizia: Por que a mim? Como pode orar um frade menor se não encontra sua própria verdade no ser “menor”.

⇒ Minorismo e vida de fraternidade: não é possível ser irmão, quando alguém se coloca acima dos outros; o amor fraterno só é espiritual quando é desinteressado; dentro da fraternidade todos os irmãos precisam ser valorizados; não podemos enterrar talentos e dons dos irmãos porque se tem medo de sua sombra; sinal de minorismo é a obediência fraterna; na fraternidade se haverá de preferir os menores delas: enfermos e idosos; quem é servidor dos irmãos há de ser o menor.

⇒ Estilo cotidiano de viver: partilha das atividades domésticas, opção por trabalhos socialmente considerados de baixo perfil, pobreza de bens materiais não somente como questão de austeridade pessoal, mas também de solidariedade com os desfavorecidos; colocar à disposição dos outros o que recebem como Dom de Deus.

⇒ Minorismo e missão: as Fraternidades nos meios carentes não deveriam ser uma exceção; redimensionar nossa atividade tendo em vista os simples, constante empenho de procurar dar dignidade aos excluídos.

Minorismo evangélico-franciscano

Frei Ludovico Profili, OFM, escreveu um texto denso comentando o Testamento de São Francisco (Francesco pura trasparenza do Cristo, Riflessioni e attualizazzioni sul testamento di S. Francesco, Ed. Porziuncola. Assisi 1986). Num determinado momento da obra reflete a respeito do minorismo evangélico-franciscano a partir das palavras do Testamento: E éramos iletrados e submissos a todos (Test 19). O autor procura atualizar as palavras de Francisco:

“Entre as lições que nos dá uma releitura do Testamento de São Francisco, sem dúvida, uma das mais importantes e atuais é a do minorismo. Este se faz necessário em vista da cura de dois males que, como as drogas, intoxicam mortalmente a atual sociedade tão calcada no bem-estar: o orgulho do poder e a avidez pelo saber.

O orgulho do poder “dopou” de tal modo o homem que, para afirmar-se a si mesmo, busca com todos os meios – lícitos e ilícitos – de colocar-se acima dos outros, dominá-los e submetê-los às suas próprias ambições. Isto acontece em todos os setores da vida, passando pelos absolutismos ditatoriais – seja de esquerda ou de direita, culminando com o culto da personalidade. De sua parte, os que não aceitam esta subserviência, reagem com luta violenta ou não violenta, com a insurreição ativa ou passiva; com a guerra quente ou fria: o mundo fica dividido e a divisão gera ruína.

A avidez pelo saber sob as aparências da busca de cultura, faz-se árbitro da verdade, coloca-se acima da fé e da moral, descarta as leis humanas e divinas. Com suas ideologias, com a descoberta de segredo da natureza com a tecnologia, se afirma que podem ser resolvidos todos os problemas da vida. Como a droga física, cria uma euforia ilusória que em vez de curar os males os torna mais graves reduzindo o homem a um pequeno resto. Assim esta dupla droga moral, depois de uma momentânea exaltação, leva inexoravelmente o homem à depressão, à perda, ao medo.

Que remédio? Aquele proposto por São Francisco: desintoxicar a consciência humana com o antídoto do minorismo evangélico. Reconhecer que os dons da vontade e da inteligência nos foram dados por Deus para serem colocados a serviço dos irmãos e de todas as criaturas. Como consequência, o Poverello recomenda: vocês, poderosos, se não quiserem se desumanizar, acreditem no Evangelho, usem o poder em benefício dos outros; vocês ricos para não submergir na lama do lucro, guardem o necessário e o resto que lhes pertence seja dado; homens cultos não façam do saber instrumento de suas ambições, mas dom de sabedoria em prol da verdade, do bem e do belo. Da mesma maneira, vocês, fracos, tomem consciência da força de seus direitos com determinação e coragem, sem a pretensão de explorar os ricos e cair no mesmo erro deles; você, pobres, lutem com a força da não violência a fim de obterem os bens necessários para a vida familiar e social; os que são iletrados busquem a sabedoria que edifica, não a ciência quem incha” (p. 131-133).

IV. NOSSA ATUALIDADE

O Capítulo: evento de comunhão

 

 

Com muita satisfação transcrevemos reflexões  de Enzo Biemmi proferidas por ocasião de assembleia de religiosas na Itália, abordando o tema do  Capítulo Geral como evento de comunhão. Enzo Biemmi é religioso,   irmão da Congregação dos Irmãos da  Sagada Família.  Estudou no Instituto Superior de Pastoral e Catequese (Paris). Especializou-se em catequese de adultos. Exerceu a animação desse serviço em sua diocese de Verona, na Itália, durante anos a fio. Doutorou-se em Teologia  pela Universidade Católica de Paris  e  história  das religiões e  antropologia  religiosa pela Sorbonne. Hoje é presidente da Comissão Europeia de Catequese.   Conservamos, aqui e ali seu tom coloquial. Não fizemos uma tradução. Em alguns momentos sintetizamos o pensamento do autor. Ele procura  refletir sobre o Capitulo, como evento de comunhão. Estas linhas podem ser úteis também para grupos de espiritualidade constituídos de leigos que têm também, de tempos em tempos, eleições e revisão regular de seus objetivos. Embora o texto focalize Capítulo Geral, suas considerações são perfeitamente aplicáveis a um Capítulo Provincial. O  fulcro desta páginas é  buscar fazer de sorte que o Capítulo seja evento de comunhão, antes, durante e depois de sua realização. Um evento “espiritual”. O texto conserva o tom  coloquial.

Fui convidado a refletir sobre o Capítulo Geral como evento de comunhão. Não é fácil abordar este tema diante de uma assembleia de pessoas com grande experiência de governo e que já participaram em muitos Capítulos. Melhor teria sido um trabalho de escuta mútua,   partindo dos questionamentos de cada uma de vocês e colocando em comum experiências, tentativas realizadas e descoberta de caminhos novos. Esta assembleia tem em si mesma recursos para fazer do Capítulo um evento de comunhão. Convido a que tomem minhas palavras simplesmente como ocasião para um diálogo.

A contribuição que pretendo dar não vem de uma competência  especifica sobre o tema, mas de longa experiência  de participação em Capítulos, gerais ou provinciais, seja como participante ou como coordenador ou assessor.

Abordar o tema do Capítulo como evento de comunhão supõe experiências outras que já tenhamos vivido.  Vivemos, muitas vezes,  em contextos em que somos convidados a fazer uma verificação, discernir, programar, tomar decisões,  projetar os passos para que  as tomadas de posição passem para prática. Em todos esses casos, trata-se de um trabalho feito em conjunto, que demanda uma série de atitudes e de procedimentos que condicionam substancialmente os resultados. A questão é sempre a de trabalhar juntos.

Não abordo todos os aspectos e filigranas que envolvem o Capítulo, tanto em sua fase preparatória, na sua realização ou em sua implementação. Não entro no mérito da finalidade de um Capítulo, conhecida por todos e que são indicadas com precisão pelas  Constituições próprias de cada Instituto.  Atenho-me ao que foi pedido: como, de fato,  um evento tão importante para um Instituto possa tornar-se uma experiência de comunhão.  As disposições e atitudes, por melhores que sejam, necessitam de um pano de fundo partilhado e devem ser acompanhadas de  método adequado.

Divido minha exposição em três partes:  na primeira delas indicarei a importância de se ter  um horizonte, uma perspectiva de vida religiosa, aspecto decisivo para se poder dialogar e discernir juntos. Na segunda parte descrevo algumas atitudes que deverão ser cultivadas antes, durante e depois do Capítulo. Na terceira procurarei  apontar  elementos para que as decisões possam tomar corpo e chegar a se concretizar num projeto compartilhado.

Um horizonte e uma perspectiva partilhada

O primeiro aspecto que quero colocar em evidência é que o Capítulo precisa de uma  inspiração, de uma prospectiva, de uma paixão que o perpasse.  Sabemos que os primeiros Capítulos depois do Concílio  tinham como finalidade  renovar nossos Institutos  e suas Constituições no clima da primavera do  Vaticano II e na linha de Perfectae caritatis. Foi o tempo da redescoberta de nossos carismas e do que se  convencionou  chamar de aggiornamento. A inspiração era forte e apontava para atitudes de garra e suscitavam esperança. Terminada a longa fase dos Capítulos de renovação, em muitos Institutos, passou-se a celebrar Capítulos temáticos. Através de um determinado assunto procurou-se revisitar o carisma e a vida de um Instituto a partir do ângulo escolhido.  O tema tinha a função de fornecer uma inspiração, propor um sonho, um elemento unificador, mas também propulsor, que levava para adiante. O tema fita sempre duas realidades: o carisma e os sinais dos tempos.

Não se pode deixar de dizer que o risco de se instalar numa modalidade repetitiva era um fato, particularmente nos anos recentes em que foi se infiltrando um certo cansaço e um estiolamento da esperança pelas dificuldades e crises que todas as formas de vida religiosa experimentam: diminuição das vocações, trabalhosa gestão das estruturas,  desistências, crise espiritual.

Passo agora a apontar alguns fatores que oferecem novas perspectivas e  sugerem capacidade de sonho. Gratuitamente se nos são oferecidos e abrem um novo período  para nossa vida religiosa.

O primeiro é o magistério e o estilo do Papa Francisco. Inegavelmente ele está dando uma “sacudida” forte na Igreja e no  interior da vida consagrada. Verifica-se alguma coisa que raras vezes acontece:  a profecia é colocada na frente de quem exerce o governo.  Profecia e “governança” coincidem. Palavra chave do Papa Francisco : uma Igreja em saída, convida a olhar as coisas a partir da periferia e não do centro, interpela e pede  que  assumamos nossas responsabilidades.

Trata-se de uma visão que procura despertar ainda uma vez, depois do período de graça do Concílio, os carismas que, inevitavelmente, tendem-se a estruturar-se e se tornarem repetitivos. Podemos imaginar a alegria de nossos fundadores e fundadoras com este “empurrão” do Papa Francisco, capaz de “ressuscitar” seus sonhos e seus projetos.

A segunda condição favorável é aquela que vivem todas as nossas Congregações:  a interculturalidade. Sabemos que os carismas nascidos no Ocidente estão se transferindo para culturas africanas e asiáticas. Esta  passagem em breve estará concluída. O encontro com culturas nas quais o carisma de origem não nasceu torna-se  formidável crisol para  lhe dar vida nova. Acrescentemos a isso a partilha do carisma com leigos, o que passa acontecer com todas as congregações religiosas. Trata-se de uma dupla extensão do carisma, cultural e eclesial. Nossos carismas, num futuro próximo certamente falarão línguas diferentes e cantarão cantos diferentes do que acontecia até agora.  Não seremos nós que veremos os resultados finais de um tal processo.

Por fim, assinalo ainda uma perspectiva nova, também dom do Papa Francisco.  Em sua Carta para o ano da vida consagrada  retomou o que já havia dito aos Superiores Gerais num longo diálogo que com eles havia mantido. O que caracteriza a vida religiosa não é radicalidade, mas a profecia. Eis as palavras do Papa: “Espero que ‘desperteis’ o mundo, porque a nota característica da  vida consagrada é a profecia. Como disse aos Superiores Gerais, ‘radicalidade evangélica’ não é própria só dos  religiosos: é pedida a todos. Mas os religiosos seguem o Senhor de maneira especial, de modo profético”. Esta é a prioridade que agora se requer; ser profetas que testemunham como viveu Jesus nesta terra (….). Um religioso nunca deverá renunciar à profecia” (n. 2). O religioso, profeta, não tem outros interesses senão os de Deus.  Habitualmente está do lado dos pobres. O profeta é sentinela e sabe quando chega a aurora.  É capaz de discernimento e tem a coragem de denunciar injustiças.  É uma pessoa livre.

O Papa Francisco convida os religiosos a se dirigirem a “outros lugares”: “Espero que saibais, sem vos perder em  vãs utopias, criar outros lugares onde se viva a lógica evangélica do dom, da fraternidade, do acolhimento, da diversidade, do amor recíproco. Mosteiros, comunidades, centros de espiritualidade, cidadelas, escolas, hospitais, casas-família e todo aqueles lugares que a caridade e a criatividade carismática fizeram nascer – e ainda farão nascer com nova criatividade -, devem  tornar-se cada vez mais  o fermento de uma sociedade inspirada  no Evangelho,  “ a  cidade  sobre o monte” que manifesta a verdade e força das palavras de Jesus”  (Carta aos religiosos, 21 de novembro de 2014).

A vida religiosa tem a finalidade de apontar para aquilo que o Espírito reserva para todos,  mas que ainda não foi  colocado em ato. Não somos chamados a ser perfeitos, mas a fazer ver em nossa carne que  Deus é mais generoso do que podemos imaginar, que corre o risco de fazer-se presente em nossa diversidade, que se serve de pessoas tocadas por  sua misericórdia para fazer misericórdia. Portanto, não se considera a vida religiosa na linha da radicalidade, mas da profecia,  sustentada por  nós  e ouvida por todo homem e toda mulher.

Importante que os próximos Capítulos Gerais possam encontrar novo elã, nova prospectiva, uma renovada capacidade de sonho. Uma vida religiosa em saída, marcada por um biodiversidade cultural, chamada a ser profecia do amor superabundante de Deus na fragilidade. Tais perspectivas “acordam” vida consagrada e, antes de tudo, criam comunhão. A primeira maneira de se criar comunhão é alimentar a capacidade de sonho, de esperança e de prospectiva. O cuidado na fase de preparação em pensar e dar forma a uma bela prospectiva (em geral assumida como tema do próprio capítulo) é fator determinante para fazer  do Capítulo um evento de comunhão.

Atitudes que criam comunhão

Nesta segunda parte tentaremos ver atitudes que favorecem a comunhão. Não faço uma exposição exaustiva. Elenco as atitudes em três grupos: quando se chega ao capítulo, aquelas com as quais se vive o capítulo e  aquelas  com quais se deixa a assembleia capitular.

Como se entra no Capítulo: levando em conta  o  que precede

No momento da realização de um Capítulo uma comunidade religiosa traz consigo toda sua história, seus aspectos positivos e seus limites. O Capítulo nunca começa como uma página em branco. Normal que sejam diferentes as expectativas devido às visões diferentes e à história dos relacionamentos.

No que se refere às expectativas podemos situá-las entre dois extremos. Há os que vivem pela primeira vez esta experiência congregacional. Investem interiormente convicções e esperanças de mudanças. De outro lado estão os que, tendo inúmeras vezes tal experiência, entram com certo pessimismo,  porque foram se dando conta que as coisas não mudam simplesmente devido a decisões capitulares. Excesso de expectativas e desencanto não são as melhores atitudes para  ingressar no espaço do Capítulo. Será preciso aceitar que a realidade  apresente-se mais complexa do que os sonhos. De outro lado será preciso  uma postura de confiança na vida que é sempre portadora de uma surpresa  e de um “plus” que não se esperava.  A novidade é possível.

Outro ponto a ser levado em consideração é a questão dos relacionamentos entre as irmãs e os irmãos. Apresentam marcas de história, positivas ou negativas. Quanto menor uma Congregação, melhor as pessoas se conhecem. Pode acontecer também o surgimento de  preconceitos com respeito a esta ou aquela pessoa. Há também espírito prevenido a respeito daquele ou daquela que tem o papel da autoridade  pelo simples fato de ser  autoridade. Não existe Congregação imune a esse tipo de “misérias”.

Acontece também que irmãos e irmãs cheguem ao Capítulo com visões diferentes, com características próprias de sua cultura e visões  particulares de teologia, de Igreja, de vida religiosa.  A diferença de cultura e de idade podem ter influência grande da vida cristã e religiosa e por vezes  contraditórias.  No começo do Capítulo há distância.  Como colocar-se em diálogo em vista de um discernimento feito na liberdade  (de modo adulto) e na fé (com disposição para a conversão)?

Fica, assim, evidente para todos, quando se inicia um Capítulo,  a necessidade de uma purificaçãoque é, ao mesmo tempo, um fato humano e de fé. Trata-se de criar um autêntico espaço de liberdade no  Espírito.

Em geral um dos objetivos da preparação de um Capítulo é prever  um tempo de oração, recolhimento e “purificação”. Se não for assim a conta será paga no decorrer do próprio Capítulo. Evidentemente, esta postura de “purificação” deverá acompanhar todo o tempo do desenrolar do Capítulo. Se assim não acontecer, a engrenagem não funcionará.  Esse  cuidado é indispensável para o exercício do discernimento.

Para nosso tema podemos encontrar uma analogia se o comparamos com o Sínodo dos bispos e com o estilo do Papa Francisco. Repetidas vezes o Papa Francisco tem insistido que ninguém entre no  Sínodo para travar uma batalha, com soluções prontas. Todos são convidados a formular francamente suas convicções e preocupações e, de outro lado, a escutar sem prevenções as dos outros. Há esta dupla disposição (liberdade de palavra e determinação); disponibilidade para acolher pontos de vista diferentes, portanto, uma postura de abertura  constituem o espaço de escuta da voz do  Espírito, do discernimento.  Não sei qual das duas é a mais exigente durante um Capitulo. Certamente, quando as pessoas se calam pode haver sério prejuízo para si e para os outros.

Como se vive um Capítulo

Talvez possamos mencionar duas atitudes que favorecem a comunhão durante a realização do Capítulo: importância em dar toda força àquilo que une;  a necessidade de fazer caminho a partir do que nos diferencia.

O que nos une

O que na verdade nos une não está dentro de nós, mas fora. A comunhão parte de uma dupla descentralização. Os relacionamentos comunitários constituem o grande crisol de nossas comunidades religiosas. As pessoas trazem para o Capítulo o que vivem em suas comunidades. O Capitulo é uma caixa de ressonância da dificuldade dos relacionamentos. Como criar comunhão num Capítulo quando já é penoso costurá-la nas comunidades de origem? Não se resolve o problema  dos relacionamentos comunitários procurando solução no interior da dinâmica comunitária: giraremos ao infinito em torno de nós mesmos.  Há dois polos rumo ao qual convergir, aqueles que nos constitui a cada instante como comunidade consagrada e missionária: fé no  Senhor Jesus deixando-nos constituir por sua Palavra; a mesma paixão e missão pelo homem.

Quando descentrarmo-nos na direção desses dois polos não encontraremos imediatamente a unidade, mas progressiva unificação,  certamente não por nossos empenhos,  mas pela força ao mesmo tempo centrípeta e centrifuga de nosso amor por Jesus, vivido com os outros e  de nosso amor por todos os pequenos e pobres da terra, amor levado adiante  como irmãos e irmãs universais. Nesse ponto, nossas misérias relacionais mais ou menos grandes  nada mais serão do que uma pedrinha em nosso sapato na estrada a ser percorrida. Haveremos de conservar a humildade.  As dificuldades serão menos sentidas quando  caminharmos no amor de Cristo e dos outros. Quanto mais nos concentramos em nós mesmos, sentiremos  mais dificuldades com as asperezas do caminho. A pedrinha não será tirada de nosso calçado. É contraproducente ficar apenas com dinâmicas internas. O amor de Jesus e dos irmãos, amor verdadeiro, poderá fazer união.

Valorizar aquilo que  distancia

O percurso para a comunhão, por paradoxal que possa parecer, se faz levando em conta as diferenças. Trata-se de um percurso que vai amadurecendo a partir de três passagens.

Partir da distância que nos separa significa aceitar que a unidade  não é nunca dada no começo  como algo a ser conservado e não  deixado de lado. É, antes de tudo, ponto de chegada. O caminho é feito de tensões.  A unidade que acontece no começo dura pouco. De outro lado, aquela que se atinge depois de um percurso que começa com a legitimação das distâncias (idade, cultura, formação, caracteres, sensibilidade) perdura através dos tempos.  Se, num Capítulo,  cancelam-se as distâncias, elas haverão de reclamar seu lugar. Serão obstáculo ao longo do caminho. Não podem ser ignoradas. Se as reconhecemos, damos-lhe nomes, ouvimo-las e elas serão nossas aliadas. Algumas manifestações de desconfiança e indolência dão a entender que não foi  devidamente levado  como ponto de partida normal o que nos distingue e nos distância.

No momento atual precisamos conceder-nos, reciprocamente e com magnanimidade, o direito de encontrarmo-nos no discurso comunitário num momento em  que  ninguém possui a verdade.  Cada um deve ter a possibilidade de dizer o que está em seu coração, o teor de suas preocupações, sua maneira de ver as coisas. Pode acontecer que alguns se omitam por preguiça, por timidez, por uma falsa concepção do que significa respeito. Nesses casos podem ser que se deslanchem perigosos mecanismos de resistência ativa ou passiva. O Capítulo não será um sucesso, porque faltou abertura ao Espírito.

A terceira passagem sabiamente corrige a anterior: renúncia de apresentar o seu ponto de vista  ou a própria experiência pessoal como regra da fé ou norma da verdade. Trata-se de renúncia à presunção. Todos têm o direito de expressar seu pensamento.  Direito e dever de escutar o que os outros pensam. Desnecessário dizer: ninguém impõe seu pensamento.

O resultado de um tal percurso  é a chegada a um ponto no qual  ninguém tinha estado e agora todos se encontram. A comunhão como meta (e não como ponto de partida) se atinge quando todos aceitam   caminhar na direção de um ponto de vista que não é de  ninguém. Os pensamentos de Deus estão além de nossos pensamentos. Nossas distâncias salvaguardam sua distância.

Na minha experiência verifiquei muitas vezes com surpresa e gratidão  que,  na medida em que  todos  foram levados em consideração, todos puderam exprimir livremente seu pensamento, todos evitaram movimentos de  presunção,  todos acorrendo, trabalhando, colaborando por que se chegou a um além, um nível superior e mais profundo, um terreno comum no qual todos largaram a presa e todos (ou ao menos grande parte) nesse momento todos sentem que estão trabalhando por uma causa comum, a causa de Deus e não a sua. Evidentemente a busca do consenso não elimina os conflitos, mas se nutre deles constantemente.  Quanto mais se der tempo a que cada um exprima sua maneira de ver as coisas, mais se torna possível o encontro de todos  rumo a um horizonte.

Como se sai do Capítulo

Chamo atenção para duas atitudes. Primeiramente a aceitação do  limite. Na verdade, não se sai de um Capítulo sem a sensação de que as coisas poderiam ter sido melhores. Há mesmo momentos em que se sai com frustração. Fica sempre um gostinho amargo no canto da boca.  Esta imperfeição pode ser vista como uma lição e até mesmo como o próprio caminho da encarnação. Aceitar os limites é a primeira condição para  que possam ser dados passos adiante. Não dominamos a história. Inserimo-nos nela e colocamo-nos a seu serviço.

Em segundo lugar sai-se de um Capítulo com a disposição de fazer a verdade.  A verdade se atinge quando a fazemos  juntos, e precisamente assim, ou seja,  no ato de fazê-las é  que  nos encontramos.  Isto quer dizer que o que foi objeto de discussão no Capítulo deve ser acompanhado por um profundo desejo de ser experimentado, de transformá-lo em vida. Se assim não for tratar-se-á de um mero diletantismo intelectual. Somente quando “fazemos” a verdade entrevista é que haverá o encontro.

Um método adequado

Uma última e breve observação a respeito da metodologia a ser seguida, porque esse é o maior serviço que podemos prestar à comunhão. O Papa Francisco assim o exprime: “Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para alcançá-los, está condenada a traduzir-se em mera fantasia” ( Evangelii Gaudium, n. 33). Se  a finalidade é viver um evento de comunhão, a busca adequada dos meios se traduz por um grande cuidado metodológico.

No que se refere a esse aspecto devemos levar em conta muitos aspectos organizacionais e metodológicos:

⇒ Pensamos, por exemplo, na fase preparatória que precisará envolver todos os membros de um Instituto, de maneira simples e direta. Não poucas vezes complicamos as coisas  com questionários  complexos, inventando demasiados encontros entre os membros da comunidade, correndo o risco, no final de tudo, de levar em conta  pouco ou nada de quanto emergiu devido à incapacidade de precisar  objetivos e modalidades na fase da consulta e depois pela  dificuldade de ler e entender os dados na fase da síntese.

⇒ Claro que há necessidade de preparar o Instrumento de trabalho. O que acontece, por vezes, é que documentos preparados com muito cuidado e esforço são praticamente ignorados no Capítulo, ou então são de tal forma complicados que tornam difícil o trabalho por grupos temáticos ou pelas comissões. Minha experiência diz que bom  é um documento simples breve, com alguns questionamentos de fundo é ideal para trabalhar e fazer trabalhar.

⇒ Importante o regulamento do Capítulo, com metodologia correta para os trabalhos de grupo, clareza a respeito do documento final, sua natureza e como escrevê-lo, discuti-lo e aprová-lo. Importante clareza também no processo de decisão até a votação.

⇒ O cuidado na metodologia é a forma que a caridade assume no ato de construir comunicação e comunhão.

⇒ Todos os temas que aparecem merecem aprofundamento. Chamo atenção para aquilo que se tornou um hábito adquirido como patrimônio comum: as etapas do processo de discernimento. Elas retomam, em linhas gerais, o ver, julgar e agir.

⇒ O primeiro passo consiste em analisar, no que se refere às diferentes questões como entendemos as coisas (ver); à luz da Palavra de Deus, das fontes do carisma, dos apelos da Igreja, dos sinais dos tempos, perguntar a que tipo de conversão estamos sendo chamados (julgar) (nesse ponto, o  “julgar” quer dizer deixar-se julgar por Deus; decidir os objetivos e passos concretos para fazer espaço para a visita do Senhor  (agir).

⇒ Não é necessário que este processo em três tempos seja rigidamente aplicado a todos os assuntos. Deve estar presente como pano de fundo nesta fase das decisões, como um jeito da mente.

⇒ O atalho mais perigoso é o do ver/agir (sem passar por um tempo de conversão) com o intuito de se chegar às decisões com pressa e sem interioridade. As decisões assim tomadas ficarão no papel. O passo mais importante e central é o do julgar, da conversão. Assim se coloca o problema não de forma extrínseca, imaginando que basta mudar estratégias e métodos. Necessário operar uma conversão  pessoal e comunitária.

Conclusão

O Cardeal Pirônio, quando Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, disse: “O Capitulo é sempre uma  celebração pascal. Será vivido num contexto essencial de Páscoa, assim  como a Páscoa comporta cruz e esperança, morte e ressurreição. Um Capítulo não é mera reunião de estudo, encontro superficial ou transitória revisão de vida. É portador de uma  grande novidade pascal  – uma criação nova do Espírito, uma firme e densa esperança”.

A dinâmica pascal perpassa toda a vida religiosa e todos os processos que dela decorrem. Os relacionamentos entre nós são marcados pela Páscoa, um lento processo de morte e ressurreição que verá sua plena realização depois da história.  Fazer do Capítulo um evento de comunhão é ter consciência de que  a comunhão não se consegue a baixo preço, mas pelo investimento que cada um estiver disposto a pagar  para que a vida religiosa seja  profecia não da concórdia terrestre, mas da comunhão nas distâncias, pela  graça do Evangelho.

Il Capitolo Generale evento di comunione
Enzo Biemmi
Consecrazione e Servizio
4, Iuglio/agosto 2015, p. 69-79.

V. TESTEMUNHO

“Tento ser um homem de oração…”

 

 

Declaração bela e vigorosa a respeito da força da oração expressa por  Gandhi.

 

Não sou um homem de letras ou de ciências.
Tento simplesmente ser um homem de oração.
Foi a oração que salvou minha vida.
Sem ela eu teria enlouquecido.
Se não cheguei a perder a paz da alma
apesar de todas as provações
é porque uma tal paz provinha da oração.
Pode-se viver alguns dias sem comer,
mas não sem rezar.
A oração é a chave da manhã e  o trinco  da noite.
A oração é aliança sagrada entre Deus e os homens.