Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Março 2018

MARÇO 2018

Ao longo do tempo de nossa vida e da história da comunidade dos discípulos de Jesus, há um período particularmente belo que se chama tempo pascal. No tempo que passa, ele antecipa a vida da glória. Durante algumas semanas refletimos sobre textos que falam da presença do Ressuscitado e ao mesmo tempo vamos nos acostumando com sua presença-ausência. O que é claro: temos a certeza de que ele nos acompanha, embora por vezes nuvens espessas nos assaltem.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor

 

(João 20, 19-31)

Jesus mostrou-lhes as mãos e o lado. Detenhamo-nos do esplendor da manhã de Páscoa.

Estamos vivendo o tempo da alegria.  Jesus ressuscitou e está no meio de nós. Nesse tempo pascal não cessamos de repetir aleluias e cantar jubilações. Como pano de nossa vida, de nossa fé, está ele, o Ressuscitado. A vida tem sentido. A morte não tem a última palavra. Colossenses recorda: “Vossa vida está escondida com  Cristo em  Deus” (Cl 3,3).

As portas estavam fechadas. Depois da morte do Mestre o pequeno grupo estava amedrontado.  Os apóstolos não queriam se expor à caçoada de alguns chefes religiosos que haveriam de dizer que se enganaram redondamente com esse Jesus que se deixou crucificar. Eles se trancaram. As portas estavam vedadas com barras de ferro. Talvez bem mais fechados estavam os corações do que as portas da sala.

“Não tenhas medo. Eu sou o primeiro e o último, aquele que vive.  Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte da  região dos mortos” (Ap 2, 17-18).

Jesus chega. Coloca-se no meio deles, como nos tempos passados. Passa, no entanto, através das portas fechadas. Aquele que chega, deseja a paz. Quer que o coração dos seus se aquiete, busque asilo na certeza de sua presença.

Aquelas mãos, as mãos de Jesus.  Ali estão as chagas. Mas chagas brilhantes, brilhosas, luminosas. Não se pode deixar de compreender que na vida de Jesus, como na vida de seus discípulos, chagas luminosas virão depois de chagas sanguinolentas…  elas  não podem ser separadas.

Aquelas mãos, as mãos de Jesus! O Ressuscitado mostra as mãos segundo o evangelista, pois, elas conservaram as chagas, as  marcas dos pregos.  Aquelas mãos que haviam tocado a madeira da carpintaria de José, que fizeram lama com saliva no chão, que tocaram os olhos dos cegos, que haviam abençoado as crianças! Aquelas mãos tinham preciosos rubis. O escarlate do sangue brilhava e os apóstolos experimentam uma grande alegria.  Jesus infunde a paz no coração dos temerosos e medrosos discípulos.

“Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Ele viera da parte do Pai. Agora, Jesus ressuscitado enviava os seus apóstolos. Tinham que abrir as portas e ir pelo mundo afora anunciar a vitória do amor sobre o ódio, que a morte não tinha mais a derradeira palavra.

Eles seriam embaixadores do perdão.  Nas primeiras páginas das Escrituras, Deus soprara  sobre o primeiro homem feito de barro e de terra e ele se tornou alma vivente.Os apóstolos, constituídos mensageiros do perdão, são habitados pelo sopro do Espírito. A missão da Igreja é anunciar o mundo novo da paz, da vida, do perdão dos dilaceramentos, das indiferenças, das crueldades desde que os coração se tornem contritos e arrependidos. O perdão é o grande presente pascal.

Tomé, porém, chegara mais tarde. Queria provas da ressurreição.  Queria tocar as chagas. Queria ver.  Felizes os que não viram, mas creram. Felizes nós que tivemos a graça de organizar nossa vida à luz do Ressuscitado, que sentamos à mesa com ele  para nos alimentar de seu corpo,  que fazemos dele o sentido de vida, ele que penetra o amor de um homem e de uma mulher, que deita óleo em nossas feridas e instila esperança em nossas vidas.


TEXTO SELETO

Abrir as portas

O Evangelho de João descreve com traços obscuros a situação da comunidade cristã  quando em seu centro falta Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a Igreja se converte  num grupo de homens e mulheres que vivem  “numa casa com as portas fechadas  por medo dos judeus”.

Com as portas fechadas não se pode ver e ouvir o que acontece lá fora. Não é possível captar a ação do Espírito Santo no mundo. Não se abrem espaços de encontro e de diálogo  com ninguém. Apaga-se a confiança no ser  humano e crescem os receios e preconceitos. Uma Igreja sem capacidade de dialogar é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a atualizar o eterno diálogo de Deus com o ser humano.

O medo pode paralisar a evangelização e bloquear nossas melhores energias. O medo nos leva a rejeitar e condenar. Com medo não é possível amar o mundo.  Se não o amamos não o olhamos como Deus olha.  E, se não olhamos com os olhos de Deus, como comunicaremos a Boa Notícia?

Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar algum  leproso excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores ou prostitutas? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião?  Os querem buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.

Nossa primeira tarefa é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para defender-nos do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas igrejas, grupos e comunidades. Que só Ele seja fonte de vida, de alegria e de paz.  Que ninguém ocupe seu lugar, que ninguém se aproprie de sua mensagem. Que ninguém imponha  um modo diferente do seu.

Já não temos mais o poder de outros tempos. Sentimos a hostilidade e a rejeição em nosso entorno. Somos frágeis. Mais do que nunca precisamos abrir-nos a sopro do Ressuscitado para acolher seu  Espírito Santo (Pagola, João,  p.256-257).

II. MEDITANDO E REZANDO

No Jardim da Ressurreição: uma mulher chamada Maria

 

 

Ela se chamava Maria.
Tinha se levantado muito cedo depois de ter rolado
a noite inteira  na cama sem pegar no sono.
Agora levava perfumes e aromas ao túmulo do homem
que havia marcado seus dias.

Mas, onde estava aquele corpo? Será que alguém o roubara?
Mas quem?
Sem ninguém por perto, ela andava de um lado para o outro
quase doida  porque o corpo de seu amado havia desaparecido.
Quase doida…

“Maria, por que procuras entre os mortos aquele que vive,
aquele que é o Vivo?
Ele passou, passou entre nós fazendo o bem.
Morou um tempo em  Nazaré, percorreu a Palestina,
comeu tâmaras e damascos,
bebeu a águas das fontes e dos poços,
sentou-se à mesa com gente de toda espécie,
foi a festas de casamento,
esteve perto de uma mulher que perdera seu único filho,
tocou o coração dos pequenos,
marcou para sempre muitas vidas.
Tu, Maria, sabes de tudo isso.
Ele te tocou profundamente.
Agora experimentas desespero de ter que viver sem ele.
Maria, por que procuras entre os mortos  aquele que vive?
Ele não tem mais nada a ver com a morte.
O Pai o arrancou das trevas…
Depois de ter vivido nossa vida e experimentado
a morte dos humanos o teu  Senhor ressuscitou.
Tu o encontrarás no rosto dos mais desvalidos da terra,
na palavra que ele continua proclamando,
presente sobre a toalha alva do pão branco e do vinho
rubro e generoso.

Maria, por que choras? A quem procuras?

Ele vive nos arrasta atrás dele…”

“Sim, eu vi o túmulo vazio, o sepulcro abandonado, anjos da cor do sol  dobrando ao chão o lençol”

III. PASTORAL

Conservar ou renovar?

 

 

Neste ano de 2018, a arquidiocese de São Paulo realiza um sínodo:  caminho de comunhão, conversão e renovação missionária.  Transcrevemos uns poucos tópicos da  Reflexão de Abertura proposta pelo  Senhor Cardeal  Odilo Pedro Scherer.

Não seria a partir desta e de outras análises que dever-se-ia agir?  Não se pode  ficar com uma pastoral de balangandãs. Vale a pena refletir em grupo sobre estas linhas  e lançar um olhar  para a realidade.  Convém ler e reler o episódio dos  discípulos de Emaús.

Estamos diante de alguns sintomas preocupantes  em nossa Igreja de São Paulo: o esvaziamento da prática dominical e da procura dos vários Sacramentos (batismo, crisma, casamento, confissão, unção dos enfermos…); a quase ausência de crianças e jovens em nossas comunidades;  a pouca expressão da catequese; certa burocratização de nossas paróquias e da ação pastoral com excesso de estrutura, sem alcançar o foco daquilo que deveria ser a nossa ação evangelizadora;   dispersão das energias pastorais; fraca  incidência  dos católicos na vida social, política e cultural e na formação da opinião pública; certo desânimo dos pastores  e fiéis, acompanhado de azedume e de críticas amargas aos irmãos e à própria Igreja; tendência individualista acentuada que se manifesta no descompromisso com a comunidade de fé e no modo subjetivo e relativista de acolher  os ensinamentos e orientações da Igreja; evasão dos católicos para outras denominações cristãs, ou abandono  total da  vinculação  com a Igreja como também abandono da fé.

Isso tudo nos interpela: o que está acontecendo?  Vamos continuar como estamos sem tomar conhecimento das lacunas na evangelização e do risco de esvaziamento de nossas comunidades, fazendo de conta que nada mudou e tudo continua como sempre foi?  Vamos continuar a fazer uma pastoral de mera conservação, ou queremos avançar para uma impostação mais missionária de nossa ação eclesial? Já avançamos algo  na “conversão missionária” e na “Igreja em saída”, à qual o Papa nos convoca?

(…)

Precisamos renovar nossa fé, esperança e caridade e pedimos com fervor que também nossos corações  e os de nossos irmãos desanimados se aqueçam novamente e se encham  de fervor e de ardor missionário, para a renovação  pastoral e missionária tão necessária de nossos tempos!  No caminho do sínodo vamos perceber que ele,  Jesus, não abandonou a Igreja, mas caminha com ela, renova-a através de constante ação do Espírito Santo, na alegria de crer e de proclamar a Boa Nova do Evangelho  à Cidade mediante o testemunho da vida cristã e eclesial. No encontro com Ele, na Eucaristia e na escuta atenta  de sua Palavra  vamos perceber que precisamos de conversão e renovação pastoral e missionária. Os discípulos de Emaús estavam fechados em si mesmos, remoendo sua frustração e desânimo. O renovado encontro com Jesus Cristo lhes deu novo ânimo e a conversão missionária que haviam perdido.  Esqueceram o desânimo, o cansaço, as murmurações e seu projeto pessoal de vida, longe de Jesus e da Igreja e se lançaram novamente  no caminho da missão em comunhão com as comunidades dos outros discípulos.

IV. VOZ DE UM PADRE DA IGREJA

Como reconciliar-se com o irmão

 

 

Correção fraterna

Teu irmão foi para ti ocasião de provação e a tristeza e  te levou ao ódio? Não te deixes vencer pelo ódio e sim pelo amor. Sabes como?   Rezando a Deus sinceramente por aquele que te ofendeu, desejando que que  ele  seja perdoado,  tornando-te  tu mesmo seu advogado, aceitando a provação que incidiu sobre ti e acolhendo tudo com coragem até que a nuvem se dissipe.  Não firas teu irmão com palavras ambíguas, de forma que ele te dê o troco  tim tim por tim e que os dois fiquem num espaço interior longe da caridade. Com a franqueza da amizade vai ter com ele, repreende-o e, supressas as causas do mal-estar, os dois haverão de se ver livres da amargura. A alma que alimenta o ódio contra um homem não pode estar em paz com Deus. “Se não perdoardes aos homens suas faltas, o vosso Pai celeste não perdoará as vossas” (Mt 6,14). Se ele não quiser fazer a paz  ao menos haverás de guardar-te de o odiar, reza sinceramente por ele e não fales mal dele com ninguém. A finalidade dos preceitos do Salvador é tirar o espírito do caos do ódio e leva-lo ao seu amor e ao amor do próximo.  Nesse  empenho nasce o verdadeiro conhecimento.

Máximo, o Confessor
Monge do Oriente (580-662)

V. VARIAÇÕES

Pensamentos e provocações

 

 

Jean Sulivan ( 1913-1980) é o pseudônimo de  Joseph Lemarchand, padre, escritor e pensador de grande profundidade. Aqui vão algumas de suas provocações em forma de pensamentos de um Diário.  Provocações cheias de  argúcia, salpicadas de ironia.

Curar – Curar nossas ideias:  somente olhando o mundo como um livro de Deus. O livro está escrito em braile e só nos entrega o Ausente-Presente.

Um homem forte –   Diz-se de uma pessoa que fica firme em suas ideias é uma pessoa forte. Perseverança com cegueira  manifestariam força? Com o andar do tempo a idade propicia:  faculdades enfraquecidas, imaginação em baixa, endurecimento do coração eis as raízes de uma pessoa forte. Alguém que chega a dizer:  “Não estou certo de minha opinião”. Que maravilha!

Parentesco espiritual – Temos amigos-relacionamentos com os quais vivemos constantemente anos a fio. Eles não existem em nossa verdade. Os corpos se fazem próximos, mas na realidade são mais estranhos uns aos outros do que pedras. Alguém se torna imortal quando nossa alma se mistura com a dele. O parentesco espiritual é mais forte do que a proximidade carnal.

Museu do Prado – Quando Goya, antes de abandonar a fé,  afasta-se da expressão formal dos  mistérios cristãos  é então que exprime uma atitude cristã.

Peso – Muito mais difícil de salvar a alma de coisas pequenas e medíocres, de palavras ditas cem vezes originárias do coração e do espírito, sorrisos falsos, de “obrigado” e de “nada”, de mentiras consubstanciais à vida do que do que é feito de pura maldade. E esses “pesos pequenos” destroem  muitos homens.

O fogo – Quando Javé quer se fazer conhecer por Moisés ele o coloca diante da sarça ardente.  Vim trazer  fogo à terra!   Em certos períodos a Igreja faz somente fumaça.  Verdade que  não há fumaça sem fogo.