Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Outubro 2018

Francisco, o que te faz viver?

Muito se fala dele. Escreve-se sem cessar a seu respeito.  Há os que o seguem nas Ordens. Outros vão atrás dele sem mais. Ele encanta.  O que ele vive nos faz viver. Mas, afinal de contas, o que faz Francisco viver?

Francisco está muito perto de nós, bem presente. Deixou a terra dos homens há tantos séculos e tem-se a impressão de que está vivo e que vamos encontrá-lo nas esquinas de nossa vida.  O cardeal argentino Jorge Bergoglio, adotando o nome de Francisco, parece que anda fazendo com que o Poverello reviva. De seus escritos, suas falas salta a figura e as posturas de Francisco.

Há tempos atrás um filme coreano chamou minha atenção. Um casal, a vida de todos os dias, as horas cinzentas, o desgaste do casamento, a usura do tempo… O marido havia optado por situações conjugais confusas e turbulentas. Um dia, uma das mulheres que tinham passado por sua vida, colocou a questão: O que te faz viver? O homem não sabia o que contestar. Ficou com a cabeça baixa, todo desajeitado. Penso que todos nós, homens, cristãos, frades não podemos deixar de enfrentar essa mesma interrogação e respondê-la pessoalmente.  Lançando mão de alguns dados da vida de Francisco tentamos ver o que era importante para Francisco, aquilo que o fazia viver.

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>>Francisco tem um temperamento nobre. Não pode ser colocado no número dos pecadores contumazes. Ao longo de sua vida, no entanto, sentiu uma saudade do infinito, do que é grande, do que é nobre. Não podia e não queria contentar-se com o viver por viver. Tinha sede de plenitude. Sede do Infinito. Sede de entrega ao Mistério que o andava rodando. Francisco é um ser irrequieto e buscador das estrelas. Achegou-se, foi atraído pelo Senhor e de seus lábios não saía outra pergunta: “O que queres de mim?” A busca da resposta a esta indagação fará com que ele viva. Longe dele a rotina e a mesmice. Está sempre disposto a recomeçar. A sede não cessa de arder em sua garganta.

>> Francisco deixa-se fascinar pelo Senhor. Não sabe o que fazer para encontrá-lo, estar com ele, viver um relacionamento esponsal e terno com esse Deus que o encanta. No meio das tarefas da vida, das contradições e oposições, sempre buscará o silêncio, o eremitério, a intimidade com Deus. Nada o fará perder o espírito da santa oração. Chegará mesmo ser possuído pelo Senhor. Ficará imóvel acolhendo as visitas do Altíssimo.

>> O que faz Francisco viver é certamente o desejo de seguir Cristo Não se trata de uma teoria. Quer colocar seus passos nos passos do Mestre. Aos poucos vai fazendo com que seu eu e seus desejos cedam lugar a Cristo.  Francisco reescreve o Evangelho em sua carne. Cristo é seu companheiro de estrada. Parece ter encontrado Cristo, entre outros lugares, na miséria do leprosos.  Pouco depois deixa o jeito mundano de viver. Quando lemos seus escritos temos certeza de que Cristo o faz viver. De tanto conviver com Cristo, falar dele, viver dele  foi sendo dele. Ou foi sendo outro igual a ele?

>> Francisco deseja dar sua colaboração para que o amor seja amado. Faz de sua vida um labor de anúncio do amor.  Não consegue reter dentro do peito o amor que o Senhor lhe dedica e vai, enquanto pode, chorando o amor que não é amado e que precisa ser amado. Um andarilho, um viandante um espalhador de sementes, um alegre arauto do grande rei.  Isso  que o faz viver.

>> Simples, vivendo simplesmente, nada de sofisticação. Restituindo ao Senhor o que do Senhor recebia, vivendo exteriormente pobre e nunca com “nariz arrebitado”. Sem discursos, pensa no outro, dá lugar ao outro, vai comer uva com o irmão doente, chama de “irmão” a uma senhora  chamada Jacoba.  Uma pobreza que canta e não uma miserabilidade exterior. Um ser que se esvaziou de si mesmo e viveu livremente para os outros.  Simplicidade, pobreza e fraternismo se unem em sua figura.  Isso o faz viver.

>> Um ser aberto, livre de si mesmo, extasiado diante do Altíssimo, irmão dos homens, das plantas, do vento, do lobo, um bailarino diante de Deus, rico de toda pobreza. Um encanto de ser humano.

O que se diz a respeito de Francisco?

Alguns depoimentos sobre Francisco e aquilo que fazia viver. Poucos depoimentos que nos ajudam a  sempre ir completando o perfil de Francisco.

>>Humanista e humorista: Francisco ao longo de sua vida foi um fenômeno de massa, certamente por seu estilo evangélico, mas também porque era um gênio em termos de comunicação.  Captava imediatamente as necessidades e expectativas de quem dele viesse se acercar.

Tinha um inato sentido para o espetáculo. Era um artista. Nos tempos de sua juventude cantava pelas ruas e participava das serestas com seus amigos. Depois de sua conversão costumava expressar-se na pregação com movimentos corporais e gestos semelhantes aos dos trovadores e jograis. Se em sua juventude havia sonhado ser  cavaleiro servindo-se da linguagem cavalheiresca da época, depois de sua conversão continuava empregando um vocabulário de palavras e imagens muito diversas da linguagem religiosa habitual. Falava de seus frades como cavaleiros da Távola Redonda, da pobreza como uma noiva. Às vezes pregava com a linguagem de cantigas de  amor  em voga na época, transformando-as,  dando-lhe um sentido religioso.  Conseguiu superar a dicotomia entre sagrado e profano, laical e clerical, linguagem profana e linguagem eclesiástica. Certa vez, ante suas admiradoras do sexo feminino, improvisou  uma  pregação feita apenas de gestos.

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Sua conversão ao Evangelho não tirou dele este aspecto jovial e festivo. Ao contrario, chegou mesmo a potenciá-lo. Para ele, Deus era uma festa e dançava quando dele se aproximava ou dele falava.  Sua própria vida era permanentemente celebração litúrgica pelos campos e nas cidades.  Para ele, a natureza era o templo visível da divindade  onde ele celebrava espontaneamente a liturgia cósmica.

Inventou um estilo novo de encarnar o Evangelho unindo intimamente a coerência da mensagem de Jesus  com seu jeito jovial e festivo. A santidade com a poesia. O humanismo com o humorismo. A religião com a estética. Conseguiu revestir o cristianismo de alegria.  Seu estilo de vida tão original foi bem captado pelas multidões que sempre  sabem descobrir o essencial da vida. (José Antonio Merino, Encarte de Vida Nueva n. 2263)

>>Francisco e o Papa Francisco: Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração no momento da minha eleição para bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos maios pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e com si mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior.  (Laudato Si’”,  10).

Não era isso que fazia Francisco viver?

Em torno dos estigmas:

Estigmas, sinais de um desejo de privação de toda posse:  Aquele  que tem as mãos estigmatizadas não pode mais assenhorear-se  do  mundo como antes.

Aquele cujos pés estão estigmatizados não pode mais caminhar pela terra como conquistador e dominador.

Aquele tem o lado atingido não pode mais ocultar seus dons na caixa torácica, nem mesmo seus ressentimentos e remorsos.  O pássaro da liberdade encontra uma fresta  para se lançar livremente por montes e vales.

O homem que assim se reconhece, atingido em sua carne, nada tem de próprio, distribui os bens. A natureza é reencontrada em inédito esplendor. A fraternidade originária  esconde o ardor divino que o provoca.

Estigmas, forma de pregação –  Os estigmas constituem uma forma de pregação quando os lábios emudecem.  Os estigmas constituem um foco para a palavra do silêncio, aquela que se submete a todas as criaturas para melhor ser atendida.

Os estigmas são os lábios e pálpebras da carne que revelam e contemplam  as profundezas no momento  em que tudo se cala, onde o ambiente manda que se cale, onde acontece a cegueira e não um mero mal enxergar.

Quando o contencioso com os frades se torna mais forte, que o destino da Fraternidade franciscana parece incerto, quando o Evangelho corre o risco de ser uma utopia ou simplesmente um ingênuo sonho, Francisco toma a decisão de subir o Alverne e viver intensa solidão. Finalmente, no silêncio do intercâmbio misterioso, acontece um face a face, a partilha de sofrimento do amigo com o Amigo. Nada podemos dizer.  Simplesmente meditar em nosso coração.

Bernard  Forthomme,
Par excès d’amour. Les stigmates de François d’Assise,
Ed. Franciscaines, Paris  2004, p  28-29

E a nós, o que nos faz viver?

Estamos às vésperas de um Capítulo Provincial. Novo governo, novos projetos, novos sonhos. Sem romantismo, desejamos retomar o primeiro amor. Queremos viver esse amor de maneira nova porque  Deus faz novas todas as coisas.

Que pretensão!  Querer colocar preto no branco aquilo que nos faz viver!

>>Queremos viver, viver intensamente. Não queremos deslizar por entre as coisas. Queremos que nosso peito, nossos anseios, nosso ser mais íntimo sintam-se profundamente ligados ao Altíssimo e  Bom Senhor.  Não queremos perder o espírito da santa oração que não é apenas balbucio dos lábios, mas um estar sempre com Aquele que nos envolve. Queremos respirar o Senhor a cada momento.  Isto nos faz viver.  Custe o que custar.

>> Queremos viver em profundidade. Temos receio da correria desenfreada de um lado para o outro. Queremos colocar gestos e pronunciar palavras que saiam de dentro de nós, do nosso mistério. Não queremos ser agitados ventoinhas que não saibam dizer a razão de seu existir, que vivem de aparência, satisfeitos com pequenos sucessos. Queremos cavar profundidade em nós.

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>> O que nos faz viver é esse propósito de nos desvencilhar-nos de nós mesmos, de abandonar o culto macabro de nossos interesses. Sim, desvencilharmo-nos de nós mesmos e ter a consciência de uma pobreza que nos liberta e nos faz profunda e alegremente dependentes do Senhor e dispostos a acompanhar respeitosamente a vida dos que estão jogados à beira da estrada  e que carece serem levados à hospedaria da atenção e do amor. Que hospedarias temos a oferecer  aos que vivem sem sentido, drogados, mal casados, mal amados? Será que o peso das coisas que precisam continuar nos atrapalha?

>> Queremos, efetivamente, que o Amor seja amado. Durante a viagem da vida não desejando outra coisa, pelo modo pessoal de viver, pelos traços de bondade em nossos rostos e nos rostos dos irmãos. Queremos sempre mostrar o rosto do Amado: no jeito de estar com as pessoas, de fazer a homilia, de visitar os doentes, de criar novas chances para os pecadores, de atender na portaria, de “administrar”. Não queremos ser meros funcionários da paróquia, de um educandário. Queremos fazer de sorte que transpire nosso desejo de ver amado Aquele que amamos. Por mais fraca que possa ser nossa luz, ao longo dos oitenta ou noventa anos de vida, queremos que o Amor seja de fato amado.

>> Os tempos são turbulentos. Muitos de nós, franciscanos, fizemos nossa profissão há muitos anos atrás. Não queremos nos fixar no passado. Temos medo da esclerose, da repetição das coisas de ontem. E, no entanto, sentimo-nos mal com o mudar por mudar.  Mas temos que descobrir o novo: novo na formação do frade, novo na oração em comum, novo na partilha de vida mais profunda, novo no jeito de organizar nossas casas, novo na maneira de falar ao povo das coisas do Evangelho, novo para além de manias e ritos vazios. O que nos faz viver é a esperança de que o Espírito Santo  não deixa sua Igreja e que ele é o Ministro Geral de nossa Ordem.

>> Não queremos fazer de nossa vida um “museu de recordações” como diz o Papa Francisco (Gaudete et Exsultate, n. 139). Queremos que nossa vida e a vida das pessoas tenha sentido.   Nesse mesmo documento o Papa Francisco fala de algo que nos pode ajudar a viver: “Deus é sempre novidade, que nos impele a partir  sem cessar e a mover-nos para ir  mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos  aonde se encontra  a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo,  continuam à procura  de resposta para a questão do sentido da vida” ( n. 134).

>> Sentimo-nos mal nessa sociedade do consumo e do mercado, da indiferença e do “selfismo”, da pressa e da falta de coragem de olhar olhos nos olhos. Sentimos que uma vida profética poderia nos fazer viver.  Faz-nos bem as palavras do Papa Francisco dizendo que os religiosos são profetas. Temos vontade de viver o que ele diz:  “Espero que saibais sem vos perder em meras utopias  criar outros lugares  onde se viva a lógica evangélica do dom, da fraternidade, do acolhimento da diversidade, do amor recíproco”. Mesmo sabendo que nossos efetivos diminuem  continua nos fazendo viver  o fato de podermos ser apontadores de um mundo diferente.

>> O que nos faz viver é pensar no ser humano. Antes de tudo olhamos a pessoa. Tudo começa dentro de nossa casa. Seres humanos na secretaria das paróquias, nas missas de domingo, no confessionário, nas reuniões de catequese. Não queremos encher a cabeça das pessoas com doutrinamentos, mas abeirarmos dos humanos e nossa alegria é projetar luz nessas vidas a partir de nosso modo de ser,  com as cores do retrato humano de Francisco de Assis.

Novas formar de vida

Viver com Deus

Ite, nuntiate… Diretrizes  sobre as novas formas de vida e missão da Ordem do Frades Menores é um documento  da Cúria Geral  (2017).  Tendo em vista o Capítulo de Agudos colocamos na mochila aquilo que ali é dito sobre a vida com Deus. Os capitulares certamente lerão todo o documento. Reflexões sobre a vida fraterna e a missão evangelizadora não poderão ser deixadas de lado. Aqui apenas as considerações sobre a vida  com Deus.

A vida com Deus está na base de tudo, é o coração de nossa vida de frades menores; é a linfa que nos nutre e que nos dá força de cada dia para viver e aprofundar as relações fraternas; é a energia que acende o fogo da missão.  Viver a relação vital com Deus significa ter:

>> Um coração generoso, terno, aberto, disponível, que se deixe traspassar pelo Amor de Cristo e por aquele amor dos próprios irmãos, em particular em relação com os mais sofredores; uma relação amorosa com Deus misericordioso, que se perceba no frade, paz consigo mesmo e com os próprios irmãos.  A verdadeira paz que vem de Deus, o irmão pode comunicá-la se ele mesmo é reconciliado. Torna-se, então, possível promover, no  Espírito de Assis,  uma cultura da não violência, da benevolência, da docilidade  nas relações fraternas, do perdão e do respeito pela criação, para tornar-se, de acordo com o Evangelho, um semeador e um artesão da paz;

>> Uma capacidade de não reter as próprias certezas e de confiar no Senhor, que cuida de nossas vidas. É o que alguns frades itinerantes experimentam já há alguns anos, partindo sem dinheiro e sem saber com antecedência onde vão dormir, confiando totalmente na  Providência de Deus. Em cada uma de suas missões, lhes é possível ver como o Senhor se antecipa em cada ponto,  velando com eles com grande bondade;

>> Uma capacidade de saber descentrar-se para dar lugar a Cristo e de reconhecer que é efetivamente ele que conduz a missão e não o próprio frade. As competências de cada um são verdadeiramente úteis e muitas vezes bem empregadas, mas é importante cuidar para que não sejam dissociados Daquele que é autor desses talentos recebidos. É reconhecer em profundidade, em nível pessoal e comunitário, que o autor de nossas vidas é efetivamente o Cristo e que somos animados pelo sopro de seu  A vida da Fraternidade e de cada um dos irmãos tem Cristo como fundamento primeiro de solidez e de coesão, e não as capacidades e os poderes pessoais  de uns e de outros;

>>Uma atenção regular, sincera e renovada à mediação da Palavra de Deus, ao silêncio e aos tempos de adoração, cuidando da leitura orante da Palavra e vivendo com intensidade a Liturgia, com a sua densa espessura de evangelização;

>>Um amor pela Igreja, por seus santos e santas e, em particular pela Virgem Maria.

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Chispas que podem iluminar o caminho

Terminamos este número de  nossa  Revista Eletrônica  com uma  série de pequenas reflexões que, de alguma forma,  reforçam ou  desdobram   os assuntos  aventados ao longo das páginas anteriores. São chispas que podem reorientar nossos passos… pequenas  estrelinhas…

>> Profecia: nossa vida religiosa franciscana será, de alguma forma, um protesto profético contra uma acomodação letal constatada à nossa volta. Os religiosos contestam certo estado de coisas. Jean Sulivan fala assim da figura do profeta: “O profeta  não é alguém que diverte. Não observa o voo dos pássaros e nem lê nas linhas da mão ou na borra de café.  Sua missão não consiste em anunciar o futuro, mas em compreender o presente. Porque para compreender um momento do tempo é indispensável a visão do tempo em sua totalidade. Como para entender uma palavra precisa-se da frase; e para um versículo a Bíblia toda. O profeta em vez de divertir, dispersando como o prima, concentra toda a luz difusa num foco incandescente, na atualidade do acontecimento. Tudo o que acontece é pleno de passado e de futuro.  O profeta é o diário de Deus”.

Jean Sulivan,
“Provocação ou a fraqueza de Deus”, Editora  Herder,
São Paulo, 1966, p. 51

>> Uma vida em plenitude, um ser renascido: os que ingressamos na vida religiosa franciscana temos experiência de um novo nascimento: “Nascer de novo é nascer para além do egotismo, para além do egoísmo, para além da individualidade, em Cristo. Nascer da carne é nascer para a raça humana e para nossa sociedade com suas batalhas, seus ódios, seus amores, suas paixões, suas lutas e seus apetites. Nascer do espírito é nascer em Deus (ou no Reino de Deus), para além do ódio, para além da luta, na paz, na alegria, na modéstia, no serviço, na mansidão, na humildade e na força.

Thomas Merton,
“Amor e Vida”, Martins Fontes,
São Paulo  2004, p. 209

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>> Escuta: para que o caminhar de nossos passos no tempo que passa seja significativo será fundamental escutar: “Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só pode se configurar  como um recuo crítico perante o frenesi das palavras e das mensagens  que a todo minuto pretendem aprisionar-nos. Experimentamos como os modelos de vida impostos são atordoantes.  A compensação para nossas existências atenuadas é o entretenimento.  No entanto, a própria palavra “entreter” é reveladora: entre-ter, ter ou manter entre, numa espécie de suspensão que nos captura. E em determinado momento já não vivemos de lado nenhum, numa terra de ninguém que, é ao mesmo tempo a nossa morada e o nosso exílio. A arte da escuta é, por isso, um exercício de resistência. Ela estabelece um descontinuidade em relação ao real aparente, à sucessão ociosa dos contatos, à enxurrada  que a telenovelização  do cotidiano (político, econômico ou cultural)    A escuta  constitui, por vezes, uma incisão, um corte simbólico, uma recusa, uma deslocação. Uma coisa é certa: sem ela nossa vida se torna invadida, colonizada, uma vida que não nos pertence. Na sociedade da comunicação há um déficit de escuta.

José  Tolentino Mendonça,
“A mística do instante – O tempo e a promessa”,
Paulinas 2016, p. 116

>>Dar um passo em frente: a habituação, a rotina nos fazem marcar passos e perder a oportunidade de viver uma vida nova. Vejamos o que nos diz o Papa Francisco: “A habituação (a rotina) seduz e diz-nos que não tem sentido mudar as coisas, que nada poderemos fazer diante de tal situação, que sempre foi assim e todavia sobrevivemos. Pela habituação (rotina), já não enfrentamos o mal e permitimos que as coisas “continuem  como estão” ou como alguns decidiram que estejam.  Deixemos, então, que o Senhor venha despertar-nos, dar uma abanão na nossa sonolência, libertar-nos da inércia.  Desafiemos a rotina, abramos bem os olhos, os ouvidos e sobretudo o coração, para nos deixarmos  mover pelo que acontece ao nosso redor e pelo clamor da Palavra viva e eficaz do Ressuscitado”

Papa Francisco,
“Exortação apostólica
Gaudete et Exsultate”, n.  137

>> Pode estar chegando a primavera: “Chegam já, Senhor, em cada dia, discretos sinais do que virá: o amarelo das primeiras flores da mimosa, o verde tenro das heras sobre os muros, a luz que se despede sempre um pouco mais tarde. Essas coisas, que quase nem vemos, soletram a consolação que tu, o Criador, ofereces às tuas criaturas.  A nós que vivemos a desolação dos invernos  do mundo, anuncias a vizinhança da primavera. E, ao nosso coração, fazes perceber que isso não é apenas uma notícia, é também uma expressão de promessa”.

José  Tolentino  Mendonça,
“Um Deus que dança Itinerários para a oração”,
Paulinas, p. 74