Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Setembro 2018

SETEMBRO 2018

Aqui está a edição de setembro de nossa Revista Eletrônica mensal. Diante de seus olhos. Na tela do computador. Letras e textos que pretendem chegar ao seu nó interior, onde você é você. Nada de ler com pressa e diletantemente. São textos densos que nos convidam a viver ou a reviver. São coisas novas e velhas tiradas do imenso baú da vida. Quem sabe estas páginas ajudam-lhe no empenho de inventar a vida a cada dia.

Fr. Almir Ribeiro Guimarães, OFM

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

O mistério escondido no silêncio

 

Sabemos perfeitamente que toda sorte de silêncio não pode ser saudada com entusiasmo. Há mutismos hediondos e silêncios mortais. É certo, no entanto, que precisamos redescobrir os mistérios do silêncio. A editora Albin Michel de Paris publicou um texto provocativo sobre o silêncio através da história. Transcrevemos aqui o prólogo do texto, o prelúdio, como escreve o seu autor. Esta página de abertura do livro serve para nosso começo de conversa.

 

 

O silêncio não consiste apenas em ausência de barulho. Quase esquecemos isto. Pontos de referência auditivos foram se desnaturando, enfraquecendo, dessacralizando. O medo e até mesmo o horror pelo silêncio foram se intensificando.

No passado, os homens do Ocidente degustavam a profundidade e os sabores do silêncio. Consideravam-no como condição para o recolhimento, escuta de si, meditação, oração, sonho, criação, de modo todo particular como lugar interior de onde brota a palavra. Enumeravam suas características sociais. A pintura era para eles palavra de silêncio.

A intimidade dos lugares, de modo especial a do quarto e dos objetos de cada um, como da casa era toda tecida de silêncio. Depois do advento da alma sensível no século XVIII, os homens, inspirados pelo código do sublime, apreciavam os mil silêncios do deserto e sabiam percebê-los no alto de uma montanha, à beira mar ou nas paragens do interior.

O silêncio testemunhava a intensidade do encontro amoroso e parecia mesmo a condição para a fusão. Era presságio da duração dos sentimentos. A vida do doente, a proximidade da morte, a presença diante de um túmulo suscitavam uma gama de silêncios que em nossos dias nada mais do que remanescências e resíduos.

Como melhor experimentar tal coisa senão mergulhando em citações de muitos autores, efetuando assim uma verdadeira pesquisa estética? As citações de autores permitem ao leitor sentir como no passado se encarava o silêncio.

Nos tempos modernos ficou difícil fazer silêncio o que, inegavelmente nos impede de ouvir a palavra interior que acalma e apazigua. A sociedade insta a que as pessoas deem sua anuência ao barulho para sentir-se parte integrante do todo em vez de se colocar à escuta de si. Desta maneira acha-se modificada a própria estrutura do indivíduo.

Seguramente, alguns andarilhos solitários, artistas e escritores, praticantes da meditação, homens e mulheres retirados em mosteiros, aqueles que ocasionalmente visitam túmulos e mausoléus e, sobretudo os enamorados que se olham e se calam estão em busca do silêncio e permanecem sensíveis às suas texturas. Eles, no entanto, são como viajantes que naufragaram numa ilha, em breve deserta, cujas margens vão sendo corroídas.

O problema maior não consiste, como se poderia pensar, na acentuação da intensidade da grande balbúrdia no espaço urbano. Graças à ação de militantes, ambientalistas, ecologistas, legisladores, higienistas, técnicos que analisam os decibéis, o barulho das cidades que se tornou outro não é sem dúvida mais ensurdecedor do que no século XIX. O essencial da inovação consiste na hipermediatização, na permanente conexão, no incessante fluxo de palavras que se impõem ao indivíduo e que o levam a temer o silêncio.

A evocação, neste livro, do silêncio passado, do modo como era buscado, suas texturas, disciplinas e táticas, a riqueza e a força de sua palavra, pode contribuir par a reaprender a fazer silêncio, em outras palavras, fazer com que o indivíduo seja ele mesmo.

Alain Corbin
Histoire du silence
De la Renaissance à nos jours
Albin Michel, Paris, 2016, p. 9 a 12

II. COISAS DA FAMÍLIA

Aprender a olhar e a escutar

 

Um dos cuidados delicados dos pais na educação dos filhos é fazer com que aprendam a olhar e escutar. As linhas que se seguem, com graça e firmeza, nos mostram sendas a serem perseguidas.

 

Em nossos tempos, o modo preferencial, tanto para a comunicação como também para o conhecimento da realidade, em nível global, apoia-se no universo do audiovisual. Se alguma coisa não entra pelos olhos é como se não existisse. Cabe uma insistência na educação para o olhar.

Diante do império da imagem os pais não podem deixar de intervir para fazer com que os filhos saibam orientar seu olhar. Não é conveniente, com toda certeza, olhar indiscriminadamente tudo o que se apresenta aos nossos olhos. Há cenas que prejudicam a vista e também ao coração. Há imagens que precisam ser evitadas porque excitam e despertam sentimentos negativos, outras apontam para um consumo desenfreado e inalcançável e introduzem a pessoa numa espiral de excessos. A antiga ascese falava da “custodia oculorum” (guarda das vistas).

 

Importa aprender a olhar a graça e a beleza de uma criança, o andar calmo e lento de uma senhora de idade, o desabrochar das flores, o olhar preocupado do pai, da mãe, de um irmão. Aprender a olhar a alegria no semblante de um colega, o gesto de humildade que é colocado diante de nossos olhos, ou seja, prestar atenção naquilo que nos faz crescer por dentro, louvar a Deus, que nos leva a colocar gestos de beleza e de bondade. As crianças não podem ter seu olhar conspurcado por um sistema que quer acabar com a verdadeira pureza do coração.

Os pais haverão também de educar para a escuta. No tocante ao ouvido dever-se-ia adotar o mesmo procedimento que aludimos com respeito ao olhar. Nem tudo o que se diz à nossa volta é para ser ouvido. Nem mesmo tratando-se de música, uma das expressões artísticas que mais tocam a sensibilidade. Há composições que ferem os ouvidos e provocam agressividade, com sua cadência e suas letras, outras, é claro, levam a pessoa a extrair de seu interior sentimentos de júbilo, de delicadeza e de encantamento.

Muito provavelmente a capacidade de escuta seja uma das qualidades mais difíceis de ser adquirida. Exige paciência, interesse, consciência de que o outro tem alguma a me dizer, ou uma fala que me ajudará a compreender-me a mim, aos outros e a vida. Parece importante fazer exercício com as crianças no sentido de fiquem caladas certo tempo, leiam um texto “escutando” o que está para além das palavras e gravuras. Há matizes da vida que só podem captados a partir da “afinação” de nosso ouvido. As crianças precisam aprender a se retirar e a não ouvir tudo o que se passa a sua volta: palavras e conversas degradantes, comentários maldosos. Há os que afirmam que deve ser considerada como obrigação moral, de quando em vez, desligar o aparelho de televisão. Mas, hoje com as técnicas de alienação estão ao alcance das crianças nos mirabolantes celulares.

III.ESPIRITUALIDADE

Dor e Amor

 

Todos aprendemos a olhar o imenso respeito e carinho a figura de Francisco de Assis. Desde pequenos ficamos sabendo que, por inaudita graça, ele tinha sido assinalado em seu corpo vestígios da paixão de  Cristo Jesus.  Que homem! Serafim de amor e Cristo redivivo.

 

Dois anos antes de partir deste mundo, permanecendo Francisco no eremitério que, em razão do local onde se encontra tem o nome de Alverne, foi por Deus favorecido com a seguinte visão: pairando acima dele, apareceu-lhe um homem em forma de Serafim, com seis asas preso a uma cruz, os braços estendidos, unidos os pés.  Duas asas prolongavam-se  por cima da cabeça, duas abriam-se para voar e outras duas  cobriam-lhe o corpo.

 

Esta aparição mergulhou num pasmo infindo o servo do Altíssimo que, todavia, não acabava de lhe entender o significado. Sentindo-se envolvido pelo olhar benigno e afetuoso daquele serafim de inexcedível beleza, experimentava um gozo imenso, uma fogosa alegria. Contudo, aterrava-o sobremaneira vê-lo cravado na cruz, sofrendo atrozmente as dores de tamanha paixão. Levantou-se triste e alegre ao mesmo tempo, se assim me é lícito exprimir, alternando em seu espírito sentimentos de fruição e de amargura. Buscava com ardor descobrir o sentido da visão, mas todo se lhe agitava o espirito no esforço de o conseguir.  Não lhe consentindo a inteligência devassar coisa alguma e sentindo-se totalmente subjugado com a singularidade da aparição, eis que nas suas próprias mãos e pés vê surgir os mesmos sinais dos cravos que pouco antes vira no  misterioso homem crucificado.

Tomás de Celano
Vida Primeira de São Francisco, n. 94

IV. UMA LUMINOSA FÁBULA

Houve um tempo em que todos os homens eram deuses

 

Sim, lenda é lenda. Mas toda lenda bem antiga esconde verdades.

 

Uma antiga lenda hindu evoca o tempo em que todos os homens eram deuses. Infelizmente, naquela época, abusaram tanto de sua divindade que Brama, o mestre dos deuses, resolveu retirar deles o poder divino e escondê-lo num lugar onde seria impossível reencontra-lo. A grande questão foi encontrar esse esconderijo.  Quando os deuses menores se reuniram em Conselho, propuseram o seguinte: “Vamos enterrar a divindade do homem na terra!” Brama, no entanto, respondeu: “Essa não é a solução porque o homem vai cavar a terra e haverá de encontrá-la”. Os deuses, então, replicaram: “Vamos lançar a divindade no mais profundo abismo do oceano”. Brama retorquiu: “Não, mais cedo ou mais tarde o homem explorará  as profundezas de todos os oceanos e uma dia a encontrará e fará com que venha à superfície…”.

 

Desanimados, sem mais imaginar outra solução, os deuses desistiram de inventar alguma coisa: “Na verdade, não sabemos mesmo onde ocultá-la.  Tudo indica que  na terra ou no mar não existe um lugar que seja  inalcançável pelo homem”.

Então Brama disse:  “Já sei que o que vamos fazer com a divindade do homem: escondê-la-emos no mais profundo dele mesmo; será o único lugar em que ele não pensará encontra-la…”.

E a partir de então, conclui a lenda, o homem deu a volta na terra, explorou-a, escalou montanhas, mergulhou, cavou  na busca de algo que está dentro dele próprio

Lenda transcrita no livro
L’évangile d’un libre penseur
Gabriel  Ringlet
Albin Michel,  Paris, p. 217-218

V. MEDITAÇÃO EM FORMA DE ORAÇÃO

O Senhor anda atrás de ti…

 

Será que nunca serei o primeiro?

Você não está ouvindo seu passo silencioso?
Ele está perto. Ele está perto. Ele está perto.
A cada instante. A cada estação da vida,
a cada dia, a cada noite.
Ele está perto. Ele se aproxima.

Tagore

Havia começado meus passos em tua direção,
E depressa me dei conta que vinhas ao meu encalço.
Queria correr rumo a ti,
e vi que acorrias a mim.
Desejava esperar-te,
e fiquei  sabendo que me esperavas.
Queria te procurar,
mas vi que já andavas à minha procura.
Pensei comigo mesmo: “Finalmente te encontrei”,
mas senti que  já tinha si por ti encontrado.
Eu queria dizer: “Te amo”
mas fui eu que te ouvi dizer:
“Tu me és muito caro”.
Tinha a intenção de te escolher,
mas me escolheste antes.
Queria te escrever,
mas  vejo que tu carta chegou antes.
Desejava viver em ti
e me dei conta que já vivias em mim.
Queria te pedir perdão,
mas fiquei sabendo que já me tinhas perdoado.
Ansiava por me oferecer  ai  ti,
mas recebi o dom inteiro de ti mesmo.
Desejava te oferecer minha amizade
e recebi o presente da tua.

Queria te chamar de  “Abba Pai!”
mas te ouvi já me dizendo:  “Meu filho”.
Ansiava por revelar-te minha vinda interior,
e eis te surpreendi revelando-me  a profundidade de teu ser.
Queria te convidar para fazer parte
do mais profundo de mim mesmo
e eis que sou convidado para entrar em tua intimidade.
Desejava exultar de alegria por ter voltado para ti
e me dei conta que já te alegravas com minha volta.

Afinal de contas, será que nuca serei o primeiro?

Revista  Prier, n.98